Paraíso: Parte V

A Sombra caía sobre Innsmouth, enquanto mirava por alguns instantes a figura sombria desbotando-se na névoa pálida e azul da capa do volumezinho gasto que descansava sossegadamente sobre suas mãos vagabundas. Folheou despreocupadamente as folhas amareladas, enquanto caminhava sem medo e sem atenção pelo labirinto. Labirinto de papel, letra morta e sonhos fragmentados. Texto e tecido de sonho, equações matemáticas e exames finais, as palavras atravessavam sua mente em desabalada corrida sem deixar pegadas, dissertando sobre a vacuidade, o nada e o arrependimento. H. P. Lovecraft era o autor, em letras amarelas. Carregava a Histologia Básica de Junqueira sob o braço. 5ª edição. Perdia passo após passo, enquanto perdia-se no corredor das Humanidades, dobrou uma esquina na Análise de Sistemas, ignorou os rostos pálidos, frios e distantes. Virou uma página, e logo estava na Filosofia do Direito. Desviou o olhar dos olhares desconhecidos. Nas estantes, velhos amigos e A Arte da Guerra de Sun Tzu. Mais uns dois ou três passos em falso e logo se depararia face a face com o Minotauro no centro do labirinto. O playboy maconheiro fitava-o com olhos vermelhos e uma camiseta roxa, de onde o rosto de algum metaleiro famoso espreitava com olhos raivosos. Corria os olhos pelas lombadas. Um Norberto Bobbio, outro Friedrich Schiller, braços dados com Nietzche e Auto-ajuda, enfileiravam-se no paredão do esquecimento. Capa dura, vermelha, um volume curioso e ignoto… Magia sem lágrimas de um certo Crowley. Eliphas Levy. Tomou do pesado tomo vermelho. O Livro de Eibon, mas não o abriu. Pois… o portal escancara-se à sua frente e engoliu tudo.

Sentiu algo implodir dentro de si e um grito morrer inaudito na imensidão gelada. Colocou o livrinho de H. P. nalguma reentrância das estantes. Contemplava através do vazio deixado pelo livro a Outra Dimensão. Uma outra realidade, feita de promessas sussurradas ao pé do ouvido, segundas intenções e doce desconfiança. Olhos. Olhos sem uma face, desapercebidos de tudo e todos, liam e reliam, atentamente, alguma mentira. Mas ele percebeu, ou ao menos pensou ter percebido. Tão difícil atravessar para o Outro Lado. Quis colocar o braço através da fenda e tocar… Mas já não estava mais lá, como se sequer houvesse existido.

Não! Correu pelo corredor claustrofóbico e cambaleou pelo interminável. Kant, Freud, Eliade, Campbell, Jung, Newton, Giordano Bruno, Foucault, Eco, Baudrillard, Bataille, Celiné, os Irmãos Grimm, King, Hegel, Voltaire, Montesquieu, Hume, Descartes, Platão, Aristóteles, Sheakespeare, Bacon, Milton, Esôpo, Baum, Stoker, Wilson, Carroll, Doyle, Tolkien, Barker, Bronte, Ovídio, Dunsany, Machen, Brown, Derrida, Bruce Lee, Hipócrates, Andrade, Galeno, Vitrúvio, Boccacio, Petrarca, Dante, Lobato, Christie, Chagas, Le Fanu, Walpole, Wolfe, Saramago, Berkeley, Azevedo, Byron, Shelley, Hawking, Feynman, Rosseau, Beccaria, Chomsky, Safo, Maquiavel, Napoleão, Aristófanes, Nérval, Mallarmé, Huysmans, Rimbaud, Wilde, Cruz, Gógol, Saussure, Rice, Borges, Althusser, Burton, Lévi-Strauss, Balzac, Hjortsberg, Dumas, Reverte, Fantasma da Verdade, Clarck Ashton Smith, Baudelaire, Verlaine, Stevenson, Edgar Allan Poe, Osho, Castañeda, Siddarta, O Rei, Grotius, Del Vecchio, Defoe, Hobbes, Lacan, Malthus, Marx, Weber, Malory, Mendel, Melville, De Camp, Kierkegaard, Jostein Gardner, Kafka, Cristo e uma infinidade de outros sisudos barravam-lhe o progresso. Imbecis eram a pedra no meio de seu caminho. “-Idiota”, gritou um desavisado que foi atirado à prateleira. “-Filho da puta”, outro que desviou-se como um toureiro. Um triste Hemingway e um gordo Aurélio levantaram voo. Levi, seu melhor amigo, aquele parasita, brandia, vitorioso, um exemplar do Kama Sutra e seus óculos disseram-lhe: “Estevão, olhe só o que achei!”

“-Agora não!” – replicou e deixou-o para trás, na poeira, empurrando-o para o lado, como um pedaço de lixo.

Corria, corria e não saía do lugar. Afogava-se em palavras e seguravam-lhe os braços do pesadelo. Quando chegou, se é que realmente chegou. Não estava mais lá. Nem o seu perfume. Respirou fundo o ar que havia respirado. No meio do zumbido e dos sussurros abafados, ouviu passos. Deitou-se no chão gélido, e por baixo das prateleiras, viu dois sapatinhos, azuis, caminhando lentamente.

Caça e caçador. A vítima realmente escolhe seu assassino? As palavras de algum egoísta ressoaram em seu vazio profundo, oco, infinito: “…pois o que percebemos na verdade não são os objetos em si, mas sim, nossos próprios pensamentos. A árvore que você vê, não é a árvore real, mas sim, seu cérebro tentando interpretar os raios de luz refletidos pela árvore, estimulando sua retina. Oras, a cor refletida pelos objetos é justamente o espectro da luz que não foi absorvida pelo objeto. Ou seja, não é a cor do próprio objeto, mas sim, a que ele refletiu. E até a cor que você vê, provavelmente não é a mesma cor que outros veem.  Está tudo em sua mente. O mundo que você vê, somente você pode ver. Ninguém mais.” E se fosse verdade? E se as pessoas que você imagina conhecer, na verdade forem apenas as imagens que você fizer delas? Um simulacro? Um modelo incompleto e imperfeito? Por acaso você pode conhecer os pensamentos do Outro? Pode sentir suas emoções se não pode nem mesmo enxergar as mesmas cores que ela? Pode compreender suas motivações e artimanhas, se não entende nem as suas próprias? Não há problemas matemáticos que não consegue resolver? Enigmas que não quebrou? Se outros podem fazê-lo, você pode compreender como eles pensam? Teus amigos são teus amigos, ou a amizade que nutre está apenas em sua mente? O amor que sente… É possível ser amado? Alguém pode realmente saber quem você é, ou apenas conhecer a imagem que você reflete em suas mentes? Podem ler teus pensamentos? É possível comunicar alguma verdade se ninguém te compreende? É possível alimentar os porcos com pérolas? A beleza está apenas nos olhos do observador?

Seguia algo sem saber o que seguia. Como poderia reconhecer-lhe se viu apenas, de relance, a frieza de seus olhos. A multidão retribuía seu olhar com indiferença e fantasmagoria. Deus Cupido e suas balas perdidas. Abracadabra! Era uma vez…

Junqueira ainda sob o braço, pôs-se a voltar à sala de aula. Descia as escadarias quando…