Paraíso: Parte III

Lá estava ele, sem saber o que fazer, com aquela imensa besta respirando em sua cabeça. Desejou que fosse mais um sonho, mas tinha uma horrível sensação de que desta vez, estava mesmo acordado. Mas estava mesmo? Tentou permanecer imóvel, mas não conseguia parar de tremer e as correntes começavam a fazer barulho, ao mesmo tempo que o cheiro muito forte de alguma erva fedorenta sendo queimada parecia exalar de algum outro cômodo da casa. Olhou para cima e viu os olhos do cachorro abrirem-se, enquanto começava a rosnar. Gelou.

Então, em um salto repentino, o cão começou a latir freneticamente, com seus dentes enormes e molhados, abrindo e fechando a imensa boca em gestos rápidos que só não rasgavam seu rosto por algum milagre.

“Quieto, Satanás! Deixe o infeliz dormir em paz!“ Gritou uma voz vinda da porta.

Então Satanás parou de latir imediatamente e correu em direção ao seu aparente dono, todo manso, pulando e abraçando suas pernas.

“Calma, Satanás! Olhe, eu trouxe comida.” Disse a estranha figura, enquanto tirou o que parecia ser um camundongo morto de dentro do bolso de seu terno. Atirou no outro cômodo e Satanás foi correndo pegar. “Então você finalmente acordou, infeliz?” Disse enquanto se aproximava de seu hóspede acorrentado.

“O que está acontecendo? O que eu estou fazendo aqui? Quem é você?”

“Por que eu me daria ao trabalho de explicar mais uma vez pra você se você vai esquecer tudo de novo? As correntes estão te machucando?”

Perguntou, enquanto verificava as marcas em seu braço. Enquanto olhava assustado para o seu braço cheio de feridas, viu aquela estranha figura de terno enfiar-lhe uma imensa injeção. Gritou de medo e de dor.

“Não haja como se fosse a primeira vez que estamos fazendo isso. Durma e delire. Em minutos você não vai se lembrar de nada do que aconteceu.” Disse enquanto acendia o cigarro.

A visão vai ficando turva, o coração desacelera. Apaga.

 

Acordou com uma imensa dor de cabeça. Sentou na beirada da cama, olhou para os seus braços, uma estranha memória de algum pesadelo invadiu sua mente. Pela primeira vez, em muitos anos, conseguiu lembrar-se de parte do seu sonho. Alguma coisa com um cachorro, não conseguir se mexer e alguma injeção. Normalmente, não se preocuparia com isso, mas por algum motivo estranho, desta vez era diferente.

 

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