La Rose de Fer (1973, Jean Rollin)

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Seja malvindo a mais um novo espaço na rede mundial de computadores, dedicado exclusivamente à perda do seu tempo e de minha paciência. No qual, você: adicto, poderá escapar, uma vez mais, da entediante ou tediosa tarefa de pensar, e mais, de pensar criticamente, coisa que, na improvável hipótese de você saber o que significa, certamente não tem o costume de fazer. Aqui você poderá apanhar frases feitas e consumi-las, acriticamente e gulosamente, como o filhote que engole o alimento regurgitado pela mamãe e sentir-se satisfeito e aliviado por não ter que fazer qualquer esforço, enquanto preenche o vazio da sua vida com coisas completamente irrelevantes, em sua covarde, mas obstinada resistência a simplesmente viver. O assunto, se é que importa – poderia ser qualquer coisa, afinal, para VOCÊ não faz diferença nenhuma -, são filmes. Há muito o que se falar, ao mesmo tempo sem nada dizer, sobre a matéria. Deixemos isso para uma outra inoportunidade.
Antes de mais nada ou antes de tudo, nesta terrinha tão selvagem e ignorante – a world wide web -, é preciso deixar tudo muito claro e bem explicadinho, deixando transparentes as regras que regem este ato unilateral, para que não me venham acionar na Justiça ou acusar-me de propaganda enganosa. Entenda. É bem simples (ou quer que eu desenhe?):
A primeira e a mais importante regra, é que eu, o autor, simplesmente não dou a mínima (ou os equivalentes em inglês: “I don’t care” ou “I don’t give a damn”) para o que VOCÊ pensa. Não adianta enviar mensagens raivosas e espumantes por email, ou abaixo, nos comentários, pois ninguém vai lê-los. Muito menos eu. Não é realmente triste o fato de que ninguém jamais levou realmente a sério qualquer coisa que você disse? Até seus pais sempre o viram como uma criança, ignorando seus pleitos petizes. E eu sequer conheço você e jamais terei o desprazer de conhecê-la(o). Não tenho o mínimo compromisso em agradá-la(o). Isto aqui é apenas um exercício, uma terapia, receitada pelo meu médico e vá passear.
Esta talvez seja filosófica demais para o seu gosto, então, faça-se um favor e pule diretamente para a 3ª regra. Esta é a crítica sobre a crítica. A metacrítica. Ou autoanálise. Pois todo crítico é, antes de mais nada, um tolo. A vida do crítico resume-se a parasitar a obra do outro. O autor tem todo o trabalho. Falar é fácil, difícil é fazer. O único trabalho do crítico é analisar, agitar e traduzir em insultos sua própria inveja. Se realmente soubesse do que está falando, faria melhor. Algo semelhante àqueles técnicos de sofá, que uivam e berram como bestas no cio, vociferando críticas para atletas que ganham milhões com sua audiência e permanecem mui alheios e indiferentes às críticas inânimes e ineptas de incapazes. E aqui a coisa torna-se ainda mais complexa, pois como alucinaria George Berkerley, ou qualquer residente de manicômio, todo o seu conhecimento, ou o que você ACHA que sabe, na verdade está apenas dentro de sua cabeça. Você é o filtro pelo qual passam todas as suas próprias idiotices. Quando você olha o mundo, não é o mundo que você vê, mas apenas um reflexo distorcido e apagado, formado pela mistura heterogênea de serotoninas, norepinefrinas, hormônios bovinos, burrice e uma vacilante eletricidade, dos impulsos advindos de seus débeis 5 sentidos. Então, quando você critica alguma obra, não está criticando a obra em si, mas a imagem que você faz dela, com todos os seus preconceitos e defeitos e incapacidades. Em última instância, o crítico critica a si mesmo, e não a obra. Quase sempre, o aborrecimento e o enfado que alguma obra artística lhe cria no espírito, nada mais é do que a prova de sua própria incompreensão e incompetência. Por isso tudo lhe parece sempre tão estúpido. Fernando Pessoa te zombaria com um “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e você nem entenderia a ironia; e
Por último, é necessário entender o método. Pois qualquer trabalho que se preze tem que ter um método. A loucura boa tem um método. O assassino em série possui um método. E o método a ser seguido é o da livre associação de ideias, vale dizer, escreverei o que me der na telha. Pode ser o método dos dadaístas ou o “cut-up” dos drogaditos beatniks, o devaneio do psicanalista ou, porque não? A revelação divina e o transe mediúnico. Então ouvi, esta resenha do Senhor teu Deus sobre cinema. Fica ainda uma última observação: só serão feitas resenhas de filmes que assisti há muito tempo e já não lembro bem. Assim será destacado apenas o que vale a pena lembrar, e sendo a memória humana, assim como os filtros pelos quais ela passa para se formar, falha, incompleta, alterável com o tempo – se você lembrar muito de alguma memória, ela se altera com facilidade, pergunte aos neurologistas – certamente lembrarei dos filmes de forma melhor do que realmente eram. Como disse o personagem principal de “A Estrada Perdida” (Lost Highway), do onírico David Lynch, quando recusou que lhe mostrassem uma foto: “Prefiro me lembrar das coisas do meu jeito”.
Feitas essas breves considerações sobre princípios, métodos e objetivos, passemos à análise do objeto: A Rosa de Ferro (La Rose de Fer, 1973), do desconhecido nestas terras e em quaisquer outras Jean Rollin.

Screen 1

E que dizer de um filme que é tão obscuro quanto seu autor é desconhecido? Ou ainda, no caso em que a vida do autor – um desconhecido – sem muitos fatos é mais interessante que sua obra. Jean Rollin que, sob pseudônimos (ou nem tanto, pois seu nome de batismo era Jean Michel Rollin Le Gentil) como Michel Gentil, Michel Gand e Robert ou René Xavier possui em sua filmografia mais pornôs do que filmes… convencionais?
Aha! Agora chamei sua atenção! Não é mesmo, sua(eu) pervertida(o)? Você provavelmente chegou nesta resenha somente por causa da palavra “pornô”, quando fez uma busca no Google (o único buscador que conhece), juntamente com outras palavras como “manicômio” ou “cães”. Pois então, atiro-lhe um balde de água fria, como em cães atracados, pois no filme inteiro, embora a pouca fama de seu diretor venha justamente de seus filmes com vampiras lésbicas, você verá apenas um, talvez dois, mamilos, de relance. Dirigia filmes intitulados Le frisson des vampires (Frisson dos Vampiros), Lèvres de sang (Lábios de Sangue), Uvas da Morte… e Hyperpénétrations (Hiperpenetrações), Sodomanie etc.
E por falar em perversão, quiçá o fato mais interessante da vida de Jean Rollin seja o de que ele conheceu – quando criança – o filósofo e pervertido Georges Battaile, escritor anônimo (mas descobriram-lhe, é óbvio) de “A História do Olho”, no qual demonstra, com o rigor de um matemático, as propriedades afrodisíacas de um globo ocular, arrancado por uma chifrada de touro. Um prenúncio notável, ou profético, da temática do filme (e do livro de J. G. Ballard, no qual foi baseado) “Crash – Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg. Georges Battaile, repita-se, notável filósofo, certa vez criou uma sociedade erótica e secreta, com o fim último de que alguns amigos seus o matassem, durante uma orgia, decepando-lhe a cabeça. O único amigo, que primeiramente aceitara a tarefa, acovardou-se na última hora. Talvez seja digno de nota, e coloco ênfase no “talvez”, o pequeno tumulto causado durante a apresentação de seu primeiro filme “Le viol du vampire” (O estupro da(o) vampira(o)).
Muitos de seus atores nos filmes pornográficos também atuavam em seus filmes mais… regulares (?). Cenas de um dos seus filmes mais “famosos”, Lábios de Sangue, que não lhe trouxe nenhum lucro, foram reaproveitadas com a inserção de pornografia pesada e a participação do ator principal do título original. Destaque para um “beijo” vampírico muito íntimo no climax do filme recondicionado, aptamente intitulado “Suce moi vampire” (Chupe-me vampira(o)).

Screen 2
Gosto de imaginar Jean Rollin como alguém que se via forçado a produzir pornografia para ganhar alguns trocados e assim poder – ou tentar – dirigir os filmes que realmente sonhava fazer. Algo como precisar prostituir-se para comprar drogas. Imagine ter um talento impressionante para pintar telas, mas não ser reconhecido, e ter que praticar fraudes e estelionatos ou fazer réplicas de má qualidade para sobreviver. Algumas mentes, durante a curta história da humanidade, brilharam com tal intensidade que até hoje é possível sentir o cheiro de queimado com que incensaram o passar dos tempos. Por outro lado, alguns talentos, certamente devem permanecer ignotos. A lógica nos conduz à inevitável conclusão de que alguém, certamente, foi a maior e mais hábil prostituta de todos os tempos (até agora…). Messalina o seu nome? Jamais saberemos. Provavelmente a maior meretriz da História repousa em alguma vala comum, sem qualquer identificação. A maior parte dos grandes artistas só é reconhecida após sua morte. Afinal, quem gostaria de admitir que o seu vizinho, vivo e arrogante, é um gênio? A inveja e o orgulho não o permitem. Somente é possível fazê-lo com alguém que já se putrefez em vermes e chorume e, da vida, só carrega um semblante risonho e dentuço. Não quero com isso dizer que Jean Rollin fosse um gênio. Sendo generoso, seus filmes me parecem bem medíocres. O que posso afirmar é que tinha muita sorte.
Por algum motivo, lembro-me de Rosa de Ferro como um filme em preto e branco, muito embora não o seja. Filmes em preto e branco carregam um maior peso, uma gravidade, uma certa pressão, uma seriedade maior que seus similares coloridos. Muitos elementos na tela devem rarefazer a importância. Duas cores apenas tendem a enfatizar as situações para as quais servem de moldura. Assistam “O Gabinete do Dr. Caligari” para entender isso. Ou permaneçam ignorantes.
Provavelmente, estraguei a mística do filme, ao contar uma ou outra coisa sobre seu Diretor (neste caso, também autor). Mas como dito acima, não me importo. Pessoalmente, admirei muito mais o filme quando tive a serendipidade de encontrá-lo, sem nada saber sobre quem o dirigiu ou dele participou.
Os atores são irrelevantes (neste caso). Na realidade, até atrapalham. Há menos de meia dúzia deles. E o drama se desenrola com apenas dois. O filme faz o favor de sequer nomeá-los. São apenas um rapaz e uma garota qualquer. Tem feições peculiares o suficiente para diferenciá-los do restante da paisagem, e nada mais. Quando muito, recitam algum poeta desconhecido, em tom monótono. O verdadeiro ator do filme é o cenário. O labirinto. Suas ações são os movimentos da câmera.

Screen 3
O labirinto é um arquétipo (imagem, ideia ou modelo primordial) muito presente na psiquê humana. Talvez seja o medo da criança de se perder. Ou o desejo de seus pais de que ela se perca, para que sua vida tenha algum sentido (a procura, o luto, o recomeço). Ou aqueles sonhos em que você corre, corre e não sai do lugar. E a figura, sinistra, nebulosa, no seu encalço. Como o Minotauro, no centro do labirinto. Certamente as figuras do minotauro que se veem por aí não fazem jus à ideia primordial. A figura, com chifres pontudos e longos, bestial, titânica, muito presente desde a antiguidade, na figura de Pã e Baco, e até mesmo nas pinturas dos homens das cavernas, muito provavelmente é a origem do que contemporaneamente se qualifica como “satânico”.
E ela está sempre no centro do labirinto, assim como o medo e as fobias, o desejo sexual doentio, a vergonha secreta, o pavor animalesco e o reflexo de contorcer-se em posição fetal entranham-se no centro escuro da sua mente, detrás de corredores e corredores e portas trancadas e comportas e válvulas de escape, de domesticação e inibições e fingimentos e costumes sociais.
Aqui, na Rosa de Ferro, a figura do labirinto traveste-se de cemitério. O cemitério infinito. Seria uma metáfora elevada ao quadrado?
Após sobreviver aos primeiros e monótonos dez minutos de filme, o adicto (VOCÊ), assim como o casal de heróis, está prestes a adentrar e perder-se no cemitério, para um corriqueiro e romântico piquenique. Oras, que lugar mais apropriado para uma frugal refeição do que um cemitério? Milhares de interpretações daí podem exsurgir. Como de um vaso sanitário entupido em um refluxo violento de esgoto. Seria uma metáfora para uma descida à loucura, para o purgatório, para o inferno? O próprio rapaz, em um clichê inevitável, repete antes de cruzar os umbrais que o separam do mundo moderno (e real) a frase da Divina Comédia de Dante Alighieri: “Abandone toda esperança aquele que aqui adentrar…”. Certamente que a alegoria da descensão (descida para os analfabetos), do declínio, da queda (perda da inocência?) livre e em espiral, do enlouquecer é tentadora. Qual será a experiência subjetiva do louco a enlouquecer? Da pessoa que sofre de Alzheimer? Será que é um lento, mas irrefreável, adormecer? Um sono cada vez mais pesados, as vozes ao seu redor cada vez mais distantes e abafadas. Uma marcha em direção ao sonho ou pesadelo do qual não se pode volver para trás? Mas isso não diz nada sobre o filme, apenas, como explicado acima, sobre o estado de espírito do suposto intérprete. Ou seria simplesmente a história de um casal burro demais para viver (“too dumb to live”)?

Screen 4
Noutra banda, um palhaço maltrapilho anda vagarosamente entre as sepulturas e deposita flores murchas sobre um túmulo. Que se deseja dizer com isso? Tudo morre? Até a alegria morre? A juventude? Tudo já está morto? Nascer é morrer lentamente? Um mágico aparece e desaparece em meio aos jazigos. Seria um circo? A vida é um circo? A morte é um circo? A vida é morte? A perda de um relógio nalgum mausoléu subterrâneo? A perda de tempo em assistir esse filme, ou a relação entre o tempo, a efemeridade e a morte? Os poucos transeuntes, figuras espectrais, entram logo de manhã e saem ao entardecer, apenas para retornar no outro dia. Somente há vida em função da morte? A função da vida, sua finalidade, é a morte? Que é a morte? Mas especulações dessa natureza, apesar de sedutoras, são fáceis, tangenciais e covardes. Qualificar esta obra como um filme pode parecer duvidoso. Trata-se na verdade de uma sequência de pinturas, poesia visual. E obras como a que aqui se apresenta parecem convidar o intérprete a preencher o vazio com suas próprias fraquezas e desejos. O sábio e o louco encontrarão verdades profundas, mesmo que elas não estejam lá. O arrogante e pretensioso encontrará mil e um segredos ocultos, que não foram ocultados por ninguém, como criança de vívida imaginação e seu livro de figuras. A intenção do autor? Quem sabe fazer passar sua preguiça por verdade profunda? Ou teria realmente algo a dizer? O imbecil verá apenas aborrecimento, ou nada verá. Ao elogiar um filme, o narcisista está apenas declarando impudicamente seu amor a si mesmo. Rose de Fer é um teste de Rorschach.
A obra pode ultrapassar o seu criador? A criatura é melhor que o criador? A criatura cria o seu próprio criador? Que dizer de filmes como o “6º Sentido” e os filmes seguintes de M. Night Shyamalan? Pode o criador realmente entender a sua criatura?
Há algum enredo? O Diretor provavelmente imaginou que havia um. Não entrarei em detalhes, mas envolve a figura edênica de Eva, no paraíso, com seu Adão. Afinal, todas as histórias existentes são um plágio dessa outra. Assim como o desejo tipicamente feminino de devorar sua prole, com sua contraparte masculina de ser devorado.
Não importa. Como dito, o ator principal aqui é o cenário e é um ótimo ator. Jean Rollin tem muita sorte, porque sequer precisou contar uma história com um cenário desses. É possível sentir o gosto da atmosfera e da decrepitude. Pesada, enevoada, lânguida. Poderia muito bem passar-se horas filmando o cemitério, que o adicto se satisfaria. E é exatamente o que faz. Muitas vezes, os atores atrapalham o deleite do cenário, como diria Diógenes, o Cão, outro notável filósofo: “fazendo sombra sobre o meu sol”.
É difícil acreditar que possam existir lugares assim, ainda, amálgama impuro e andrógino de sonho e realidade. O cemitério é bem real. Aparentemente, não foi gasto um centavo sequer com efeitos especiais. Tudo está, por assim dizer, ali mesmo, e chega a nos causar dúvidas se os atores realmente praticaram atos de vandalismo em um… cemitério.

Screen 5
Muitos filmes de Jean Rollin são assim. Castelos e masmorras e cenários de sonho, que não custaram um tostão. Mas aqui parece ter atingido seu ponto alto. Causa revolta saber que hoje gastam-se centenas de milhões de dólares e não se consegue criar uma locação tão magnética. Talvez justamente por isso, por não serem reais, não conseguem captar o irreal. A verdadeira sombra precisa de luz verdadeira.
Poucos filmes conseguem tão bem captar essa natureza imaterial do sonho e do fantástico, sem sequer fazerem menção ao sonho e ao fantástico. Veem à minha mente apenas “Suspiria”, “Inferno”, “Profondo Rosso” (algumas poucas cenas da cidade noturna), todos estes de Dario Argento, “Stalker” de Tartakovsky e “Alucinações do Passado” de Adrian Lyne.
Com o cair da noite, o sonho converte-se em pesadelo. Infinito e labiríntico e repetitivo. E assim como a garota desta película e o traidor do filme “Matrix” que faria de tudo pela pílula azul, o adicto não quer mais sair. O objetivo, a finalidade do labirinto não é o de escapar, mas sim o de perder-se. Perca-se.
Finalmente, indispensável criar também um sistema de pontuação. Premiarei os filmes com “fucks”. Em uma escala que vai de 1 a 5, esta obra ganha -1,5 “fuck” pela história, atores etc, 4 “fucks” pela atmosfera, ambientação e pela sorte do Diretor em encontrar um cenário tão perfeito e 1 “what the fuck” pelo palhaço, totalizando 3,5 “fucks”.
Agora, só te resta “suck my fuck”.

O Misantropista.

Está curioso para assistir ao filme?

Completo no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=KVetLdvZlP0


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