Very Short Narrative – Uicipeid

It soon became dusk. The old city, the cradle of my existence. The same silent streets, distributed randomly across the eroded plain. Huts and mixed metal constructions, parasitizing one another against the will of man, carried by a wave of growth and the need for shelter that humans call civilization.

I was born and raised in NeoCity, and only now am I back. As I walk down the dark streets, I see metallic cables, generators scattered about the roofs, windows surrounded by frowning bars, doors with locks and magical eyes, peering out of the shadows.

I’m back to retrieve my bio implants, taken from me by Leonard, my former mentor. Lost in memories, I sneak mechanically through the gaps of gray-lead buildings. I avoid the trains, more dangerous than the alleys. I have trouble remembering the way. Leonard and other organ dealers, androids and parts trade here.

It is then that in front of a shop window, I stop.

The colorful neon light gushing from the retro TVs form the same image on every screen: my face. Wanted and dangerous. Hunted, and I do not even know why.

The initial shock gives way to my instinct for survival. I feel an itch through my body. I enter a long corridor formed by small huts, where there is little light and movement. I find a staircase to the lower part of the district. The steps seem to multiply, but at last I reach the end of the tunnel.

It rains.

The slippery floor and the muddy walls are insidious. I can hear the noise of altered voices in the streets a little above. I crawl, slowly. Finally, I find Leonard’s shed, pouting between two black towers of concrete, metal and ivory. The building is in ruins. An alien vegetation springs from the rubble, clinging to the side towers.

At one corner of the shed there seems to be a hidden entrance. Leonard may have done this to avoid inquiring. I descend carefully, clinging to the mossy rocks.

The underground room is littered with trash, metal, broken tables, train parts, old food scattered around the corners. On a low metal table, I find an old 0X-D, an android model of the last century. Connect your recharging plug to the terminals on the wall. Lights in his torso sparkle, and his lenses adjust to the darkness.

“Le-Leonard?”

“Where’s Leonard?” I draw closer, the voice an urgent whisper.

“Jack? Leonard said you’d come. “

“Where’s the old man, 0X? I want my implants back! “

0X turns his head, as if looking for something. I repeat the question. He focuses on me again:

“Jack, you need to understand, Leonard did not know what you kept.”

“What are you talking about, you son of a bitch? Where is Leonard? “

“Jack, Leonard is dead. But he knew you would come. The militia is coming. Run away! “

Voices spring from the access shaft. I could not go out there. I would have to go into the building to find another way out. I find the stairs to the ground floor on the other side of the room and climb through them. Militiamen boast my presence.

I reach the roof. There is a staircase in one of the ivory towers. I begin to rise. The nearest window is a hundred steps up. I walk halfway, always looking down. First one, then two, and then three little heads sprout from the gap. The militiamen gesture and one of them points in my direction. A small metal object shines in his hand.

I cannot see or hear anything firing from the gun. But then, my fingers start to catch fire and my hands open, involuntarily. I fall.

I open my eyes. The dark sky merges with the metal towers curved over me. I do not feel pain. I do not fell nothing. Something is wrong. An insistent buzz persuades my brain, causing a general discomfort.

I try to move my arms, trying to understand how I survived the fall, when one of the militiamen speaks to others:

“Central, we have one more defective model.”

Tradução

Meus passos reverberam no cascalho fino. Poeira vermelha ergue-se morosa conforme caminho.

Anoiteceu a pouco. A velha cidade, o berço da minha existência. As mesmas ruas ressequidas e silenciosas, distribuídas de maneira randômica por toda a planície erodida. Casebres e construções metálicas misturadas, parasitando umas às outras contra a vontade do homem, levadas por uma onda de crescimento e necessidade de acolhimento que os seres humanos chamam de civilização.

Nasci e cresci em NeoCity, e só agora estou de volta. Conforme desço as ruas escuras, percebo que pouco mudou. Cabos metálicos, geradores espalhados pelos telhados, janelas cercadas por grades carrancudas, portas com trincos e olhos mágicos, espreitando das sombras.

Estou de volta para recuperar meus bioimplantes, tirados de mim por Leonard, meu ex-mentor. Perdido em memórias, me esgueiro mecanicamente entre os vãos dos prédios cinza-chumbo, rua após rua. Evito os trens condutores, mais perigosos que os becos. Minha memória me trai. Tenho dificuldades em lembrar o caminho. Leonard e outros comerciantes de órgãos, androides e peças negociam aqui. As construções misturam-se, portas e janelas alternando suas funções.

É então que diante de uma vitrine, paro.

A luz de neon colorida jorrando dos televisores retrô formam a mesma imagem em todas as telas: o meu rosto. Procurado e perigoso. O império quer minha cabeça, e eu nem sei o porquê.

O choque inicial dá lugar ao meu instinto de sobrevivência. No lugar onde haviam meus implantes sinto um comichão familiar. Entro em um longo corredor formado por pequenos casebres, onde há pouca luz e movimento. Encontro uma escadaria para a parte baixa do distrito. A descida é ingreme e escura. Os degraus parecem se multiplicar, mas enfim chego ao fim do tunel.

Chove.

O chão escorregadio e as paredes cheias de limo são insidiosos. Consigo ouvir barulho de vozes alteradas nas ruas um pouco acima. Me arrasto, devagar. Finalmente encontro o galpão de Leonard, amuado entre duas torres negras de concreto, metal e marfim. O prédio está em ruínas. Uma vegetação alienígena brota dos escombros, grudando-se às torres laterais.

A um canto do galpão parece haver uma entrada oculta. Leonard pode ter feito isso para evitar curiosos. Desço com cuidado, agarrando-me às pedras cobertas de musgo.

O aposento subterrâneo está repleto de lixo, metal, mesas quebradas, peças para trens, comida velha espalhada pelos cantos. Em uma mesa baixa de metal encontro um velho 0X-D, um modelo de androide do século passado. Conecto seu plug de recarga aos terminais na parede. Luzes em seu torso píscam, e suas lentes se ajustam à semi escuridão.

“Le-Leonard?”

“Onde está Leonard?” – Me aproximo, a voz um sussurro urgente.

“Jack? Leonard disse que você viria.”

“Onde está o velho, 0X? Quero meus implantes!”

0X gira a cabeça, como que buscando algo. Repito a pergunta. Ele focaliza em mim novamente:

“Jack, você precisa entender, Leonard não sabia o que você guardava.”

“Do que está falando, seu filho da puta? Onde está Leonard?”

“Jack, Leonard morreu. Mas sabia que você viria. A milícia está chegando. Fuja!”

Vozes brotam do poço de acesso. Não poderia sair por ali. Teria que ir prédio adentro encontrar outra saída. Acho as escadas para o térreo do outro lado da sala e subo por elas. Milicianos alardeiam minha presença.

Consigo achar um vão para o telhado. Há uma escada numa das torres de marfim. Começo a subir. A janela mais próxima fica há uma centena de degraus. Faço metade do caminho, sempre olhando para baixo. Primeiro uma, depois duas, e então três cabecinhas brotam do vão. Os milicianos gesticulam e um deles aponta em minha direção. Um pequeno objeto metálico brilha em sua mão.

Não chego a ver ou ouvir nada disparando da arma. Mas então meus dedos começam a pegar fogo e minhas mãos se abrem, involuntariamente.

Eu caio.

Abro os olhos. O céu escuro funde-se com as torres metálicas curvadas sobre mim. Não sinto dor. Algo está errado. Um zumbido insistente perspaça meu cérebro, causando um desconforto geral.

Tento mexer meus braços, buscando entender como sobrevivi à queda, quando um dos milicianos fala para os outros:

“Central, temos mais um modelo com defeito.”