Paraíso: Parte I

Inspirou profundamente. Acordou assustado e enquanto recuperava a respiração, não podia se livrar da estranha sensação de que precisava se lembrar de alguma coisa, mas não tinha a mínima ideia do que podia se tratar. Então pareceu ter ouvido uma voz dizendo algo que não conseguia entender.

Mas não sabia nem se realmente havia ouvido alguma coisa ou se tinha imaginado aquilo enquanto tentava lembrar-se de sabe-se lá o que havia esquecido. Levantou-se e foi lavar o rosto, suava como um porco e sentia mal estar. A vista embaçada encontra o espelho do banheiro, ainda mais embaçado. Desfigurado no vidro, o rosto de um monstro olha de volta. Limpa o espelho apenas para continuar vendo seu rosto distorcido olhando de volta, como se fosse outra pessoa.

Então de repente, aparentemente por nenhum motivo, esticou a perna, como se estivesse escorregado, acordando novamente em sua cama, com o coração disparado e o corpo imóvel. Era um daqueles sonhos que parecem reais e nos quais você jamais consegue acordar quando quer, por que não sabe que é sonho. E se por um acaso você consegue acordar, acaba fatalmente acordando dentro de outro sonho ainda mais estranho. Tentou olhar para os lados, mas o máximo que conseguiu mexer foram os olhos. O pescoço permanecia imóvel, assim como o resto do corpo. Sentia o peso de um cansaço indescritível que era mais forte que sua própria vontade de se mover. E o pior era que não se lembrava de como havia ido dormir. E nem conseguia imaginar onde isto tudo poderia acabar. Mas aquela vontade de se lembrar do que havia esquecido crescia cada vez mais. E algo lhe perturbava em sua mais profunda intimidade, por que, mesmo sem conseguir se mexer, pôs-se a se perguntar que se tudo começou de alguma maneira, o que existia antes do antes? E se tudo for acabar de alguma forma, o que vai acontecer depois do depois? Sentia-se totalmente perdido. Foi então que se lembrou do livro.

Paul_Klee_My_Room_1896

Paul Klee – My Room – 1896

Sim, aquele livro. Lembrou-se que era um livro de charadas, mas com uma história, com começo, meio e fim. E mesmo sem responder nada diretamente, assim que havia terminado de ler aquele livro, havia se sentido como se tivesse obtido respostas para perguntas das quais ele mesmo nem sabia que queria saber. Lembrava-se daquele livro. E lembrava-se do prazer que teve ao lê-lo. Mas o mais estranho de tudo, é que se alguém o perguntasse exatamente o que havia escrito no livro, não conseguiria se lembrar de absolutamente nada. E continuava sem conseguir se mexer. Até que escutou a dobradiça velha e enferrujada da porta da sala se abrindo num ruído agudo e irritante. Seu coração disparou novamente. Não sabia quem poderia ser, mas já que estava imóvel, poderiam fazer o que quisessem com ele, pois estava completamente indefeso. E da porta do seu quarto, que deveria ficar em algum lugar que ele não conseguia ver sem esticar o pescoço, escutou o assoalho sob o carpete ranger, delicadamente, como se o suposto intruso tentasse não fazer barulho.

“Estou sonhando”, pensou, tentando imediatamente racionalizar a situação. Olhou em volta, sem conseguir mexer a cabeça. Na verdade, suas órbitas estavam pesadas, e era difícil até mexer os olhos. Mas conseguia perceber alguma claridade vinda da janela, e via o mofo e as infiltrações no teto acima dele. Concentrou-se em tentar mexer a mão, um dedo que fosse, mas percebeu que mal sentia o próprio corpo. Apesar da letargia física, sua mente entrava cada vez mais em desespero, em movimentos revoltos e extenuantes, buscando uma explicação e percorrendo ciclos de pensamentos que facilmente o levariam a loucura, em alguns minutos.

Ou horas. Abriu os olhos, lentamente. Estava em sua cama, era noite. Tinha a sensação de despertar de um sono de horas, daqueles que mergulhamos pesadamente, sem sonhos, sem movimentos. Piscou uma, duas vezes. Lembrava-se do estranho sonho em frente ao espelho, e do barulho da porta da frente. Sentira a presença, ouvira os ruídos de passos cautelosos, e a sensação de não poder se mexer na lembrança causava-lhe desconforto. E respirando fundo, um pouco aliviado por ter finalmente acordado, preparou-se para levantar e ver que horas…
Não conseguia se mexer. O coração acelerou com terror, e a realidade daquelas lembranças da manhã inundaram-lhe as veias e a espinha com um sopro gélido do mais genuíno desespero. Tentou mexer as pernas, a cabeça, furiosamente, mas o máximo que conseguia era revirar as órbitas alucinadamente, até doerem-lhe os nervos. Sentiu a boca seca e as extremidadas geladas. E após uns instantes de constatação, resignou-se. Fechou os olhos, cansado, estafado. Se aquilo fosse um pesadelo, era o pior de toda a sua vida. Lembrou-se novamente do Livro, de suas letras miúdas e do seu conteúdo tão enigmaticamente esclarecedor. Não conseguia imaginar porque diabos lembrava-se do livro naquele momento, mas era difícil tirá-lo da cabeça. Recordou-se de uma passagem que, de alguma maneira familiar, fazia-o associá-la ao que estava acontecendo agora. Mas as lembranças eram assim, vagas e fugidias, como quando acordamos e esquecemos nossos sonhos. Quanto mais tentava lembrar especificamente da passagem, mais ela escapava-lhe das memórias.

Um sopro de vento vindo do corredor trouxe sua consciência a tona e ele abriu os olhos. Estava escuro lá fora, e a penumbra enchia o quarto. Não havia ruído. O mais profundo silêncio caía sobre o aposento, e mesmo lá fora, não se ouvia som algum. Mais calmo, tentou pensar em alguma solução. O que estava acontecendo? Aquilo era real? Se ele tentasse dormir, será que conseguiria então acordar, caso estivesse em um pesadelo?
Imerso nesses pensamentos, tentando relaxar e pensar com calma, um pequeno ruído atravessou sua mente e seus sentidos, e fez com que instantaneamente urinasse nas calças. Seus nervos afrouxaram-se, seu coração disparou, os cabelos da nuca arrepiaram-se. Fechou as mãos, cravando as unhas nas palmas, instintivamente. Percebeu que recuperara o movimento dos seus membros, mas ironicamente estava aterrorizado demais para se mover. Pois o leve ruído que ouvira, perto de si, quase atrás da cabeça, foi o de uma lenta respiração.

Entortou o pescoço lentamente para dar de cara com um cão imenso, respirando profundamente um hálito quente e fétido diretamente em sua cabeça. Assustado, começou a tremer ao mesmo tempo que ouviu o tilintar de correntes. Tentou puxar os braços, mas não conseguiu. Estava amarrado.

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