Paraíso: Parte VII

“Ele acordou!” – Uma voz estridente de criança ecoa por todo o lugar.

“Meu Deus”, “Caramba”, “Puta que pariu”, “Jesus, amado, filho”. Foram algumas das palavras que ele conseguiu identificar no zumbido uníssono emitido por aquele turbilhão de fantasmas embaçados, que se aproximavam dele, assustados, como se ele fosse a manifestação de um milagre, ou algo ainda mais sinistro.

Em cima de seu peito, um lindo cachorrinho lambia o seu queixo.

“Eu não disse que Iavé ia conseguir acordar o papai?” – Dizia aquela criança, que por algum motivo, lhe parecia extremamente familiar, mas que não sabia dizer exatamente quem era. Uma silhueta longilínea, cabelos negros e curtos, com um crucifixo de prata no peito. Parecia que, caso se esforçasse bastante, conseguiria identifica-la, mas não conseguiu se concentrar nisso, por que aquele turbilhão de rostos, que pareciam conhecidos, estavam todos estupefatos com o que estavam vendo. E pareciam querer pegar nele, mas não se atreviam, como se ele fosse quebrar. Ou talvez estivesse carregando alguma doença que pudesse contaminar a todos. Havia uma doença? Ele quase podia se lembrar de algo mais ou menos parecido.

“Chamem um médico!” Gritaram.

“Estevão!”. Gritava a mulher, com lágrima nos olhos. “Papai”, ria a criança, que apertava sua mão.

Apertou de volta.

“Vejam, papai está apertando a minha mão!” – Gritou a criança, quando uma figura esguia, com um imenso jaleco com uma lanterna nas mãos aproximou-se empurrando as pessoas, abrindo espaço e enfiando aquela luz insuportável em seus olhos. “Quantos dedos você vê aqui?”, perguntou, enquanto estendia sua mão, com três dedos e um polegar, exatamente como nos desenhos animados da televisão.

“Você não tem o dedo mínimo?” – Perguntou, enquanto se acostumava com a paisagem de rostos estupefatos que estavam em seu redor. Pareciam tão familiares e ao mesmo tempo, estranhos… Como isso era possível?

“Você consegue se lembrar de alguma coisa?” – Perguntou o médico, que lhe parecia, imensamente familiar.

Todos olharam assustados, esperando uma resposta, que iria definir tudo o que iria acontecer depois.

“Eu consigo me lembrar de várias coisas”. “Do que?” Perguntaram quase em uníssono, quase que suplicando por uma resposta. “Você se lembra de mim?” Perguntou uma mulher, que apertou sua mão que apertava a mão da criança.

Ele quase conseguia se lembrar.

“Letícia”?

Os olhos dela encheram-se de lágrimas, ele parecia ter acertado. Em seguida ela apertou sua mão com tanta força que pensou que fosse quebrar suas falanges, juntos com as da criança, que ameaçou fazer cara de choro, mas que foi imediatamente levado ao colo, pela mulher, que parecia imensamente aborrecida, abrindo caminho no meio das pessoas que sussurravam coisas que ele não conseguia compreender.

Será que não era esse nome? E quem era Letícia afinal de contas? Ou aquela mulher? Olhou de volta para todos aqueles rostos. Ninguém que lhe chamasse a atenção. Diferente daquela criança que era levada nos colos da mãe e chorava estendo o braço como se quisesse continuar com ele. Era seu filho? Por que não conseguia se lembrar de absolutamente nada daquilo? Fechou os olhos com força, a imagem de um filhote latindo desesperadamente em frente ao seu rosto foi subitamente substituída pela imagem da criança, trajando terno e jogando água em seu rosto.  “Você tem que ler isso aqui!”, dizia a voz em sua cabeça que era substituída por uma voz imensamente semelhante que perguntava se estava tudo bem com ele.

“Sim”. Respondeu. “Mas por algum motivo que não consegui ainda identificar, não consigo me lembrar de absolutamente nada que faça qualquer sentido para explicar como é que eu vim parar aqui. A não ser que isto também seja mais outro sonho”- Disse, enquanto sentava na cama, para logo em seguida colocar-se de pé em frente à estupefata multidão. Achou até que alguém pareceu estar tirando fotos.

Um burbulhão de vozes é interrompida pela voz do médico, que perguntava com uma voz firme, como suas mãos que seguravam o seu braço. “Doutor Estevão, você se lembra de alguma coisa relacionada à sua condição?”.

“Estevão?” – Respondeu. “É esse o meu nome?”

“Doutor Estevão, eu sou o Doutor Levi, seu médico e amigo. Você é portador de uma condição chamada Esclerose Lateral Amniotrófica…”

“Não, não sou”. Respondeu.

“Como?” – Perguntou Doutor Levi, com um olhar que agora estava tão assustado como todos à sua volta.

“A não ser que eu esteja em fase muito recente da doença, ou então não conseguiria me mexer. Acho que você está me confundindo com Stephen Hawking”, disse rindo, mas só ele parecia achar graça.

“Na verda-da-de”, gaguejou o médico. “Hoje, fazem seis anos que você está em coma.” Disse, quase tremendo a mandíbula.

“Isso é impossível!”, riu Estevão. “Se eu estivesse em coma durante seis anos mal conseguiria me movimentar. Muito menos sendo portador de ELA. Vocês estão parecendo ainda mais surreais que aquele cara de terno, que era estranhamente parecido com aquela criança que saiu daqui e que tinha aquele cachorro imenso, que neste sonho não passa de um filhote”. Disse rindo alto, enquanto tirava todas aquelas agulhas do seu braço e aqueles adesivos desconfortáveis.

“Espere!” –Gritou o médico. “Você não pode fazer isso! Você ainda está sob observação!” – Segurou seus braços. – Por favor, sente-se. Eu só preciso que você me responda algumas perguntas extremamente importantes. É para o seu próprio bem!” Exclamou.

“Puff”. Riu-se. Mas estranhamente, não se lembrava de se sentir tão bem em toda sua vida. Pensou que não haveria problemas em perder alguns minutos com mais aquela estranha alucinação. Sentou-se na cama, despreocupado. “Ok. Então vai. Conte-me o que quer saber. Mas seja rápido, eu não tenho tempo.”

“Você vai para algum lugar, Estevão?” – Perguntou o médico.

“É claro, Levi. Você sabe disso, eu estou sempre atrasado para alguma coisa importante.”

“Então você se lembra?” – Perguntou Dr. Levi, mostrando muitos dentes em um sorriso largo.

“Do que?” Perguntou.

“De mim, de você, da sua vida? Me diga o que é que você se lembra!”

“Sim, eu me lembro de você. Parece ser um amigo, mas nada elimina a hipótese de que, assim como todos esses estranhos ao meu redor, não passem de figuras da minha imaginação. Se eu não estiver completamente enganado, eu e você conversávamos sobre alguma coisa que não consigo me lembrar em algum tipo de biblioteca ou coisa do gênero. Antes disso, eu me lembro de estar amarrado em um lugar estranho, enquanto um sujeito de terno enfiava coisas em meus braços. Lembro de um cachorro, de um velho e de coisas de ponta cabeça.”

Todos continuavam olhando, ainda mais assustados. Um rapaz com uma mochila nas costas lhe apontava um telefone celular.

“Se alguma dessas coisas fizer algum sentido pra você, por favor me avise, por que pra mim, não passam de peças de um quebra cabeça que não fazem o menor sentido.”

“Mas…” – Foi dizer o médico, que foi interrompido.

“Sendo assim, usando a navalha de Ockham, que diz que devemos sempre escolher a explicação que necessita de um menor número de hipóteses auxiliares, conclui o óbvio: Isso não passa de um sonho”.

“Mas, você tem mesmo certeza que não consegue se lembrar de nada?”

“Nada relevante… A não ser por um livro que não sei do que se trata. E de ver eu mesmo desmaiando e ter o que parecia ser ataque epilético em frente um monte de gente”.

“Isso realmente aconteceu!” – Disse o médico. “Você teve convulsões durante meses, antes de entrar em coma.”

Uma dor de cabeça subitamente invadiu sua cabeça e desceu percorrendo toda sua espinha. Lembrou-se novamente daquela cena. Sentiu uma imensa vontade de defecar e vomitar ao mesmo tempo, perdeu o apoio das pernas e caiu no chão.

“Enfermeira” – Gritou o médico.

Ele havia desmaiado.

Antes de apagar, ele se lembrou de alguma coisa relacionada com um laboratório. Achou que tinha defecado, mas era apenas a mão da consciência, que virava mais uma página e apagava desligava tudo em volta.

 

XXX

 

Acordou em uma cama. Tentou se mover, mas estava acorrentado. Em seu peito, uma trilha de pó branco era aspirada pela estranha figura de terno que estava em sua frente. Levantou a cabeça, como num susto, enquanto esfregava o nariz vermelho, como seus olhos.

O cachorro imenso começa a rugir, ele vira seu olhar e encontra o prisioneiro acordado. Um olhar assustado olha para as correntes, enquanto procura por alguma coisa em seu bolso. Uma injeção.

“Espere…”

Antes de conseguir dizer mais alguma coisa, Morfeu lhe visita novamente. Tudo fica escuro. Mais uma vez.