Recall

Meus passos reverberam no chão de pedra. Poeira vermelha ergue-se morosa conforme caminho.

Anoiteceu a pouco. Chego, junto com a noite, à velha cidade, minha progenitora. Ruas raquíticas e silenciosas, distribuídas de maneira randômica por toda a planície. Casebres e construções metálicas misturadas, parasitando umas às outras contra a vontade do homem, levadas por uma onda de crescimento e necessidade de acolhimento que os seres humanos chamam de civilização.

Nasci e cresci em A. Conforme desço as ruas mal iluminadas, percebo que quase nada mudou. Cabos metálicos cruzando as ruas estreitas, geradores espalhados pelos telhados e paredes, janelas cercadas por grades carrancudas, portas com trincos e barras de metal.

Sai dessas ruas um jovem revolucionário. Voltei um pirata de dados com mais bioimplantes e pedaços de metal pelo corpo do que gostaria; um embrião mutante gerado pela sociedade que um dia condenei.

Sobre meus bioimplantes: Leonard, o construtor, roubou-os de mim. Lembro de deitar em sua mesa cirúrgica, a fraca luz amarela, o zumbido do bisturi laser, cheiro de queimado exalando da minha carne. A sensação súbita de vázio no estomago e então acordo no meu pequeno cúbiculo no septuagésimo sétimo andar, do outro lado de NeoCity, sem meus implantes. Leonard sumiu. É por isso que estou aqui. Para pegar meus implantes de volta. E matar o velho safado, que deve ter voltado para o seu velho esconderijo.

Caminho tranquilamente, os velhos cheiros, a sensação de chuva iminente me trazendo lembranças. Evito os trens condutores da cidade, mais perigosos que os becos escuros. São dois quilômetros até chegar ao distrito sul. Leonard e outros comerciantes de órgãos ficam aqui. Minha memória desse lugar é obscura e cheia de vazios. As construções mudaram. Metamorfosearam-se em ambientes híbridos, misturados com a poeira, a umidade e as plantas nativas. Casas de pequenas famílias misturam-se com pousadas imundas, cafés baratos e bares-porões onde os operários bebem e conversam. Nunca se ouve uma briga. A milícia é rígida, mesmo nessa parte esquecida da cidade.

Alcanço as ruas mais iluminadas, repletas de pequenas lojas. Passo por várias delas, olhando as pessoas em seu interior, preocupadas em consumir, em gastar seus créditos mendigados. Cores berrantes misturam-se com lâmpadas frias de neon, gerando uma semi-escuridão colorida e contrastante. Deslizo tranquilo pelas minhas memórias daquelas ruas, do tempo em que era um simples estudante aspirando a um mundo melhor. Diante de uma vitrine, eu paro. Vejo um rosto conhecido numa tela de cristal, no noticiário estatal: o meu. Procurado. Considerado perigoso. Diz ainda que fui visto a última vez há três ruas de onde estou no momento.

Minha mente e corpo se paralisam. No lugar onde haviam meus implantes sinto um comichão familiar. O choque inicial dá lugar ao meu instinto de sobrevivência. Saio das luzes e adentro um corredor comprido intercalado por pequenos casebres, onde a luz é fraca e o movimento é quase zero. O silêncio só é interrompido pelo zumbido dos geradores encrustados nas paredes.

Vejo vultos há alguns metros. Saio por um dos becos para não lhes dar tempo de ver meu rosto. Encontro uma escadaria para a parte debaixo do distrito. Começa a chover. O chão escorregadio e as paredes cheias de limo são insidiosos e tornam a descida lenta.

Consigo ouvir barulho de vozes alteradas nas ruas um pouco acima. Reduzo meus passos a um arrastar lento e paciente. Finalmente encontro a velha estação de trem onde Leonard opera. Vejo seu galpão, amuado entre duas enormes torres negras de concreto, metal e marfim. Conforme chego perto, percebo que o prédio está em ruínas. Uma vegetação alienígena brota dos escombros, grudando-se às torres e penetrando em seu esqueleto de concreto rachado. O que teria acontecido ali?

Avisto no canto direito do velho galpão uma parte mais limpa, que termina em um poço discreto. Leonard pode ter feito isso para evitar curiosos. Desço com cuidado, agarrando-me nas pedras cobertas de musgo.

O aposento subterrâneo está repleto de lixo, metal, mesas quebradas, computadores, comida velha jogada por todos os lados. Olho com cuidado para tudo. Parece haver uma escadaria mais a esquerda, levando para o andar de cima, provavelmente o térreo. Há um canto mais limpo e arrumado onde uma mesa baixa de metal abriga um velho 0X-D, um modelo antiquado de autômato do século passado. Me aproximo e conecto seu plug de recarga aos terminais na parede. Seu corpo semi-enferrujado emite alguns sons, alguma engrenagem começa a rodar. Seus pequenos olhos brilham.

“Le-Leonard?” – as lentes do androide se ajustam à semi escuridão. Sua voz metalica é gerada por caixas de som antiquadas e antigas, produzindo um timbre agudo e tremido.

“Onde está Leonard?” – O automato direciona seus olhos para mim agora. Uma pequena luz azul-esverdeada pulsa lá dentro.

“Jack? Leonard disse que você viria.” – o maldito robô me conhece. Leonard esperava que eu viesse cobrá-lo.

“Onde está o velho? Quero meus implantes!” – Só meus implantes podem me ajudar a apagar meus rastros da milícia e então conseguir me misturar com a multidão.

0X roda a cabeça, como que buscando algo. Sacudo ele, repetindo a pergunta. Ele focaliza em mim novamente:

“Jack, Leonard não sabia o que você guardava. Queria ajudar, mas os educadores não permitiram. Me pediu para transmitir suas desculpas. Você deve fugir, imediatamente.”

“Do que está falando, seu filho da puta? Quero meus implantes! Onde está Leonard?”

“Jack, a milícia está chegando. Fuja!”

Neste momento vozes brotam do poço de acesso. Não poderia sair por ali. Tenho que ir prédio adentro procurar outra saída. As escadas para o térreo estão do outro lado da sala. Subo por elas. Milicianos gritam atrás de mim.

Consigo achar um vão para o telhado e passo por ele. Há uma escada numa das torres. Salto e começo a subir. As armas dos milicianos são de curto alcance. Subo uma centena de degraus olhando para baixo de tempos em tempos. Primeiro uma, depois duas, e então três cabecinhas brotam do vão. Os milicianos gesticulam e apontam em minha direção. Preciso me misturar às pessoas na torre, minha última saída, mas os acessos estão todos trancados.

Então um dos milicianos tira algo do casaco, e aponta para mim. Não cheguei a ver ou ouvir nada disparando da arma. Subitamente, meus dedos começam a pegar fogo e minhas mãos se abrem, involuntariamente.

Caio.

Abro os olhos. O céu escuro funde-se com as torres metálicas curvadas sobre mim. Não consigo mexer meu corpo, mas tampouco sinto dor. Algo está errado. Um zumbido insistente perspaça meu cérebro, causando um desconforto geral. Os milicianos me observam, atentamente. Um deles usa um velho rádio de comunicação, mas não consigo ouvir direito o que diz. Os outros dois me observam, tranquilos, conversando entre si. Estou tentando entender minha total falta de sentidos, de dor, de movimento. Tento mexer meus braços, mas não consigo sequer senti-los. Começo a me desesperar, quando ouço um dos milicianos dizer ao rádio:

“Central, avise aos delegados que recuperamos o autômato preferido do imperador.”


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