Recall

Meus passos reverberam no cascalho fino. Poeira vermelha ergue-se morosa conforme caminho.

Anoiteceu a pouco. A velha cidade, o berço da minha existência. As mesmas ruas ressequidas e silenciosas, distribuídas de maneira randômica por toda a planície erodida. Casebres e construções metálicas misturadas, parasitando umas às outras contra a vontade do homem, levadas por uma onda de crescimento e necessidade de acolhimento que os seres humanos chamam de civilização.

Nasci e cresci em NeoCity, e só agora estou de volta. Conforme desço as ruas escuras, percebo que pouco mudou. Cabos metálicos, geradores espalhados pelos telhados, janelas cercadas por grades carrancudas, portas com trincos e olhos mágicos, espreitando das sombras.

Estou de volta para recuperar meus bioimplantes, tirados de mim por Leonard, meu ex-mentor. Perdido em memórias, me esgueiro mecanicamente entre os vãos dos prédios cinza-chumbo, rua após rua. Evito os trens condutores, mais perigosos que os becos. Minha memória me trai. Tenho dificuldades em lembrar o caminho. Leonard e outros comerciantes de órgãos, androides e peças negociam aqui. As construções misturam-se, portas e janelas alternando suas funções.

É então que diante de uma vitrine, paro.

A luz de neon colorida jorrando dos televisores retrô formam a mesma imagem em todas as telas: o meu rosto. Procurado e perigoso. O império quer minha cabeça, e eu nem sei o porquê.

O choque inicial dá lugar ao meu instinto de sobrevivência. No lugar onde haviam meus implantes sinto um comichão familiar. Entro em um longo corredor formado por pequenos casebres, onde há pouca luz e movimento. Encontro uma escadaria para a parte baixa do distrito. A descida é ingreme e escura. Os degraus parecem se multiplicar, mas enfim chego ao fim do tunel.

Chove.

O chão escorregadio e as paredes cheias de limo são insidiosos. Consigo ouvir barulho de vozes alteradas nas ruas um pouco acima. Me arrasto, devagar. Finalmente encontro o galpão de Leonard, amuado entre duas torres negras de concreto, metal e marfim. O prédio está em ruínas. Uma vegetação alienígena brota dos escombros, grudando-se às torres laterais.

A um canto do galpão parece haver uma entrada oculta. Leonard pode ter feito isso para evitar curiosos. Desço com cuidado, agarrando-me às pedras cobertas de musgo.

O aposento subterrâneo está repleto de lixo, metal, mesas quebradas, peças para trens, comida velha espalhada pelos cantos. Em uma mesa baixa de metal encontro um velho 0X-D, um modelo de androide do século passado. Conecto seu plug de recarga aos terminais na parede. Luzes em seu torso píscam, e suas lentes se ajustam à semi escuridão.

“Le-Leonard?”

“Onde está Leonard?” – Me aproximo, a voz um sussurro urgente.

“Jack? Leonard disse que você viria.”

“Onde está o velho, 0X? Quero meus implantes!”

0X gira a cabeça, como que buscando algo. Repito a pergunta. Ele focaliza em mim novamente:

“Jack, você precisa entender, Leonard não sabia o que você guardava.”

“Do que está falando, seu filho da puta? Onde está Leonard?”

“Jack, Leonard morreu. Mas sabia que você viria. A milícia está chegando. Fuja!”

Vozes brotam do poço de acesso. Não poderia sair por ali. Teria que ir prédio adentro encontrar outra saída. Acho as escadas para o térreo do outro lado da sala e subo por elas. Milicianos alardeiam minha presença.

Consigo achar um vão para o telhado. Há uma escada numa das torres de marfim. Começo a subir. A janela mais próxima fica há uma centena de degraus. Faço metade do caminho, sempre olhando para baixo. Primeiro uma, depois duas, e então três cabecinhas brotam do vão. Os milicianos gesticulam e um deles aponta em minha direção. Um pequeno objeto metálico brilha em sua mão.

Não chego a ver ou ouvir nada disparando da arma. Mas então meus dedos começam a pegar fogo e minhas mãos se abrem, involuntariamente.

Eu caio.

Abro os olhos. O céu escuro funde-se com as torres metálicas curvadas sobre mim. Não sinto dor. Algo está errado. Um zumbido insistente perspaça meu cérebro, causando um desconforto geral.

Tento mexer meus braços, buscando entender como sobrevivi à queda, quando um dos milicianos fala para os outros:

“Central, temos mais um modelo com defeito.