Paraíso: Parte II

Enquanto isso, do Outro lado.

Rolava o cigarro apagado de um lado para outro da boca, assim como giravam vertiginosamente os pensamentos em sua cabeça e os transeuntes pelas calçadas cinzas, ratos gris correndo, quebrando esquinas e sumindo em um labirinto cor de chumbo, esmagados sob um céu de pedra, apedrejados pela chuva. Ácida. Folheou o livro despreocupadamente. Decerto não havia mal nenhum nisso, se não podia entendê-lo? O mal é o conhecimento. Ignorância, nudez, inocência é o Paraíso. E Ele era um mensageiro do Paraíso. Ele era o derradeiro. Trazia as boas novas, com voz de trovão no deserto. Ou seria um sussurro de amantes? Escutai, quem tem ouvidos. Contemplai, quem tem olhos, mudos. Cheirai. Lambei-me.

Sempre lhe assaltava aqui, aquela sensação de estar aprisionado em um sonho repetido. Um disco riscado. Palavras esquecidas na ponta da língua. E aquela impressão de que logo ali adiante, a… Só mais um pouco e…

O destino dos homens é incerto. Mas seu caminho, tantas vezes trilhado, mas sempre esquecido, levava sempre a Ele mesmo. Era hora. Cruzou o velho limiar e foi saudado pelas figuras habituais de pesadelo. O velho, cego e negro, fitava-o com olhos curiosos. O velho chapéu, sobre a calva, cumprimentou-o com um gesto cavalheiresco:

“Boa noite, Próspero!” Ouviu um tilintar metálico em sua caneca e sentiu retinir no âmago de seu ser um profundo gozo, mesmo sem saber o por quê. Como sente o cão, quando o dono assovia.

“Boa noite”, seus lábios responderam, enquanto seus passos seguiram em frente.

Abria-se a cloaca para aquele mundo fantasmagórico. Descia escadas rotas, abria portas carcomidas. Trancava lembranças. Ignorava gritos e sussurros enamorados. Apagava cores murchas. Adentrava o reto infernal. Aonde a luz do sol envergonhou-se em tocar. Rodearam-lhe as crianças, barrigudas, em turbilhão de sorrisos desdentados e cabelos despenteados e esfomeados. Olhinhos assustados. Risos enforcados.

Passou a mão sobre os cabelos do pequeno Vito. Cujos olhinhos espertos e sonsos sondavam alguma fraqueza. Pobre Vito! Perfectibilizara a arte da punga, da diversão, e dos olhos de cachorro. Por um punhado de moedas, um par de notas sujas de sangue, um naco de hambúrguer, um gole da bebida dos estúpidos gigantes, uma espreitadela pela fechadura, um segredo de mulher perdida e hirsuta, um momento esquecível, fugidio e fugitivo de… Prazer. Tanto talento escorrendo pelo esgoto! Pequeno garoto. Não fosse sua falta de ambição e um certo excesso de sardas no rosto sujo, seria um deus.

-Como vai tio Carlo? Distribuiu-lhes um punhado de balas, saído sabe-se lá de onde. E escapou ileso e com a facilidade dos veteranos de guerra, de mais uma armadilha.

E sucedeu-se uma procissão de fantasmas, anões e ladrões. Risos convertiam-se em lágrimas. Água parada em vinho e moscas. Portas transfiguravam-se em poços sem fundo. E lances de escadas em saltos de fé. Palhaços sem circo e sem sorrisos transsexuavam-se em velhas de seios murchos e dentaduras esqueléticas. E imploravam-lhe o produto. Que checou mais uma vez, ainda estava lá, em suas mãos. Gracejos transfixavam-se em desespero. Brincadeiras inocentes em sangue e estupro. Cadáver em vizinhos. Dor em prazer. Balas perdidas em bater nas portas. Baratas rastejantes em homens. E mendigos em Jesus.

Preparou-se para bater à porta.

Uma mão doente segurava-lhe o braço. Percebeu.

-Por favor. Só mais um pouquinho. – arregaçou os dentes em uma tentativa de sorriso, que não passou de crime doloso – Por favor, Pietro. Faço o que você quiser. Eu te chupo. – dois olhos que de tão fundos, poderiam servir apenas para a instrospecção e a meditação. Quinze aninhos de uma eternidade.

-Minha bela Perdita! – passou a mão em seus cabelos ralos, que desprenderam-se como dentes-de-leão – Você não pode me pagar.

O esgar não mudou. Mas agora exalava confusão, medo onde pretendera haver simpatia. Acariciou os seios, que já foram quase nada, agora já não mais haviam.

Oras. Porque não? Caridade, um vício para poucos.

Abriu o livro nalguma página qualquer. A penumbra oriunda de alguma fenda daquela prisão, enfatizava as palavras. Pontuava os exemplos. E ela leu.

Enquanto Ele postava-se ali. À porta. Trajando black tie.

Foi então que se lembrou daquele infeliz acorrentado em seu quarto. Ele devia estar acordando agora e se passasse muito tempo sem a injeção, poderia causar problemas. Fechou o livro de repente. Olhou para aquela pobre encarnação de dentes podres e olhos secos. Riu-se. Jogou para o alto um pedaço de plástico com alguma coisa dentro. Perdita riu, esticando os bracinhos para tentar pegar, enquanto inúmeros vermes que espreitavam ao redor pularam em cima dela para tentar lhe arrancar o que quer que fosse aquilo.

Ajeitou a gravata enquanto ria. Estava na hora de voltar para casa. Abriu a porta lentamente e seguiu andando de fininho até a porta do quarto para espiá-lo. Lá estava o infeliz, dormindo com o cachorro quase apoiado em sua cabeça, tremendo e resmungando palavras sem sentido. Ainda dava tempo de defecar e fumar alguma coisa antes dele acordar.

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