Punição

Cena 1: Ressurreição

 

Da infinita profundidade do abismo, sob a eterna noite do esquecimento e envolto no gélido manto do silêncio, emerge o condenado no Inferno.

Tic! Tac! Tic! Tac! Tic! Faz o antigo relógio à parede, logo acima da lareira.

Trata-se de uma aconchegante sala, perfumada pelo odor das coisas antigas e luxuosas.

Ainda levemente aturdido pela confusão da morte, ergue-se o condenado do macio tapete vermelho, com detalhes finamente talhados em dourado. Levanta e anda, ofuscado na beleza do mobiliário infernal:

Assentos, ou melhor, tronos em madeira escura, envernizada, pés à semelhança de patas leoninas; braços longos com entalhes em baixo-relevo, seda estofada com plumas. Bem ao sabor dos grandes reis da história humana. Um, dois, três, incontáveis deles, mas todos ao redor da imponente mesa, decorada com uma infinidade de pratos, frutas, pães, assados e petiscos sobre a toalha de renda. Tudo brilhando à luz das grandes velas nos candelabros d’ouro.

Nas taças de cristal, desde o vinho de Noé ao rum dos piratas. Licores, aguardentes e bebes orientais; enfim, todos os variados tipos de bebidas de todas as épocas e nações dos filhos do maldito Seth.

Janelas para uma melancólica vista de final de tarde. Altas árvores, gentilmente acariciadas pela brisa, e o céu… Sim, um céu colorido do mais belo pôr-do-sol jamais contemplado por olhos mortais.

Ademais, grandes quadros, em tons pastéis, representando inúmeras personalidades. Todas sóbrias, poucas esboçando algum sorriso, formal. Todas desconhecidas do condenado, entretanto.

Num canto, escondida na penumbra e balançando em sua cadeira-de-balanço, uma velha, olhar fixo, mas desinteressado para a paisagem vespertina; um fio de baba escorrendo pelo lado da boca.

Trajes antigos, mas irradiando a aura que envolve as coisas caras, reservadas para poucos que tem o direito divino a sua propriedade. Nos dedos descarnados, vários anéis, cravejados de reluzentes jóias. Sendo as que mais se destacam, um rubi vermelho-sangue, um ônix negro e o grande e raro diamante cor-de-rosa, fixo por serpentes de prata. Minúsculas serpentes de prata.

Ao lado, duas estantes, carregadas de retratos, em preto-e-branco, da vida de alguma obscura família. E sobressaindo sobre os demais, senão pelo volume, pela cuidadosa encadernação em couro negro, um livro…

Vasos e estátuas a todos os lados, além de cinzeiros em cerâmica, alguns com temas orientais, e nenhuma cinza. Nada além do pó, que aqui e acolá, cobriam algumas peças. Fruto de alguma faxineira desleixada, talvez.

Ocupando sua posição privilegiada, o grande lustre de cristal, no centro do salão, cujas velas lançavam sombras trêmulas no aposento.

Agora, também pode ouvir. Sim, é música! Ao início parecia um sussurro, talvez o vento. Mas agora podia perceber claramente tratar-se de música, vinda de algum canto obscuro. Lenta, harmoniosa, ritmada, nem aguda, nem grave demais. Agradável. Porém, com algo estranho, difícil de perceber para ouvidos desatentos: a certos momentos parecia haver um rasgar, um leve cortar, um cindir em sua continuidade que logo se restabelecia.

E após uma ligeira investigação, a conclusão de que não há nenhuma porta. Conclusão fria e decepcionante. Nenhuma saída, pensa o condenado.

O CONDENADO: “–Maldição.”

A VELHA: “–Sim. Não há portas.”– voltando-se para o condenado, sem deixar de balançar-se.

Susto.

Sobressaltado, volta-se em direção à anciã.

O CONDENADO (exaltado): “–Maldição! Maldição! Mil vezes MALDIÇÃO! Quer me matar de susto, velha sandia? Não sabia que falava.”

A VELHA: “–Acaso confundiu-me com algum dos objetos espalhados pelo salão?”

O CONDENADO (recompondo-se): “–Na verdade… não. Logo se vê não tratar-se de um objeto inanimado, e sim, de uma pessoa. Ou ao menos, de que no passado, foi de fato uma pessoa. Muito embora, o que distingue uma pessoa de um objeto, é questão muito delicada e sujeita a controvérsias. A primeira vista, os leigos poderão afirmar que as pessoas, assim como os demais seres vivos, podem movimentar-se por conta própria, sendo que os objetos são inertes. Ledo engano, qualquer observador mais capaz pode apontar desde logo três grandes erros em tal afirmação:”

E antes de continuar, dirige-se à mesa, para beber algo e preparar a garganta, já seca pela aridez da morte. Mas a taça escorrega de sua mão e explode em mil pedaços no chão.

O CONDENADO (embaraçado): “–Oh! Meu Deus, desculpe-me. Como sou desastrado; me perdoe, não foi minha intenção, eu…”

A VELHA (interrompendo): “–Não se preocupe com isso. Essas coisas acontecem comigo todo o tempo, vamos, continue. Continue…”

O CONDENADO: “–Pois bem, o primeiro e maior erro, é facilmente demonstrado pelos diversos objetos que movem-se por conta própria. Após a invenção da máquina a vapor por nosso amigo Watt, pode-se dizer que os mecanismos foram alforriados. Alcançaram a tão sonhada liberdade, não mais são estáticos e aborrecidos. Não mais necessitam da boa vontade e tração dos animais para deslocarem-se aos mais variados lugares. Além de que, pode-se argumentar que a senhora não se move, mas nem por isso torna-se objeto.”

A VELHA: “–E os outros pensamentos errôneos?”

O CONDENADO: “–Na verdade, não tratam-se de três, e sim de sete, para alguns até mesmo oito pontos fracos dessa teoria. Deixe-me explicar o terceiro ponto fraco, ou seja, o segundo mais vital deles: Todos sabem que para iniciar-se a inércia…”

A VELHA: “–Sim, sim, sim. Já ouvi todos esses argumentos de pessoas com maior autoridade do que o senhor no assunto. Não é necessária uma explicação para o quê já está explicado, provado e sabido de todos aqueles que não são simples coisas. Diga-me logo, não fuja do assunto principal, por que sabendo tratar-se de pessoa, ignorou-me durante tanto tempo?”

O CONDENADO: “–O fato não reside em ser ou não a senhora uma mera coisa, um móvel, um adorno, e sim no meu preconceito em pensar que a dama podia vocalizar as suas impressões e idéias, em sentenças inteligíveis e lógicas, nalguma língua positivada pela hodierna consuetudo humana.”

A VELHA: “–O senhor assustou-se pois pensou que sou louca; a baba, viscosa e espumante que escorre pelos meus ressequidos lábios de velha, a seu ver provava minha completa falta de consciência e vontade dirigida racionalmente pelo bom-senso. Muito embora seja uma condição até muito comum.”

O CONDENADO (vexado): “–Sim, e me envergonho de meus preconceitos. Perdoe-me, oh! boa e sábia senhora pela minha ignorância mortal.”

A VELHA: “–Está perdoado. Puxe uma cadeira, e traga aquela bandeja de prata. Vamos comemorar. Façamos uma pequena festa de boas-vindas. A tempos que ninguém vem para cá. Venha, venha…”

A baba, espumante nos cantos da boca, verte sobre o guardanapo de linho sobre o colo da velha.

Com certa dificuldade, o condenado arrasta um trono para perto da senhora e traz a bandeja, como acertado.

A VELHA (gesticulando com as mãos): “–Não, não. Não esta bandeja, e sim, aquela outra. Ali, veja.”– e aponta o dedo para algum ponto confuso na mesa.

Mais um erro. Mais desculpas. E uma vez mais o condenado à mesa.

A sua frente, agora pode perceber várias bandejas, todas do mesmo tamanho, cor, material, desenho etc. e todas com os mesmos bules, pires, xícaras, talheres etc. Enfim, seis bandejas idênticas, até mesmo quanto à disposição do conteúdo, à primeira.

 

Cena 2: Entrevista

 

Hesitação… Qual delas? Faria alguma diferença?

A primeira, ou talvez a segunda? Não, a terceira. Sim, a terceira ou a quarta, afinal, ambas ocupam o centro do conjunto; porém, isto não resolve o problema: a senhora pediu uma bandeja específica, não as duas centrais. A mesma voz, rouca, quebra seus frágeis pensamentos.

A VELHA: “–Por que tanto demora, não há tempo a perder.”

O CONDENADO: “–Como assim? Iremos a algum outro lugar? A meu parecer, ficaremos aqui por muito e muito tempo. Presos. Veremos o findar do século dos séculos. Não há saída. A senhora mesmo concluiu que não há portas.”

A VELHA: “–Realmente, não há portas. O que não quer dizer que não haja saídas. A meu parecer, falta a lógica mais simples à sua afirmação. O senhor poderia muito bem sair por alguma janela.”

O CONDENADO: “–SIM! É óbvio! Como pôde me escapar?”

Aproximando-se da janela, a mesma tarde, o mesmo pôr-do-sol.

O CONDENADO: “–Que há lá fora?”

A VELHA: “–Nada de mais.”

O CONDENADO (contrariado): ” –Como assim, nada de mais? Explique-me. Olha. É a saída. É para lá que devemos fugir. Lá encontraremos a liberdade. Olhe para essas árvores; verdes, frondosas. Vamos, responda-me: que há detrás delas?”

A VELHA: “–Apenas isso e nada mais. Árvores, árvores e mais árvores.”

O CONDENADO: “–Como sabe?”

A VELHA: “–Por que pergunta se duvida? Qualquer resposta que não te agrade aos ouvidos não te conforma.”

O CONDENADO: “–Ora! vamos. Deve haver algo mais, não? Tem que haver. TEM QUE HAVER! Acaso já esteve lá?”

A VELHA: “–Não.”

O CONDENADO: “–Então? Como pode dizer semelhante coisa? De onde vem o direito? Responda.”

A VELHA: “–É simples: olhe para fora. Olhe. Não tenha medo. Diga-me o que vê?”

O CONDENADO: “–Pois direi: Eu vejo a esperança. Acenando para mim. Chamando a mim. Clamando por mim. Nem que seja uma em um milhão. Em bilhões. Mas vejo uma possibilidade. O véu verde esconde a liberdade. E para isso, basta que alguém possua a coragem, a determinação, a perseverança para removê-lo e possa assim conquistar a merecida recompensa.”

A VELHA: “–Ora! Meus olhos de velha são melhores que os teus. Vou dizer o que vejo lá fora, e o que vejo é simples: Árvores, mais árvores e um céu inalcançável para você. Nada mais.”

O CONDENADO (resignando-se): “–Mas tem que haver algum outro lugar… outras pessoas…”

A VELHA: “–Todos que tentaram, desistiram ou morreram. Mesmo assim, suponhamos que você consiga. Que encontre algum outro lugar, outras pessoas. O que fará? Tentará fugir novamente? Afinal, diga o que realmente procura? Outro lugar, igual a este? Outra velha? E por fim. Se nada houver, onde encontrará comida? Abrigo? A minha companhia? Acaso pensa que sair daqui o eximirá da sua merecida punição?”

Conclusão fria, decepcionante, porém sábia: O que fazer depois que encontrar? Fugir novamente? E se nada encontrar e não puder voltar?

A VELHA: “–Chega de sonhos, meu jovem. Vamos, não há tempo, traga a bandeja e tomemos o chá.”

O CONDENADO: “–Mas como não há tempo? O que acabou de dizer confirma meus terrores. Afinal, é realmente uma prisão, logo o tempo não importa. A punição jamais cessará.” – riso irônico e amargo – “–É a melhor prisão que existe, não há paredes, não há celas. Todos indistintamente recebem a punição. Não há saída da punição.”

A VELHA: “–Olhe para o relógio.”

Tic! Tac! Tic! Tac! A príncipio, mais confusão. Os olhos não aceitam de início: Não há ponteiros. O pêndulo balança de lado a lado. Movimento ritmado, hipnotizante. Perfeito. O mecanismo soa. Tic! Tac! Tic! Mas não há um mísero ponteiro.

O CONDENADO (olhar indignado para a velha): “–Veja, não há tempo.”

A VELHA: “–Foi o que eu disse: não há tempo.”

O CONDENADO (confuso): “–Então?”

A VELHA: “–Oras, já está me irritando com todas essas perguntas. Parece uma criança. A maioria é mais esperta que você. Entenda: não há tempo. E também não há razão para demora. Toda hora, todo minuto, todo segundo que não corre é hora do chá. Vamos, traga logo a bandeja, já deve estar frio.”

Contrariado, pega a segunda bandeja à esquerda. Senta-se. Coloca-a sobre uma mesinha, pequena, bem construída. Coloca dois cubos de açúcar na xícara de café. Sim, de café. Agora ele percebe.

O CONDENADO: “–Mas isto não é chá; é café.”

A VELHA: “–E faz alguma diferença?”

O CONDENADO: “–Veja bem as implicações dessa afirmação: a senhora disse, e disso tenho absoluta certeza, de que é hora do chá. Porém, serve-se de café. Do mesmo modo que comete tão grotesca aberração do verdadeiro e fiel sentido das coisas, poderia bem dizer que não há saída. E estar a seu lado a porta para a liberdade.”

Silêncio. A velha coloca três cubos, calmamente, em seu café e gira a mistura com uma colherinha incrustada de uma safira na base. Toma um gole, e ante a impaciência do condenado, continua:

A VELHA: “–O senhor comete três erros principais, sem contar outros acessórios. Primeiro: realmente disse ser a hora do chá, e não que tomaria chá; se assim desejasse, tomaria o vinho da ceia… Segundo, jamais disse que não há saída, disse que não há portas; e portas não há. Como bem pode o senhor observar, a meu lado não há nenhuma delas, e sim este belo armário em madeira-de-lei.”

O CONDENADO: “–Então há saída?”

A VELHA (novo gole): “–Simplesmente, não há como eximir-se da merecida punição. Bebamos.”

Resignando-se, o condenado pega a xícara para sorver seu conteúdo. Prepara-se para segurar na asa. E mais uma vez, o objeto escorrega de suas mãos, com água escorrendo por entre os dedos, e explode no chão. O líquido para todos os lados.

O CONDENADO: “–NÃO! Como estou desastrado hoje. Não sei qual o problema comigo.”

A VELHA: “–O problema é o dedo indicador.”

O CONDENADO: ” –Que há com meu dedo indicador?”

A VELHA: “–Não há dedo indicador.”

E realmente não havia, nem há dedo indicador. Em ambas as mãos, quatro dedos. Nenhuma cicatriz, mas também, nenhum dedo indicador. O olhar interrogativo para a velha.

A VELHA (tentando minimizar o espanto): “–Faz parte da punição. Pensei que havia notado. Use o dedo médio. Exige prática, mas não há tempo, logo com perseverança e dedicação, conseguirá.”

Olha para as mãos da velha. Dedos descarnados, enrugados, porém intactos. Todos em seus devidos lugares e com seus devidos anéis.

A VELHA (antecipando a pergunta): “–A punição é diferente para cada um. É algo muito íntimo e pessoal. A seleção é feita cuidadosamente, merecendo atenção especial, e dosada de acordo com sua parcela de culpa, consciência, vontade, situação, conseqüências, influência, esforço, dentre outros vinte e seis fatores, cada qual com seus outros trinta e três sub-itens, sem contar todas aquelas exceções. Mas o principal fator é aquilo que os mortais chamam de sorte. É a graça, a anistia dos deuses a seus condenados. Você tem sorte…”

Silêncio.

O CONDENADO: “–Mas como pode saber de tudo isso? Onde está escrito? Quem escreveu tais normas?”

A VELHA: “–Está tudo no infame Livro de Raziel.”

O condenado aproxima-se das duas estantes, e entre o Livro de Eibon, encadernado em tecido azul, brilhante, e a coleção de três volumes da Divina Comédia de Dante Alighieri na tradução inglesa de Longfellow, retira o grande tomo em couro negro que tanto prende a atenção.

Abre na folha de rosto: “Mors omnia solvit” de Hermes Trimegisto.

Uma sensação de dejà vú percorre seu ser. Já vira tudo isto antes.

Folheia algumas páginas amareladas. Tipos grandes. Gravuras. Desenhos desproporcionais, embora expressivos. Figuras demoníacas, rostos arredondados, olhos arregalados, bocas escancaradas mostrando caninos.

Decididamente, vira isto em algum lugar. Mas não era o que procura agora.

O CONDENADO: “–Mas este não é o Livro de Raziel.”

A VELHA: “–Ninguém o disse.”

O CONDENADO: “–Então, aonde está?”

A VELHA: “–Simplesmente não está.”

O CONDENADO: “–Como assim, não está?”

A VELHA: “–Não se encontra aqui, nem em lugar algum.”

O CONDENADO: “–E aonde a senhora o leu?”

A VELHA: “–Jamais o li. Aliás, ele ainda nem terminou de ser escrito.”

Nervosismo.

O CONDENADO: “–É mesmo uma louca. Como poderia saber? Acaso é a rainha deste lugar? Não há ninguém aqui com quem eu possa manter uma conversação útil?”

A VELHA: “–Acaso o senhor leu o Livro de Raziel?”

O CONDENADO: “–Está claro que não.”

A VELHA: “–Então responda-me: de onde vem o direito de duvidar de minhas palavras? Sei quais são as normas pela simples observação lógica das coisas como elas são. Está tudo escrito no grimório de Raziel. Maktub, como dizem nossos amigos árabes. E não é preciso lê-lo para conhecer seu conteúdo. Basta contemplar as gravuras…”

O CONDENADO: “–Nonsense. Repito a pergunta: não há nenhuma alma aqui com quem possa travar uma conversação simples, útil e agradável? Alguém que não fale por enigmas?”

A VELHA: “–Somente a mente turva pode entender por enigmas minhas claras palavras. É sua própria imaginação, angústias e preconceitos que levam a não compreensão. Atenha-se simplesmente ao que digo. Sou velha, sou sábia, aqui estou a muito e muito tempo. Comigo pode manter um diálogo simples, útil talvez, mas certamente agradável.”

O CONDENADO: “–E com ninguém mais?”

A VELHA: “–Útil não. Agradável, quem sabe? Você pode conversar com Saulo, afinal, ele também foi sábio.”

O CONDENADO: “–E ele está aqui?”

A VELHA: “–Sim.”

O CONDENADO: “–Aonde? Não o vejo.”

A VELHA: “–E nem poderia vê-lo. Abra aquele armário.”

O CONDENADO: “–Aquele?”

A VELHA: “–Não, o outro.”

O pequeno armário que mais parecia um caixão. Um belo caixão. Abre-o:

Nada.

A VELHA: “–Use a chave.”

O CONDENADO: “–Mas está aberto.”

A VELHA: “–Faça o que digo.”

O CONDENADO: “–Qual chave?”

A VELHA: “–A que está no molho.”

O CONDENADO: “–Em Qual molho?”

A VELHA: “–Ora. Deixe de ser asno. Acaso dirá que não trouxe seu molho de chaves?”

O CONDENADO: “–Não.”

A VELHA: “–Agora temos um problema. Não posso emprestar o meu. Procure em seus bolsos. Talvez tenha deixado aí.”

O CONDENADO: “–Eu realmente não trouxe nenhum molho…”

Instintivamente, apalpa os bolsos, num gesto mecânico. Neles, um volume, um tilintar de metal. Pega-o: Um molho de chaves, daquelas para fechaduras antigas, robustas. Várias delas, com tamanhos e formas diferentes. Algumas com símbolos, runas, em meia lua, outras douradas, prateadas, em cobre etc. Materiais desconhecidos, formas bizarras. Algumas nem pareciam chaves. Talvez não o fossem, ninguém poderia dizer. Ou talvez a velha pudesse dizer, mas ele não queria perguntar.

Fecha o armário. E já desanimado pela aborrecida tarefa, começa a experimentá-las. Se alguma fosse, com certeza seria a última. Afinal, é sempre a última.

A primeira entra, gira suavemente. A tranca abre. “–Mas já não estava aberta?” – pensa o condenado.

Abre a porta. Novo susto:

Alguém lá dentro. Encolhido nos exíguos espaços.

Os olhos do estranho se abrem, estupefatos. Estudam o condenado. Mas o corpo não se move.

O CONDENADO: “–Me desculpe. Você deve ser Saulo. Sinto muito se estou incomodando.”

Nenhuma resposta. Apenas o mesmo olhar interrogativo.

O CONDENADO (embaraçado): “–Quero dizer… Eu realmente não queria atrapalhar. Mas aquela senhora me disse que…”

Nenhuma resposta.

O CONDENADO: “–…”

Nenhuma resposta.

O CONDENADO: “–Vamos homem! Fale.”

SAULO: “–…”

O CONDENADO (para a senhora): “–O que ele tem? Por que não responde?”

A VELHA: “–Não responde porque não pode responder. Está morto.”

O CONDENADO: “–Não pode estar, ele abriu os olhos…”

A VELHA: “–Você também os abriu e nem por isso não está morto também.”

 

Cena 3: Punição

 

O CONDENADO: “–Não faz o menor sentido. É óbvio que estou vivo. De que estranho recanto de sua velha mente desentranhou tal idéia? Olha: ando, respiro, penso, falo, logo vivo.”

A VELHA: “–Mente velha. Sábia mente. O que distingue algo morto de algo vivo, é questão muito delicada e sujeita a controvérsias. Pouparei seu tempo. Não me parece tão vivo assim: olhos vitrificados, pupilas dilatadas, pele azulada. Trata-se de rigor mortis, meu caro.”

O condenado olha para o grande espelho a seu lado. Rápida inspeção. Nada de anormal.

A velha continua:

A VELHA: “–E porventura esqueceu-se aonde está?”

O CONDENADO: “–Diga-me, aonde estou?”

A VELHA: “–Ora. Aqui é o Inferno, o Tártaro, o Reino das Trevas, o Erebus, chame como quiser. Mas não diga que está surpreso.”

O CONDENADO: “–Para ser franco, já suspeitava disso há algum tempo, mas…”

A VELHA: “–Mas?”

O CONDENADO: “–Bem, tudo não passa de uma grande injustiça. O que fiz de errado para estar aqui? Quando sairei? Onde está o chefe disso aqui? Um grave erro foi cometido, e eu exijo uma reparação. A quem devo reclamar? Tem que haver alguma maneira.”

A VELHA: “–Talvez o senhor deva tentar com os Nephilim.”

O CONDENADO: “–Com quem?”

A VELHA: “–Os Nephilim, os anjos da morte, não diga que não sabia. De qualquer maneira, não posso garantir que a conversa será mais útil do que a que teve com Saulo.”

O CONDENADO: “–Nada custa tentar. E não há tempo a perder. Onde estão eles? No armário? Em alguma gaveta, talvez?”

A VELHA: “–Bem… O senhor sabe. Eles são muito arredios. As vezes, nas tardes, como esta, é possível vê-los no horizonte, voando em bandos como os pássaros. Andorinhas, ou como falcões, talvez… Creio que alguns poderiam ver corvos… Mas eu não.”

Silêncio. Após um curto espaço de tempo:

A VELHA: “–Mas que sorte. Olhe: agora mesmo estão passando. Tente chamá-los, talvez consiga. Já tentei atraí-los com comida, porém sem nenhum bom sucesso. Vamos, não há tempo. Pode ser que a sorte esteja a seu lado.”

Olha através da janela. A mesma tarde, as mesmas cores, a mesma brisa, nenhum anjo.

O CONDENADO: “–Não consigo ver.”

A VELHA: “–Olhe naquela outra janela mais adiante. Vamos, rápido, antes que desapareçam.”

Anda um pouco mais para o lado. Olha. A mesma cena; ninguém mais.

O CONDENADO: “–Ainda não consigo, não há nada aqui.”

A VELHA: “–Tente a próxima.”

E assim sucessivamente, até que a voz da velha senhora diminui, diminui, até desaparecer por completo. Olha para os lados. Janelas, janelas e mais janelas. Não percebera que a sala era tão grande. E também não mais tinha certeza de como voltar.

Além de que as paredes não eram retas, mas curvavam-se ligeiramente para dentro. A sala, ou o salão, devia ser oval ou algo semelhante, mas muito, extremamente grande. Proporções ciclópicas. Talvez, se tentasse voltar pelo centro se perdesse, como poderia saber onde era o centro do círculo de onde estava? E a luz. A luz diminuíra consideravelmente. Apenas a luminosidade pálida adentrava as janelas, e mesmo assim, filtradas pelas grossas cortinas de vermelhas. Havia a possibilidade de, sendo a sala realmente oval, qualquer lado que tomasse o levasse de volta ao ponto de partida. Mas refletindo mais um pouco, talvez não. E se afinal não fosse um simples salão monstruoso, e sim um complexo? Um labirinto? O que poderia se esperar do inferno?

Um grito:

O CONDENADO: “–SENHORA?”

A voz ecoa, vibrando nas paredes.

A VELHA (não muito distante): “–Sim?”

O CONDENADO: “–Estou perdido, não sei como voltar.”

A VELHA: “–Não, não se perdeu. Foram as velas que apagaram.Basta voltar aqui e acendê-las novamente.”

O CONDENADO: “–Voltar como?”

A VELHA: “–Simplesmente dê dez passos a sua esquerda, aí estará um castiçal, e uma vela apagada. Acenda-a.”

O CONDENADO: “–Não tenho fósforos.”

A VELHA: “–Então, temos um problema…”

O CONDENADO: “–Que farei agora?”

A VELHA: “–Nada. Continuemos nossa agradável entrevista. Diga-me afinal, foi condenado por quê?”

O CONDENADO: “–Eu não sei.”

A VELHA: “–Ora. È claro que sabe. Conte-me, não seja tímido.”

O CONDENADO: “–Vou contar apenas o que deve ser contado. E o que deve ser contado é que o critério de culpa é muito subjetivo. O que para alguns é errado, até mesmo um pecado mortal, para outros não o é. O lobo que devora o cordeiro, sob seu ponto de vista, está apenas tentando vencer no jogo da vida e da morte, extrair o seu sustento, a sua gota de vida. Logo está absolutamente correto, não pode lutar contra o que lhe é natural e imposto pelas leis divinas. Já no ponto de vista do cordeiro…”

A VELHA: “–Foi por isso que adotaram o novo sistema de seleção de candidatos. Basta a mera suspeita, e não a prova da culpa, para que o próximo candidato seja contemplado com uma estadia eterna aqui. Assim resolveram o problema da impunidade. Todos são punidos, logo, nenhum culpado escapa de sua merecida punição.”

O CONDENADO: “–Mas e os inocentes?”

A VELHA: “–Bem. A questão da inocência é algo muito subjetivo. Sujeito a incontáveis controvérsias e opiniões contrárias. Veja por este lado. Para o cordeiro, ser devorado por um lobo, é a suprema injustiça, lhe é roubado o mais precioso bem, ato profundamente imoral. Entretanto, sob o ponto de vista do lobo…”

O CONDENADO: “–Mas…”

A VELHA: “–Todos são culpados de alguma coisa. Ou pelo menos, suspeitos de terem sido. Vamos, diga-me logo o que fez. Estou ansiosa.”

O CONDENADO: “–Já que não há mais remédio, então, direi tudo de uma vez. É difícil começar. Vejamos… Eu tenho um leve problema. Bem; pelo menos foi o que meu médico disse, pouco antes do… Bem; isso é outra história… Eu apanhei muito na minha infância. Minha família foi totalmente desestruturada. Meu pai… Bem, eu não conheci meu pai, e sim vários dublês dele. Como posso dizer… A cada semana eu ganhava um novo pai. E… Então, além das dificuldades da vida social, da escola etc. Desenvolvi o que chamaram de algo como Psicopatia maníaco-sexual. Eu diria que era apenas uma opção, como qualquer outra. Eu me sentia, aliás, me sinto, fortemente atraído por… você sabe: Pessoas mais velhas. Quero dizer, muito mais velhas… E quando elas diziam não, bem, eu forçava. Fazia isso apenas para mostrar o que estavam perdendo. Mas, bem, você sabe como são as pessoas mais velhas. Quero dizer, elas são tão ranzinzas, ou melhor, são “do contra”. Bem, elas não paravam de gritar, e gritar, e gritar, e pediam ajuda. E se me descobrissem, o que diriam? Iriam pensar que eu era um criminoso, ou um louco, então, bem… Eu tinha que fazê-las parar de falar.”

Silêncio.

O CONDENADO: “–E devo acrescentar que acho a senhora muito atraente. Se ao menos pudesse estar ao seu lado novamente…”

A VELHA: “–Sim, seu caso é muito interessante.”

O CONDENADO: “–Mas, e a senhora? O que faz aqui? Suponho que tenha uma história ainda mais interessante que a minha.”

A VELHA: “–Ao que tudo indica, o senhor ainda não me reconheceu.”

O CONDENADO: “–E deveria fazê-lo?”

A VELHA: “–Tentemos novamente. Dê três passos para a direita, depois quatro para a esquerda.”

O CONDENADO: “–Não seria uma redundância? Não bastaria um passo para a direita e chegaria ao mesmo lugar?”

A VELHA: “–Depende, seriam passos longos ou curtos?”

O CONDENADO: “–Faz realmente alguma diferença?”

A VELHA: “–Para de duvidar. Lembre-se apenas: Mente velha, sábia mente. Não duvide, apenas faça.”

Hesitação.

O CONDENADO: “–Não faz o menor sentido.”

Contudo, o faz. Surpreso, percebe estar ao lado da senhora. A luminosidade parece a anterior.

A VELHA: “–Vamos. Agora, olhe-me, mais perto, mais perto, isso, aproxime-se.”

O CONDENADO: “–Não. Não me recordo da sua beleza… Talvez esteja enganada.”

A VELHA: “–Jamais me engano; mais perto.”

Rugas, e reentrâncias na pele. A substância espumosa ao redor da boca.

O CONDENADO: “–Bem. Suponho ser a senhora uma de minhas víti… Quero dizer, amantes.”

A VELHA: “–Sim. Agora estamos nos aproximando. Agora que realmente me reconheceu.”

O CONDENADO: “–Para dizer a verdade, não reconheci. Meus encontros… Era tudo muito rápido, não podia fixar muito as fisionomias; aliás, eram relacionamentos muito superficiais.”

A VELHA: “–Então, como descobriu?”

O CONDENADO: “–Para ser franco, foi um palpite.”

A VELHA: “–Palpite certeiro.”

O CONDENADO: “–Mas, geralmente, eram todas boas e gentis senhoras, pelo menos até o momento crucial. A despeito de sua resistência. Como então, veio parar aqui?”

A VELHA: “–Ao que tudo indica, o crime dos pecadores contamina suas vítimas. Aqui estou pagando pelas suas transgressões.”

O CONDENADO: “–Entretanto, a senhora mesma disse que que todos somos culpados. Pois bem, qual foi o seu crime?”

A VELHA: “–A realidade é que após os seus atos… Bem, como posso dizer… Eu gostei. Quero dizer, eu realmente gostei muito. A violência, os tapas, o sangue. Tudo aquilo me excitou como jamais em toda minha longa vida. Mas isso é outra história.”

O CONDENADO: “–Não é justo.”

A VELHA: “–Realmente, não é. Venha, olhe novamente.”

O condenado aproxima o rosto. Pode sentir a respiração pesada, o hálito. Súbito, reconhece a vítima. Fazia muito, muito tempo…

A palavra escorre lenta e viscosamente de sua boca:

O CONDENADO: “–Mamãe?”