Paraíso: Parte IV

Café Jean B., centro da cidade.

Pousou lentamente a xícara de café na mesa a sua frente. O entardecer se alongava no horizonte e o chão do calçadão apinhava-se de pombos, gordos e cinzentos esperando por migalhas. Sua forma supostamente aleatoria de andar o estava deixando angustiado. Desviou o olhar para a praça, diante de si. Pessoas apressadas andando em todas as direções. Imaginou-as como uma enorme massa interligada de carne, sangue e células minúsculas, atómos ligados a átomos menores, seus vãos preenchidos por oxigênio, suas consciências ligadas como um grande cérebro. Tantas pessoas, tantos pensamentos, cada um deles vivendo sua própria realidade e ao mesmo tempo compartilhando da realidade das pessoas a volta.

Deixou a mente divagar naqueles pensamentos. Lembrava-se dos sonhos estranhamente reais que vinha tendo, além da frequência com que de repente, no trabalho, na rua ou em casa, pegava-se devaneando sobre eles. Suas noites mal dormidas e o excesso de responsabilidades talvez estivessem produzindo-os, mas isso nunca antes tinha tido qualquer efeito tão forte na sua vida. Como ele poderia então, distinguir a vida real dos seus sonhos tão impressionantes? Não raro, ultimamente vinha nutrindo o medo de, de repente, não saber se estava ou não acordado.

A sua frente, os pombos e as pessoas dançavam em movimentos silenciosos e complexos, o sol já quase sumindo no horizonte, quando um baque chamou-lhe a atenção para o meio da multidão. As pessoas não mais se movimentavam de maneira aparentemente aleatoria, mas seguiam um padrão em determinado momento. Elas se afastavam em um circulo crescente de um ponto específico, há uns quinze metros do café. Ele não podia enxergar o que estava acontecendo, mas as pessoas murmuravam surpresas, algumas assustadas. Uma senhora curvada, apoiada em sua bengala, afastava-se de costas, murmurando e balançando a cabeça, vindo distraída ao seu encontro. Ele esboçou um gesto para evitar que ela tropeçasse, mas no momento exato, ela virou-se para andar de frente, encarando-o. Seus olhos se arregalaram, e ela esboçou um “Ah!”. Olhou para a multidão, olhou para ele. Deu um passo para o lado, afastando-se rapidamente. Os pombos, assustados com o movimento repentino, levantaram voo.

O circulo aumentava. Curioso, levantou-se. Tirou do bolso do casaco amarrotado um pacote de papel e deixou-o sobre a mesa, e aproximou-se do alvoroço. Foi forçando o caminho entre as pessoas, um calafrio percorrendo sua espinha. Cada passo tornava-se mais pesado, a medida que se aproximava do misterioso acontecimento. Começou a suar, o coração acelerado. Olhou para as palmas das mãos, sentia-as frias e pegajosas. Parou de andar, na dúvida se devia continuar. Então o circulo se abriu. Deu dois passos e entrou no centro da multidão. Havia um homem deitado no chão, meio de bruços. Estava tendo algum tipo de ataque espasmódico, as pernas e os braços agitando-se violentamente. Uma pequena poça de baba escorria do lado da cabeça do pobre rapaz, que esfregava o rosto involuntariamente no calçado da praça. A sensação de estar sonhando pegou-o fortemente, seus pelos arrepiaram-se. Pois não precisava ver completamente o rosto do epilético para saber que era ele mesmo. Afastou-se, aterrorizado. Ele não estava sonhando! Não estava!

No café, um visitante incomum, observava. Um homem de alta estatura, trajando um terno preto, que segurava um enorme livro. Observava e anotava. Encontraram-se seus olhares. Subitamente, fechou o livro, guardou a caneta no bolso, levantou e aproximou-se dele. Olhou diretamente para seus olhos e gritou:

“Se você está me vendo aqui, de uma vez por todas, acorde!”