Recall

11-06-2018 Por francisco
10 de Novembro de 2399.

Escrevo essas linhas na esperança de que alguém no ciberespaço recebe-as, e caso acredite em mim, dissemine-as por todo o Multiverso. A mim só resta esta esperança, uma vez que todas as outras foram destruídas com o desenrolar dos últimos acontecimentos. Vou explicar o mais breve possível as circunstâncias em que me encontro e porque ela é importante para você.

Meu nome é Jack Evrim, e sou um cidadão comum do Império. Assim como todo mundo, sempre segui todas as leis que aprendemos desde que somos crianças. Participei dos treinamentos e dos seminários, fui às paradas onde o Grande Imperador dá as caras uma vez por ano; trabalhei em diversos lugares, até ser contratado diretamente pelos magistrados do governo, devido às minhas habilidades únicas.

Desde cedo me interessei mais do que as outras crianças pela tecnologia amplamente utilizada em nossas cidades. O ciberespaço e a grande rede de comunicação imperial sempre foram meus locais de passeio preferidos. E talvez por esse interesse e pelo incentivo dos meus pais, me tornei um agente de segurança do império, encarregado de caçar e colocar atrás das grades hackers dos grupos rebeldes, além de coletar informações preciosas para o império desses indivíduos.

Graças à minha posição, adquiri vários implantes interessantes, como uma HD de armazenamento infinito e dezenas de outros ampliadores de sentidos e firewalls de proteção. Eu sou um Hacker do governo, treinado para caçar os melhores e mais perigosos hackers do mundo. Ou pelo menos eu pensava assim.
Meus problemas começaram quando fui realizar a última atualização dos meus implantes: encontrei Leonar’di, o cirurgião que é pago para cuidar dos hackers imperiais. Tudo ia bem com os implantes, até o momento em que apaguei no meio do procedimento.

Acordei sem ter noção alguma de quanto tempo havia passado. Estava caído em um pedaço escuro de esgoto fora da cidade, como se tivesse sido descartado. Meu corpo doía, minha boca estava seca. Um zumbido curioso e incessante tirava minha concentração, mas o pior eu perceberia minutos depois: meus implantes haviam sido removidos. Depois de dez anos, eu estava off-line.

Você, que se conecta diariamente, que usa seus smartphones e seus implantes cerebrais, ainda assim ficam off-line pelo menos uma vez ao dia: no momento de dormir. Eu não sei o que é isso desde que implantei um servidor cerebral que me mantém conectado à rede 24 horas por dia, todos os dias. Meu cérebro recebe as ondas e as informações das redes durante todo o tempo, e acordar sem isso foi como se houvessem arrancado um pulmão e uma perna de mim. Eu estava manco e abstinente.

Acabara descobrindo da pior maneira como o governo se livrava de seus agentes de segurança quando seus serviços não eram mais necessários. Eles pensaram que eu estivesse morto.
Com isso em mente, só uma coisa dominava meu pensamento: encontrar Leonar’di, recuperar meus implantes e depois jogar ele no esgoto onde acordei. Descobri que estava há menos de dez quilômetros do portão sul da cidade. Mesmo com dor e sentindo a ausência dolorosa da conexão, me pus a caminho, atrás do maldito cirurgião traidor.

Havia anoitecido. Cheguei, junto com a noite à velha cidade, minha progenitora. Sorrateiro, atravessei o portão pelos cantos dos muros velhos e quebrados da ponte de madeira. Entrei num emaranhado de ruas raquíticas e silenciosas, distribuídas de maneira randômica por toda a parte leste da cidade. Casebres e construções metálicas misturadas, parasitando umas às outras contra a vontade do homem, levadas por uma onda de crescimento e necessidade de acolhimento que os seres humanos chamam de civilização. Ao longe, pude ver as luzes brilhantes e as paredes lisas e negras das altas torres, onde os médicos e agentes do governo habitavam. Era para lá que eu ia.

Conforme descia as ruas mal iluminadas, percebia que havia algo estranho naquela parte da cidade. Era como se eu visitasse um filme antigo, um lugar onde eu não andava há muito, muito tempo. Cabos metálicos cruzando as ruas estreitas, geradores espalhados pelos telhados e paredes, janelas cercadas por grades carrancudas, portas com trincos e barras de metal.

Caminho, pé ante pé, observando os movimentos noturnos, as luzes, veículos e pessoas de canto de olho. Velhos cheiros, a sensação de chuva iminente me trazendo lembranças, como se eu tivesse estado há muitos anos fora de A. Evito os trens condutores da cidade, mais perigosos que os becos escuros. As ruas mais estreitas e impecavelmente limpas indicavam que havia chegado no distrito oeste.

Leonard e outros médicos, cientistas e outros acadêmicos a serviço do império ficam ali. Os prédios mudaram ou sumiram. Minha memória desse lugar é obscura e cheia de vazios. As construções mudaram. Metamorfosearam-se em ambientes híbridos, misturados com a poeira, a umidade e as plantas nativas.

Confuso, alcanço as ruas mais iluminadas, repletas de pequenas lojas. Diante de uma vitrine, paro. As TVs passam propagandas que não reconheço. Lembro de ter me sentido deslocado, como se fosse acordar de um sonho. Então, vejo um rosto conhecido numa tela de cristal, no noticiário estatal: o meu. Procurado. Considerado perigoso.

Minha mente fica vazia. No lugar onde haviam meus implantes sinto uma comichão familiar. O choque inicial dá lugar ao meu instinto de sobrevivência. Saio de debaixo das luzes e sigo por um corredor comprido intercalado por pequenos casebres, onde a luz é fraca e o movimento é quase zero. O silêncio só é interrompido pelo zumbido dos geradores encrustados nas paredes. Vejo vultos há alguns metros. Saio por um dos becos para não lhes dar tempo de verem meu rosto. Encontro uma escadaria para a parte debaixo do distrito. A descida é íngreme e escura, lenta.

Chove. O chão escorregadio e as paredes cheias de limo são insidiosos. Consigo ouvir barulho de vozes alteradas nas ruas um pouco acima. Reduzo meus passos a um arrastar lento e paciente. Finalmente encontro a velha estação de trem onde Leonard opera. Vejo seu galpão, amuado entre duas enormes torres negras de concreto, metal e marfim. Conforme chego perto, percebo que o prédio está em ruínas. Uma vegetação alienígena brota dos escombros, grudando-se às torres e penetrando em seu esqueleto de concreto rachado. O que teria acontecido ali?

Avisto no canto direito do velho galpão uma parte mais limpa, que termina em um poço discreto. Leonard pode ter feito isso para evitar curiosos. Desço com cuidado, agarrando-me nas pedras cobertas de musgo.
O aposento subterrâneo está repleto de lixo, metal, mesas quebradas, computadores, comida velha jogada por todos os lados. Há um canto mais limpo e arrumado onde uma mesa baixa de metal abriga um velho 0X-D, um modelo antiquado de androide do século passado. Me aproximo e conecto seu plug de recarga aos terminais na parede. Seus pequenos olhos brilham.

“Le-Leonard?” – as lentes do androide se ajustam à semi escuridão.
“Onde está Leonard?” – O androide direciona seus olhos metálicos para mim agora. Uma pequena luz azul-esverdeada pulsa lá dentro.
“Jack? Leonard disse que você viria.” – o maldito robô me conhece. Leonard esperava que eu viesse cobrá-lo.
“Onde está o velho, 0X? Quero meus implantes!” – Só meus implantes poderiam me ajudar a apagar meus rastros.

O androide roda a cabeça, como que buscando algo. Sacudo ele, repetindo a pergunta. Ele focaliza em mim novamente:
“Jack, Leonard não sabia o que você guardava. Queria ajudar, mas os educadores não permitiram. Me pediu para transmitir suas desculpas. Você deve fugir, imediatamente.”
“Do que está falando, seu filho da puta? Quero meus implantes! Onde está o Leonard?”
“Jack, Leonard morreu. Anos atrás. Mas sabia que você viria. A milícia está chegando. Fuja!”

Vozes brotaram do poço de acesso. Não poderia sair por ali. Teria que ir prédio adentro encontrar outra saída. Acho as escadas para o térreo do outro lado da sala, e subo por elas. Milicianos gritam atrás de mim.
Consigo achar um vão para o telhado passo por ele. Há uma escada numa das torres. Salto e começo a subir. As armas dos milicianos são de curto alcance. Subo uma centena de degraus olhando para baixo de tempos em tempos. Primeiro uma, depois duas, e então três cabecinhas brotam do vão. Os milicianos gesticulam e apontam em minha direção. Preciso me misturar às pessoas na torre, minha última saída, mas os acessos estão todos trancados.

Então que um dos milicianos tira algo do casaco, e aponta para mim. Não cheguei a ver ou ouvir nada disparando da arma. Subitamente, meus dedos começam a pegar fogo e minhas mãos se abrem, involuntariamente. Caio.
Abro os olhos. O céu escuro funde-se com as torres metálicas curvadas sobre mim. Não consigo mexer meu corpo, mas tampouco sinto dor. Algo está errado. Um zumbido insistente perspaça meu cérebro, causando um desconforto geral. Os milicianos me observam, atentamente.
Tento mexer meus braços, buscando entender como sobrevivi à queda, quando um dos milicianos fala para os outros:
“Malditos construtores. Fazem esses modelos novos pensarem que realmente são humanos.”

 

 

 

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