O Porteiro da Noite (The Night Porter, 1974)

unnamed

Considerando o elevadíssimo número de reclamações recebidas (4), muito embora não solicitadas, fazem-se necessários alguns esclarecimentos. Primeiro, uma leitura mais atenta à introdução da resenha anterior poderia evitar muitas das dúvidas, angústias e dissabores supostamente experimentados por algumas(ns) leitoras(es) adictas(os) mais desavisadas(os). Especial atenção para a primeira parte mesmo: o título “Resenha Misantrópica”. Poderia perder meu tempo, desenhando e explanando, pois, ao contrário de você, adicta(o), eu tenho tempo a perder. Simplificarei tudo então: se você é incapaz de compreender para que serve um dicionário, faça um favor a si mesma(o) e vá embora. Vá estudar. Vá dormir. Algumas(ns) reclamaram sentir-se ofendidas(os). Afinal, qual outro motivo poderia haver para ler uma resenha MISANTRÓPICA, senão para ser ofendida(o)? Ninguém está te forçando a ler isso, senão tua própria estupidez. Então, se este não é a sua tara, pare de violar a si mesma(o) e vá ver o site da Disney.

Ademais, o sentir é algo interno à pessoa. O que você sente é seu e de mais ninguém. Eu não posso controlar isso. Assim como ninguém, a não ser você mesma(o) pode controlar seu erros, fraquezas, vícios e outros distúrbios socioemocionais.

night 1Feitos esses breves esclarecimentos, passemos ao tema desta resenha: Liberdade. Ou, a Liberdade e seus limites. Liberdade limitada é realmente liberdade? É possível a liberdade absoluta e ilimitada? Alguém é realmente livre? Sua vontade é realmente livre, ou é condicionada por teus preconceitos, fraquezas, medos, desejos, lapsos, ignorância? Você consegue voar? Sua vontade de voar é realmente livre? Há livre arbítrio? Está tudo predeterminado? A existência é uma equação matemática, um mecanismo com movimente certo, destinado a um fim? Você pode mudar esse mecanismo? Então voe… E esse tema, temperado ao sabor picante da ofensa, do ofensivo, da controvérsia, foi magnificamente explorado – embora vocês adictas(os) não tenham compreendido – na película “O Porteiro da Noite”, de 1974. Liberdade, controvérsia, agressão, coerção, constrangimento… Tudo afinal, resume-se mesmo em apenas dois assuntos: sexo e morte, Eros e Tanátos, os quais, no fundo, são a mesmíssima coisa. E tratar desses temas, magnificamente, com atores lendários, cenários e enquadramentos de câmera impecáveis, há mais de 4 décadas atrás, sob o pano de fundo da sexualidade, é para poucos. Entender isso, então, é ainda mais difícil. Logicamente, tudo que obriga a pensar há de ser controverso, quando o normal – o natural – é ser burro, fácil, preguiçoso e grotesco. A natureza quer conservar energia. Assim, todo excesso é antinatural. Excesso de pensamento é uma agressão contra a ordem natural das coisas. É mais fácil cair e jamais sair do lugar comum. E poucos assuntos ofendem tanto como liberdade e sua maior expressão prática, a sexualidade. Afinal, o ser humano sobrevive da exploração do outro. Todas essas tecnologias e facilidades que você conta como certas, mas que demandaram esforços sobre-humanos para serem descobertas, e trabalho escravo para serem produzidas. Tudo isso adveio da limitação ou do controle da liberdade de alguém. O ser humano não é um animal social, na verdade é um parasita. Discutir isso é tabu. Assunto tão velho e ao mesmo tempo tão atual. Desde que a primeira ameba fez uma mitose ou meiose ou o raio que o parta, e partiu-se em duas, a sensação mista de asco, dor e prazer que sentiu perpetua-se até hoje, em algum recanto úmido, escuro, pulsante, incrustado em seu cérebro primal e primata.

night 2

Vivemos hoje o milagre da multiplicação dos sexos e gêneros (os estudiosos se digladiam em diferenciar ou aproximar esses conceitos, ao sabor de seus próprios preconceitos, fobias, orgulhos e vaidades), assim como a confusão entre gênero e desejo sexual. O sexo anatômico ou genético já não mais satisfaz o animal humano e engessa o seu potencial. O ser humano quer mais, muito mais. E tudo isso é sintoma de uma doença e ao mesmo tempo da única parte realmente digna do bicho homem: essa afirmação constante, intransigente e violenta contra toda e qualquer limitação; essa revolta luciferina contra o limite e a imposição; esse desejo mórbido pela transcendência e pela fuga. Nem mesmo a imaginação é o limite. O ser humano não basta a si mesmo. E por isso odeia o próximo e a si mesmo. O outro é uma caricatura patética dos seus próprios limites, é o espelho da bruxa malvada que zomba de ti. Se isso te constrange, culpe a Mãe Natureza, o Universo, o Livre Mercado, as Leis da Física ou da Evolução ou da Economia ou, se você acredita em Papais-Noéis, culpe o teu deus.

De fato biológico, químico ou físico, o sexo em constante mutação evoluiu para construto social e agora, psíquico. Afirmação total da liberdade ou doença mental? Existem mesmo doenças mentais? Existe algo que não seja uma doença? Para o médico Thomas Szasz, a doença mental é um mito e a psiquiatria não passa de astrologia, fetiche da modernidade, psiquiatras e psicólogos são xamãs e pajés travestidos do futurismo, em um verdadeiro atentado contra a liberdade, autonomia e dignidade do ser humano. Uma forma de controle social, para excluir e marginalizar rebeldes que são estigmatizados como loucos.

night 3Aqueles que têm culpa no cartório e as covardes decerto já têm ânsias de acusar-me de sexista, mesmo sem compreender uma palavra sequer do que tenho dito até agora, pois das estratégias do covarde é desviar o foco de si mesmo, acusando o outro de seus próprios defeitos. A psicologia chama isso de transferência e projeção. Os pecadores utilizavam-se do bode expiatório. Sacrificavam o pobre animal, na vã esperança de livrar-se dos próprios pecados. Assim como teria sido feito com um tal Jesus. Passar a responsabilidade é a tática do fraco. Antecipo-lhes: certamente que, na visão míope de algumas(ns) esta resenha poderia receber a alcunha de sexista. Afinal, ao ser humano é impossível – por enquanto – não fazer parte de algum dos 200 sexos existentes (e crescendo) e não imaginar preconceituosamente a validade do seu próprio, em detrimento dos demais. E todo ser humano que se preze, assim como toda ovelha, gosta de fazer parte de um rebanho, de uma manada, de uma tribo ou de um time (como os de futebol). Contudo, lanço-te um desafio: qual desses sexos ou gêneros está sendo defendido em prejuízo dos demais? Posso muito bem estar defendendo a posição do assexual, ou do assexual hidrófobo, já que todo e qualquer ato sexual é por definição sempre imundo, pecaminoso e vergonhoso, e nada mais faz do que prolongar essa doença chamada humanidade, chaga leprosa sobre a Terra, sendo que o único caminho correto é o da autoextinção voluntária.

Uma coisa fique muito clara: embora a lógica nos leve a crer que entre várias opções, uma delas possa ser melhor que a outra, ou que, mesmo diferentes, duas, três, infinitas coisas possam ter o mesmo “valor”, só posso dizer que se existem diferenças de qualidade entre o homem clássico, anatômico e a mulher clássica, anatômica, biológica, ainda não as encontrei. Explico-me: ambos são vis, cruéis, covardes, mesquinhos, parasitas, verdadeira escória. Há alguma diferença entre o fundo do poço e a lama do fundo do poço? O copo está meio vazio ou meio cheio? E nesse jogo chamado de vida, ambos tem uma propensão a culpar a vítima ou de fazer-se de vítima.

E este filme brinca justamente com os teus preconceitos, em uma vã tentativa de ilustrar o brocardo latino “ridendo corrigit mores”. Certamente que foi atacado e objeto de controvérsias.

night 4As lendas Dirk Bogarde e Charlotte Rampling, esta acompanhada de seu marido, cruzam seus olhares na recepção do hotel. A tensão revela que não é a primeira vez. O verdadeiro artista consegue contar histórias através do olhar. Os olhos verdes de Rampling traem medo, submissão e alguma coisa mais… Afinal, Bogarde, agora o porteiro da noite, sob identidade falsa, administrador prático e versátil do hotel e das necessidades de seus excêntricos inquilinos, antes utilizara seus talentos como pretenso médico, oficial… e torturador nazista. Rampling, uma judia implícita, embora em nenhum momento expressa sua real afiliação religiosa, sua cativa e cobaia favorita. Abundam flashbacks, mistos de pesadelo e dos clichês usuais desta época da humanidade que tão bem espelha os aspectos mais doentios da sexualidade. Ora Bogarde dispara alguns tiros, enquanto Rampling, encolhida, trêmula e nua tenta se esquivar, disparando olhares enigmáticos, ora filma obsessivamente Rampling nua, durante uma seleção e registro de prisioneiros, ao lado de nossas tão conhecidas figuras esqueléticas, apáticas e sem esperança do Holocausto. Bogarde lambe uma ferida, muito provavelmente provocada por ele mesmo, no braço de Rampling. Rampling chupa os dedos de Bogarde. Um prisioneiro se masturba em seu leito fétido enquanto é sodomizado por um oficial nazista, sob diversos olhares apáticos, dentre os quais, sobressaem os olhos verdes de Rampling… Alguém poderia imaginar se o fato de Bogarde realmente ter lutado durante a Segunda Guerra Mundial (ao lado dos aliados) influenciou de alguma maneira seu retrato de um oficial nazista. Em certa parte do filme, Bogarde confidencia (ou confessa) para sua única confidente, que esta é uma história bíblica, mencionando Salomé. Aqui a personagem acerta apenas em parte. Certamente é um plágio de uma história bíblica, como todas as outras histórias, mas não é Salomé, sua dança de sete véus e a cabeça em uma bandeja de prata o episódio mais pertinente. É a velha história de Abraão e seu filho Isaac, tão bem contado no filme “Menina de Ouro”, em outro contexto.

Agora, nesse reencontro, o que faz Rampling? Denuncia seu torturador foragido à polícia? Pede socorro ao marido? Ou utiliza-se de subterfúgios, mesmo que de forma hesitante, vacilante, de ver-se a sós com seu algoz?

E somente depois que ele a enche de pancadas, entrega-se-lhe toda, sem reservas, rindo de pura e infantil felicidade.

night 5Aqui, muitos sentirão repulsa. Outras(os) sentir-se-ão traídos, como se sua tribo ou classe possuísse um Judas. Algo como o sentimento provocado por saber que algumas vítimas de estupro, pelo próprio atrito provocado pela agressão, podem experimentar as reações fisiológicas de excitação sexual, mesmo que dissociadas de qualquer desejo, o que somente amplifica o terror por que passam. É a natureza, ou seu deus, mais uma vez cuspindo no teu rosto. Ou o caso da fiel esposa, que para evitar que seu marido preso fosse executado na prisão, falsificou papéis e sujeitou-se a repetidas visitas íntimas a outros criminosos, tudo sob a vista grossa dos funcionários locais…

Neste jogo chamado relacionamento humano, o ser anatomicamente feminino está em clara desvantagem, digamos, espacial e econômica. O ato sexual clássico, a chamada conjunção carnal – isto é, o chancelado pelo deus patriarcal e machista bíblico –  é por natureza uma agressão. Pergunte a mãe de qualquer criança o que é ter um corpo estranho enterrado na narina ou um afogamento causado por uma bala ou outro objeto qualquer engolido inadvertidamente. Essa agressão pode provocar sangramentos, inflamações e transmitir toda sorte de doenças, sendo a mais comum, a gravidez. Ter durante 9 meses um parasita, algo quase alienígena, desenvolvendo-se em seu corpo e sugando suas energias, certamente coloca a fêmea anatômica e portadora de um útero funcional em certa desvantagem econômica. Ao mesmo tempo, é possível que esse ato, ao menos lhes seja útil do ponto de vista da segurança ou financeiramente, quando dele fazem uso profissional ou matrimonial, este último em sociedades menos civilizadas ou, ainda, quiçá, é possível que algumas delas derivem certo prazer desse ato. A fêmea anatômica que porventura sofra do mal de sentir prazer, ou mesmo curiosidade, com a imissão do órgão sexual masculino em sua vagina,  como legítima proprietária de seu próprio corpo e instância final de decisão sobre sua própria liberdade, deve primeiramente consentir (ou na maioria das vezes ser ludibriada a consentir), com essa invasão tão íntima ao seu espaço pessoal. Algo como fazem as(os) lutadoras(es) de boxe, que consentem em distribuir e receber pancadas, que em outro contexto, constituem lesão corporal e poderiam sujeitá-las(os) à prisão. Ou como o médico, que provoca ferimentos ordinariamente mortais em seus pacientes, rasgando tecidos com lâminas e arrancando e substituindo órgãos.

night 6É cruel a posição da fêmea anatômica, independentemente de seus sexos e gêneros, que queira ou até goste de ser vítima de uma conjunção carnal típica, qualquer que seja o sexo ou gênero da(o) agressora(r).

O que fazer então com Rampling, que voluntariamente abdica de sua liberdade, em favor do prazer imensurável que sente ao ser torturada e tornar-se objeto?

Seria uma doença mental? Uma coação invisível? Síndrome de Estocolmo diriam os mais pretensiosos, estúpidos e técnicos?

A expressão de sua liberdade deve ser tratada com medicamentos? Eletrochoques? Prisão?

Ela não sabe o que faz? Certamente está louca?

Todos afirmam ser defensores da liberdade. Até encontrarem com um obstáculo: o vizinho, o outro. Afinal, é possível que mais de uma pessoa seja livre ao mesmo tempo? É possível que a liberdade do outro não interfira na sua? E como você lida com essas intromissões? Com esses estupros às suas ideias e moralidade? Como você lida com a liberdade do seu “semelhante”?

Certamente que você tem ideias muito fortes sobre o que é certo e errado. Mas como você lida com o outro que pensa exatamente o oposto de você? Como você, que se julga feminista, lida com aquele que você pensa ser uma(um) machista? Elas(es) não deveriam ser presas(os)? Acabar com a liberdade daquela(e) que não pensa como você, cara(o) adicta(o)? Deve-se ser intolerante com a intolerância? Sua liberdade vale mais que a dela(es)? Você vale mais do que ela(s)?

Pode você impor limites ao prazer? Consegue mudar algo que outra pessoa sente? Não é você que afirma que a sexualidade não é uma opção, não é uma escolha, que a pessoa nasce dessa forma, às vezes presa, acorrentada, a um corpo trocado? Que dizer daquele que nasce sentindo prazer com o que os outros classificam como sofrimento?

Se alguém quiser ser, ou nascer, um unicórnio, um dragão ou um desenho animado, você é livre para impedi-lo? Você não é livre o suficiente para ser o que desejar? Um assassino ou uma(um) necrófila(o)? Ou ambos? O bem da sociedade é o limite? Você quis fazer parte desta sociedade? Contrato social? Você consentiu com isto? Você se sujeita voluntariamente às leis criadas por outros homens? A perpetuação da espécie é a lei? A natureza é a lei? Você discorda de algumas leis? A vontade da maioria é o limite? A democracia é o melhor tipo de governo? Mas muitos não podem errar? As massas não são burras? Os grupos não podem fazer escolhas desacertadas? O Holocausto não é um exemplo disso? Não pode haver minorias mais inteligentes ou mais adaptadas do que maiorias? Qual é o percentual de cientistas em relação a toda a população humana? O Rei sábio tem o dever de governar pois sabe mais do que o súdito? O médico pode forçar o paciente a fazer um tratamento? O pai pode impor sua vontade ao filho menor? Alguém sabe melhor do que você o que é bom para você? Você acha que sabe mais do que os outros? Os outros deveriam fazer o que você quer? Deveriam seguir a sua moralidade? A liberdade do outro é o limite da sua liberdade? Em um mundo de escassez econômica, em que há apenas um pão para alimentar duas bocas, qual delas tem direito ao alimento? A lei do mais forte, a lei da selva? Você pode dispor completamente do seu próprio corpo? Você pode se matar? Você pode ajudar outro a se matar? Eutanásia? Aborto?

Você pode impor limites ao pensamento? Ao sentimento? Ao desejo do outro? Mesmo que você queira, consegue fazê-lo?

E o filme não se resume a essas indagações filosóficas. Há muitos outros textos, contextos e subtextos a ser explorados, embora variações sobre o mesmo tema. Pode o torturador realmente amar a sua vítima? Há alguma diferença entre o relacionamento afetivo e a agressão? Existe mesmo crime passional? E como a sociedade encara isso? O grupo de suporte, de ajuda, composto por nazistas foragidos, do qual Bogarde faz parte e seus estranhos rituais é uma caricatura muito apropriada da sociedade. A sociedade estabelece padrões e vocês tem que se conformar. Mesmo que a sociedade seja composta por criminosos e insanos, você deve se conformar. Em um simulacro de tribunal, todos os membros do grupo nazista devem  ter sua vida examinada e minuciosamente analisada por todo o grupo, superficialmente, com o fim de eliminar provas e testemunhas do passado. Mas na realidade, trata-se de uma confissão quase religiosa, com o fim terapêutico de livrar-se da culpa. A doença é a culpa e não o mal que causaram. O chefe do grupo discute isso com Rampling, já aprisionada novamente por Bogarde em seu apartamento, acorrentada a uma parede: a culpa contamina a vítima e não o agressor. A vítima é o enfermo, afirma. O problema é o indivíduo e não a sociedade.

Para muitas(os), soará como mais um tapa na cara o fato deste filme ter sido dirigido por uma Diretora, anatomicamente fêmea, Liliana Cavani, nascida nos anos trinta e grande apreciadora de óperas. Muitos de seus filmes são embebidos na mais profunda e raivosa controvérsia. Isto porque poucos veem que o que importa não é o sexo, é a genialidade e que sua mente é o seu verdadeiro órgão sexual. A mente do gênio vive em eterno orgasmo.

E agora? Você pode continuar afirmando-se defensor da liberdade, quando a mais pura e extrema afirmação dela, a rejeição a qualquer limite e moralidade, é justamente a de escravizar-se e tornar-se objeto e abjeto, libertar-se de sua própria individualidade, libertar-se da própria liberdade em nome do desejo?

Este filme merece gloriosos 3,5 “fucks” pelo enredo, tema, profundidade, cenários e atores. E 1 “big fuck you” para todos vocês, hipócritas. Totalizando 4,5 “fucks”. Uma verdadeira obra de arte.

Quem é sexista agora?