Paraíso: Parte VI

Uma silhueta esbelta e longilínea, etérea, élfica, cabelos negros e curtos, deixavam entrever um pescoço alvo, imaculado, salvo por um colar prateado, do qual pendia um símbolo que de tão familiar, não conseguiria jamais identificar, às suas costas. Cobertas de seda, que fluía a cada leve movimento em ondas azuis, nebulosas e imemoriais.

Um tomo negro contrastava com as mãos delicadas e pálidas. A palavra “Ecos”, em letras prateadas reluziu por entre os dedos. Assim como as areias do tempo se esvaindo.

“-Espere!” – gritou – “Não leia esse livro!”

A figura estacou e, virando-se, duas reluzentes safiras interrogaram-no, perplexas, aguardando a próxima jogada. Isto é só um jogo. Tremeu. Simples como a roleta-russa. Pense rápido. Sem tempo para hesitações.

“-Toda palavra que você lê te transforma. Após ler um livro, você não é mais a pessoa que era antes de ler. Depois de conhecer uma verdade, você não pode mais apagá-la. Depois de testemunhar um horror, não pode esquecê-lo. Você jamais poderá ler um livro de novo e sentir o que sentiu da primeira vez, pois não é mais aquela pessoa que leu anteriormente.” – pausa – “E eu quero conhecer a pessoa por quem me apaixonei, antes que desapareça.”

Silêncio. As safiras fitavam-no curiosamente. Os segundos arrastavam-se em minutos. Os minutos em milênios. Os lábios vermelhos em riso.

“-Prazer, meu nome é Estevão.”

O que era tudo isso? Era Memória? Triste lembrança? Segredo? Do que são feitos os sonhos mais doces? Do sono eterno da morte. Do cinema de luzes e sons antes do derradeiro suspiro? De vento e pó.

Jamais saberia, pois o riso girou, girou e girou em um turbilhão de pensamentos, e o mundo em preto e branco dissolveu-se em cores, e girou em redemoinho de imprecações, e circulou o mundo, e converteu-se em dentes, e rosnares e baba quente e salgada e correntes. Um latido rouco soou quente em suas faces. E a realidade fragmentou-se em uma miríade de lembranças e uma constelação de negras estrelas e buracos negros e espelhos partidos.

Sentia um gosto amargo e férreo na boca, seca. Sobre seu peito, um demônio pesado e malcheiroso, arfava sofregamente. E o mundo à sua volta parecia sair e entrar em foco.

E de repente estava sentado. Alguém jogava-lhe água gelada no rosto, e o estapeava, dizendo, energicamente:

“-Leia o livro!”

“-Onde estou?” – as palavras mal saíam de seus lábios ressequidos.

“Leia o livro!” – repetia-se, insistentemente.

Algo estava em frente ao seu rosto.

“-Por que está fazendo isso comigo? Eu não tenho dinheiro.”

Risos, seriamente fora de contexto, uma risada forçada, como se nunca houvesse rido antes em toda uma vida, e sarcasmo.

Uma luz muito forte lhe queimava os olhos. Parecia distinguir, em um quarto vazio, um homem de alta estatura, trajando um terno preto, que segurava um enorme livro. E parecia descontente com algo que não conseguia compreender. Estava sentado em uma cama ensopada. Pesadas correntes restringiam-lhe o movimento.

Outro tapa, trouxe-o de volta ao momento.

O homem começou a gritar, e no paroxismo de sua ira, sua cabeça parecia ter espasmos tão fortes que por alguns momentos, tornavam-se um borrão no ar.

“Leia. O. Livro!” gritou, enfatizando cada sílaba.

“Ajudem-me! Socorro!”

“Você está muito além de qualquer ajuda, filho. Somente você mesmo pode se salvar. Leia o Livro!”

Virou a cabeça para o lado. E viu que ali havia também um outro homem. De idade avançada. Trajava uma batina preta, e uma estola roxa. Porém, não conseguia identificar a que religião pertenciam os símbolos que trazia. E esse homem apenas o fitava, com os olhos bem abertos, que pareciam jamais piscar. Com um ar austero. Os lábios entreabertos, como se estivesse pronto a admoestá-lo por alguma falta escondida. Porém, as palavras jamais vinham.

“-Por favor, me ajude! Me tire daqui! Eu faço o que quiser.” – choramingando.

“-Eu te mostrarei! Veja! Veja!” e a figura bem vestida colocou um sapato na parede, e depois o outro, e pôs-se a caminhar pela parede, e gesticulava e gritava: “Vê? Entende agora?” e subia e subia. E uma sinistra gravidade o prendia ao teto. E ele pulava do teto para tentar alcançá-lo na cama. Mas a gravidade o trazia de volta para o teto. E a gravata pendia, como uma forca antigravitacional. E ele abriu os braços e regurgitou um grito longo e horrível, que cortava como sopro frio de inverno. E gesticulava como se quisesse arrancar os próprios cabelos. E o cão infernal gania e uivava.

E Estevão acordou.