Flora

Autor: Fiori Esaú Ferrari

Move. O atraso imediato tem o feitio das coisas que fazia. Sempre um tempo atrás do tempo e canoa no deslize lento, a água fazendo seu caminho. O peso no dorso. Fazia as coisas para esquecer. No esquecimento, a lembrança do peso da janela como uma cena, um filme que a matéria pôs passado. Nuvens, sempre um tempo atrás do tempo, arquejam a prática de descorar.

Então tudo ficou velho. Sua mão, na costura, sua mão remete a rios escavados dos dias. A maneira com que afastou a xícara, há pouco, a imagem de coisa já feita tantas, tantas vezes… a maneira de afastar um pensamento, sua vontade de sair, preparar a tarde, o jeito singular de tudo se arrumar atado no presente que se solta, a volta dos sentidos, a roda do destino.

Agora é tarde para não ter vivido. O quarto está arrumado. E perfeitas são as coisas quando não queremos que passem. Os desenhos de tijolos na parede bege. Não, não foram apagados. A cama à espera do que não vem mais. Nem cheiro, nem cores, nem toque, atabaque, som nenhum. Uma fotografia dele tão criança, preso a sua mão. Pesa sem pó na parede. Ela ainda sente o calor. Sentiu agora, tem pouco, quando afastou a xícara. Os dedinhos inseguros apontando saúde e caminho. Se tivesse uma fita de prender saudades… ódio do seu útero diante do amor intenso com que, desavisada, teve de amar.

O quarto de tudo pendurado. Estrelas, peixes estelares, pássaros de papel, letras de música, a voz sua voz, pausada de não conhecer a vida e arremessada no coração profundo, medida de um espaço que não acabava, seu ouvido-cidade marítima. Ela articulou o silêncio, tear impreciso. Lhe comprou deveres, doces, preencheu o vazio com trabalho. Mas como calar a voz do corpo que se foi e soa, soa, voa sem matéria? Deixar o quarto ausente do que fosse desgaste, do que fosse desmanchar em corrosão no apagado da história. Prender as formas, proteger a arrumação inocente do seu filho. Ato de fechar os olhos.

Da rua alguém lhe chama Flora. Acorda do torpor, levantar da cadeira é o pouco na tarde. A pessoa continua no chamamento que vai fazendo liame de sons, vai marchando com passos cada vez mais enfraquecidos. Volta. Mais uma espera. O exército de Flora, sonoro, Flora e Flora entrando pelo vão da janela, atravessando a cortina que enfraquece o sol. Assim pelo seu vestido as palavras penetram, encontram pele antiga. Adequada ao sangue, que muito lhe escorreu, sabe a construção feminina que lhe impuseram. Ser mulher. Bate na mesa sem ânimo de resposta. A voz não chama mais. Os lábios tremem. Lá fora, o silêncio ficou de flores.

Algo escapou no movimento do mundo, algo que ela não compreendia. Um dia seu filho foi embora. E ela foi ficando. Telefonava. Longe a voz: Flora. Perdera o costume de dizer mãe. Estou bem. A faculdade, o partido, a exploração e alienação das massas. A luta do povo. Cadê a forria?  E ela foi ficando. Bombas estouravam na televisão. Foi quando buscou o espaço do quintal. Ritual, a mão na terra, a água regenerando os córregos que os anos deixaram. A argila acostumando ao tempo seco. Um a um, os bonequinhos vieram ao mundo. Foram dez. Se pudesse atar o que desatava, moldar o improvável movimento das nuvens, cuidar do filho, se pudesse, a construção da proteção contra a dor… bonequinhos… incansáveis na estante. Zombavam dela, da sua impotência. Seu luto.

Exército… a revolução estática. A morte do filho. Também chegou pelo telefone. Do outro lado conheciam seu nome. Os dias pingaram água. No quintal, morosamente. Decidiu se desfazer de tudo, estratégia de barro, arquitetura de barro, desmontar de si, do sangue mensal, da fotografia que amparava seu olhar, a criança precisando dela. Preparava a corda, porque amava as árvores. Pensava seu corpo penso. Pêndulo do fim. O nó bem dado, as folhas pegando cor da noite que vinha, ainda cheias do vermelho no horizonte.

Move. O efeito imediato tem o raso das coisas que jazia. Chorou no alto da copa, retida de pó e saudade. Fez as imagens de barro para que o filho, sempre afoito, afogado de vida, atrasasse o passo diante dos acontecimentos. Os eventos, vistos depois, diminuíam de tamanho, dividiam-se em fluxos. Se estivesse ao lado do filho no momento da queda, seria a âncora submersa no oceano, cora-mar, preamar, pré-amar, floramar. Ele tinha tido a coragem. Ela também teria.

Dobrou-se. Sobre si, seu mundo, sombras mescladas de sombras. Queria o ventre murcho. Vazia pelo sexo, queria ser reticências e quando colhessem seu corpo entre o céu e a terra, colheriam fruta estéril de um filho no inverso do tempo, prenhe de ausência. Então ouviu do outro lado do muro. Uma voz débil chamar Flora, Flora, Flora.

De retrato, voz do corte na sua barriga ainda cicatriz. Cicatriz que levaria para o resto da vida. Flora, Flora, Flora. E foi assim enfraquecendo, tornando fio, até sumir com o canto de algum passarinho que pertencia à paisagem – ave naquela hora – e repousava o conteúdo dos sonhos. Ela desatou o nó, esperou por muito tempo até dar com os pés nus no chão, o vestido manchado de um sangue grosso. Dois gravetos. A vida foi se formando, a vida, essa forma única de vingança contra os deuses. Entrou na casa e colocou a corda pendurada num prego que, faz muito, tinha ficado sem uso na parede. Tinha deixado sua alma emaranhada de linhas.

Uma noite, nesses anos, que trinta se passaram, sentiu a palma aquecer. Do centro, um formigamento correu para a ponta dos dedos. Estava só, mas fizera amor, e do sexo percebeu, se assim o êxtase chegava, que os navios atracados no porto tresmalhavam de vento. Ratos retintos reinavam entre os escombros de bares e carregamentos. Mas não havia decadência. Apenas o propósito de se manter vivos, de se saber sem ser. Ratos, navios, marinheiros.

Homens que se diziam sem morada, mas prendiam-se em sua pele terna, pele-terra. Poucos vieram. Ela continente. Ela conteúdo. Viu a porta fechar, o suor escorria por entre os seios, rio salgado corria. O ventre do seu mar doce. A cortina oscilou. Ela organizou os pensamentos para não enxergar o vulto que chegara, mansamente, seu filho sentou-se perto da estante. Pegou o primeiro bonequinho, o que estava perto dos peixes, peixes estelares, e com ele avistou longe o fruto das ondas, ofegando moções e temporais. Flora nua na rede da cama quis esconder o sexo. Mas ele nem se dera conta. Retornava que nunca tinha saído. Era como estivesse só em outro mesmo espaço. Ela ele.

Depois deixou o bonequinho na mesma posição. O movimento extinto. Determinou diante da corda. Ela fechou a pálpebra na escuridão. Não havia forças de se levantar, enterrada como estava. Ele acariciou a corda, mas ela não queria sua visão, ela queria sua voz. Silêncio que grita. Um cachorro, no fundo da noite, latiu. A mão de Flora voltou a ficar fria. Quando abriu os olhos, nada mais havia. Um cheiro de dama-da-noite adocicou o ar.

Ela se levantou. Parecia ali deitada durante anos e anos, os orgasmos, seu corpo de alicerces, teso, a grande cheia. Percebeu que, pela primeira vez, estava antiga. Mais calada do que falares, mais fechada do que os ares. A partilha do seu mundo. Seu filho e a revolução. Ele e o abismo. Esqueceu para continuar. Os dias contaram mais duas mãos em anos.

Hoje. Soube, sempre soube, o movimento tinha a rosa, ontem botão. Sinal daquele que a escolhera. A maneira com que afastou a xícara, há pouco… ergueu-se para não mais. Os passos para não mais. Até a porta do quarto. Fez na retina a última paisagem, voou pelos objetos mais queridos. O filho em cada um deles. Abrir o coração, saudade construída. Para não mais, do lado outro, no muro imenso, sua cantiga Flora, Flora, Flora negra, mulher, abrir o seio para fluir os guindastes cheios de lua… Sua África do fim, São Jorge da memória desmentida. O sal aberto dos navios. Retirou de si o cais, o porto que lhe alterara a maré mansa. Porto da vida.