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“Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o Mundo.”

Arquimedes, o Tolo

Gravidade. De olhos bem fechados. Tente não se lembrar de como é estar à beira do precipício. Nos altos castelos, nas torres de Babel, no cume das montanhas que nem mesmo a fé pode remover. Nos altos arranha céus, a dez, vinte, trinta, mil andares de altura. De suas sacadas rarefeitas e prostitutas, com os olhos da mente, tente não olhar para baixo e ver a multidão que se agita sem rumo. Esqueça a brisa a beijar-lhe as faces. Ignore o céu, inatingível e azul. Não se abandone ao giro infinito e vertiginoso. Refreie o mergulho no sonho sem fim. Finja que não sentiu o frio toque nas entranhas. Sorria o sorriso cínico dos enforcados!

Respire fundo e ouça o seu sussurrar sedutor:

O suave chamado do abismo.

Outro nome para o Ódio, que nada mais é que uma forma mais pura e desnuda de amor. Sem censuras, falsos pudores, táticas, melindres e não-me-toques.

Sincero como a lâmina de uma faca.

Pois sabe muito bem. Que o mesmo instinto que atira o animal faminto contra sua presa. A vítima ao assassino. O tiro ao seu alvo. O corpo ao chão. O corpo ao corpo dos amantes. É nada mais que o Ódio, Desejo e Gravidade. Tudo a mesmíssima coisa, cuja única função é unir e atar, nos céus e na terra, aqueles que deveriam permanecer eternamente afastados.Newton, logo após acordar de seus febris pesadelos homoeróticos, ainda meio que desacordado, com as brumas do sono a anuviar seus sentidos, com sua pena fatídica verteu no papel o latim que gravou em brasa nahistória da Humanidade: “Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare

Seria uma verdade imutável, não fosse uma mentira descarada. Palavras são as máscaras com que se disfarça a Mentira.

Segundo nosso amado Newton, uma vez lançados em movimento, nada e absolutamente nada poderia impedir nossa eterna, constante e veloz corrida em direção aos confins do Universo. Nada, a não ser, quiçá, a desgraçada colisão com algum outro desventurado nesta fuga infernal. Choque que nada mais faria do que atirar os corpos em direções opostas, proporcionalmente às forças ignotas do deus desconhecido que nos atirou divertidamente, como criança que lança bolinhas de gude, nada mais que uma pequena correção de rota. Navios abandonados por seus capitães. Fuga desvairada sem perseguidor e sem destino. Uma linha reta dos céus ao inferno. De cima a baixo, e de baixo a cima, cegos e sem propósito. Nada prenderia os átomos as nossas moléculas. Homens e mulheres

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desagregando-se em profusa e colorida explosão. Corpos ensandecidos e furiosos tornados em estrelas. Homens de vácuo e estrelas. Como é bela a mentira! Mente-me uma, duas, três vezes mais, para esquecer esta insossa realidade. Suas palavras torpes serão minhas Leis. O que impede que nos transformemos em poeira cósmica? Risos ecoando no mais absoluto Nada. Senão tu Mãe! O que nos une a todos como irmãos e nos iguala, ricos, pobres e perversos? A distância da queda, da fossa e do cadafalso é igual para todos. A velocidade é terminal.

Mãe Gravidade! Kali negra de mil braços e língua bífida a deter meu voo angélico e supernatural.

Se fosse religioso poderia muito bem me prostrar aos teus pés, agora mesmo, qual estrela cadente e render-te meu mais sincero e infantil louvor.

Tu e somente tu, és a verdadeira Deusa deste mundo. Abraça este teu filho mendigo e pródigo, em um aperto… Final.

E assim, não fosse pela Gravidade, qual destroço de navio naufragado, detrito humano e confuso, aborto do alto-mar, fornicador de polvos e tubarões, desgraçado sem uma maldita tábua de madeira em que me segurar, jamais voltaria, ou seria atirado, é verdade, à minha querida e odiada terra natal. Sossobrei naquelas paragens da qual, tempos atrás, fiz de tudo e ainda mais um pouco para fugir, sem olhar para trás. A punição não havia terminado. É mister esgotar a pena até seu derradeiro e empoeirado final. E nem mais havia a relva verde, a brisa gelada, os olhares desconfiados nas janelas rústicas de madeira. Acinzentaram-se minhas lembranças. Diz a sabedoria popular que os opostos se atraem. Porém, se o povo fosse sábio, não seriam apenas esses trapos e bêbados e sim, reis e poetas. Além do que, se conselho fosse bom, não se dava, vendia. A verdade é que pássaros da mesma plumagem voam juntos.

Contudo, você não é apenas o que você come. Você é mais. Você é seus atos e pensamentos, seus erros, sua culpa, arrependimentos. Palavras impensadas e abruptas que uma vez lançadas ao vento, não se podem apagar. Sonhos não realizados. Medo, hesitações e vergonhas. Preconceitos e gravidade. Você é tudo isso e mais.

E como elétrons circulando seus átomos, somos como que títeres gravitando um núcleo do mais puro pesadelo. Todas as suas ações se dirigem a um fim, prematuro. Sua vida é uma história. Teus amigos, pais, amantes, são os personagens deste drama ou comédia. Um certo toxicômano ousou desdizer que mundo é um teatro. E que a vida imita a arte. Contudo, o mundo é um circo.

E Você é o palhaço no comando. O espetáculo não pode parar. E é simplesmente por isso que seus pensamentos são tão coerentes com seus fracassos.

Maktub!

Pois se tudo está escrito, quando estiver moribundo e sobre seus estertores ler por linhas tortas a história de sua vida, saberá que é verdade, certo e muito verdadeiro que teu destino está traçado. Tão certo como um cálculo produz um resultado e um tiro o cadáver. E minha história arrojou-me de volta à terra estéril em que nasci. Lá e de volta outra vez. Minha infância, faria questão de esquecer, não fosse o ócio que me poupou o trabalho. E raramente, em meio aos meus afazeres com a Máquina, detinha-me para pensar naquele momento. Que me trouxe de volta. E quando começa a se formar a mais vaga, cuspida e tenebrosa ideia em minha mente anestesiada, o dever chamava-me, imperiosamente, de volta à realidade. Pois as necessidades e desesperos da Máquina eram enormes e prementes. Como os de mulher casta.

Era imperativo manter bem lubrificadas suas partes mais íntimas. Apalpar para não permitir nenhuma peça solta. O atrito gerava calor, que era deveras prejudicial ao sistema de freios e contrapesos. A Máquina devia, idealmente, manter-se fria. E distante. Raramente, portanto, podia desviar meus pensamentos para o que realmente fazia ali. Como chegara ali. O que haveria depois de ali. E ali, sempre ali: O velho maestro.

Seu nome era João, ou Pedro, ou Jerônimo… não importa. O que realmente importa é que operava a máquina com a mesma maestria e competência com que um virtuoso o seu instrumento, Don Juan o corpo das esposas infiéis e um cruel assassino a sua vítima. Às vezes imaginava que ele podia ler minha mente. E por mais que bastasse meu fundo, reverencial, profundo e canino respeito que lhe nutria por suas barbas brancas e cheias de graxa, evitava quando em sua presença, entregar-se às minhas obscuras e sacrílegas ruminações mentais, como que para não contaminá-lo. Pegava-me de quando em quando, despertando de meus devaneios acordados e robóticos, com o seu olhar cinzento, e ele me dizia: “Sabia que posso ler teus pensamentos?” Era de uma disposição severa e metódica. Mas seu entusiasmo, mormente quando me descrevia as curiosas operações e segredos da Máquina, deixavam entrever, que no fundo, bem no fundo, em meio à graxa e à fuligem, dentro de alguma gaveta esquecida, ocultava um bom coração. Velho e mofado, mas, ainda assim, em essência, um bom coração. Se as vezes me humilhava, acredito que o fazia para me ensinar. Do contrário… Desde a mais tenra idade, lembrava-me vagamente do maestro, em seu laboratório… Fascinava-me tanto que o esqueci.

E quando retornei, de longa viagem, disse-me, reconhecendo a mim: “A Máquina opera por gradações. Assim como um mais um somam dois. Esta alavanca” mostrou-a, solenemente, “efetua a troca de uma engrenagem maior por outra menor, veja, para aumentar o torque.” Os movimentos hipnóticos. “Você poderia muito bem imaginar um cavalo.” Tentava acompanhar seu raciocínio e os gestos de suas mãos, quando não encontrava nem o meu próprio.
“E pode imaginar ainda um chifre, longo e pontudo!” Eu concordava, absorto, enquanto ele operava a Máquina, que rangia, em uma cadência perfeita, e fumegava sonhos em meio ao pôr do sol. “Agora, una os dois, e Presto! Terá um unicórnio! Ou um elefante, rosa! É assim que a Máquina opera.” seus olhos brilhavam, envoltos em moldura escura, “De pouco em pouco, de operação em operação, chega-se a muito!” “De grão em grão, de passo em passo, de degrau em degrau, meu filho, poderemos realizar portentos!” espargia perdigotos “Iremos do possível ao improvável e do improvável ao impossível! Venha comigo!” estendeu-me a mão, suja de graxa, velha mas áspera e calejada. Suas palavras embeveciam como bom vinho. Há convites que não são convites. Por conseguinte, sequer pude recusá-lo.

Fui. Por muito tempo… Porém, como dizia, a humilhação é a melhor professora. Recompense com doces um aluno brilhante e ele logo esquecerá a lição. Dê-lhe um tapa no rosto que gravará em tintas vermelhas e quentes esta tabuada e a levará consigo ao túmulo, e além… Certa feita, indagou-me de onde achava que vinham as regras e leis que regiam o funcionamento perfeito da Máquina. A resposta veio clara e rápida como um relâmpago. O mecânico é como o escultor. Desnuda a Mãe Natureza, retira seus véus multicoloridos e perfumados, assim como o escultor desvenda a obra-prima na pedra. Por acaso, a Vênus de Milo já não se encontrava lá, oculta, fresca e safadinha, no bloco de mármore? Certamente o diamante lapidado esconde-se, lúbrico e brilhante, no minério tosco e opaco. A Verdade encontra-se na mais lodosa e imunda lama.

Qual a rosa mística e azul, na floresta mais selvagem que guarda os portões dos infernos. “Da Natureza!” orgulhei-me de minha esperteza. “Não!” bradou energicamente, fazendo tilintar o molho de chaves que carregava para fora dos bolsos e acrescentou:
“Aqui!” apontou com o dedo magro em riste para algum ponto misterioso e oriental em minha testa. “É daqui que vêm todas essas maravilhas!” bateu insistentemente em minha testa com seu dedo ressequido. Explicou-me, pacientemente, que ao entender a Máquina, na verdade, estávamos descobrindo o funcionamento da mente humana. O que gira não são as engrenagens, o que se combina e altera, são na verdade os próprios pensamentos do homem. A matéria é apenas o instrumento. Se não houvesse antes o homem para imaginar, manter-se-ia calada, fria e inerte, agrilhoada à pedra, qual Prometeu acorrentado. Antes de se materializar em maravilhas, é fantasia que se organiza e concretiza, qual peças de quebra-cabeça, encaixando-se perfeitamente, no gênio do homem.

***

Outra vez ainda, aplicava suas forças geriátricas e cronológicas em uma chave de rodas, para afrouxar um parafuso. Um dos suspensórios pendia, aberto, sobre as camisas amarrotadas e cheia de bolsos, cada qual carregado de uma constelação de atômicas engrenagens, peças e moleculares memórias. Vi que não chegava a lugar nenhum, enquanto que bufava e aplicava um lenço sujo de graxa na testa molhada de suor. Aproximei-me, para ajudá-lo, mas fui prontamente rechaçado por seu olhar benigno e desapontado. Baixei a cabeça, qual criança que fez algo de errado, e não sabe onde esconder as mãos e pus-me como fiel cão a seu lado, aguardando ordens. O silêncio, interrompido por breves e secos resmungos, e pelo cadenciado ranger da Máquina, era insuportável. De bom grado aceitaria uma punição, apenas para sair daquela incômoda inércia. Dez, vinte flexões, soldado. Poderia muito bem atirar-me ao chão e fazer. Mas a punição não vinha e era pior que a punição. Veio a lição. Finalmente soltou o parafuso e ergueu-o a minha frente, qual relíquia, e só não reluziu ao avermelhado e moribundo sol de final de tarde, pois não passava de um parafuso retorcido e enferrujado. “Suponha, meu filho.” – pigarreou – “Imagine que eu troque este parafuso enferrujado, por este outro” – escondeu as mãos por um instante mais breve que o mais fugidio piscar de olhos, nalgum daqueles inauditos e recônditos bolsos.

E mostrou-me um parafuso novo, em tudo idêntico ao anterior, que misteriosamente desparecera, em um passe de mágica. E pôs-se a colocá-lo em seu devido lugar na Máquina. Que pareceu por um momento respirar aliviada, assim que terminada a cirurgia e aplicada um pouco de graxa em suas infatigáveis partes íntimas. “O que me diz, meu filho?” – e abrindo os braços, mostrou-me orgulhoso a Máquina, como que querendo abraçá-la em toda sua infinitude – “Ainda é a mesma Máquina?” “Certamente” – respondi, mas a resposta já não era minha. Eu era apenas mais uma operação, mais uma reviravolta, mais uma correia, nas mãos do poderoso raciocínio do maestro e nada mais podia fazer do que seguir em frente, acompanhando-o, como o músico de uma orquestra, prestes a contorcer-se ao menor movimento da batuta. “Pois bem” – continuou, incrédulo – “Suponha então, que eu substitua esta corrente, por estoutra mais nova. E repare esta parte da lataria. E retifique as arestas destes pistões. Assim como estas engrenagens. Estes cabos… Esta manivela. E troque o forno.” – que flamejava imprecações – “Anote isso, meu filho.” – parou – “Ainda assim será a mesma Máquina?” Hesitei, pois qualquer resposta é errada, para aquele que não a compreende. “Claro, Maestro” – arrisquei. Ele perdeu-se por um instante, em seus pensamentos – “Suponha então, que eu troque todas as peças da Máquina.

Todas elas.

Desde a antena, até o poderoso e minúsculo coração da Máquina.” – e perdeu ainda outra vez o olhar, em algum lugar secreto e vibrante do aparelho. Ouvi apenas sua voz, pois ele já não estava mais lá: “Ainda assim, seria a mesma Máquina?” Pois bem, a Máquina consertada cumpriria as mesmas funções da antiga. E da forma como ele consertava a Máquina, sequer seria necessário… Um calafrio atravessou-me como faca a manteiga… Sequer seria necessário desligá-la. “Sim?” – mais perguntei do que respondi. “E se eu utilizasse as peças substituídas, para construir uma nova Máquina? Qual seria a original? Qual seria a verdadeira e única Máquina?”

Já não tinha mais resposta. “Se uma peça estivesse faltando. Ainda assim seria a mesma Máquina?” “Poderia não funcionar perfeitamente.” – fingi conhecimento, para não desapontá-lo ainda mais. Era terrível a dor que sentia ao desapontá-lo, era como que arrancar um pedaço das minhas próprias carnes, quando quem mais sofria devia ser o próprio Maestro – “seria uma Máquina defeituosa, por certo. Mas ainda assim, seria a nossa querida Máquina.” “Quantas peças teria que arrancar para que ela deixasse de ser a Máquina, e voltasse a ser só um amontoado de sucata?” “Por certo, quando parasse de funcionar” – foi meu palpite. “E por acaso, aqueles desaventurados, que a Velha Natura, cuspiu tortos e disformes do ventre de suas mães? Aqueles loucos que vemos perambulando pela Vila. E que as crianças atiram pedras, e torturam das mais variadas e criativas formas, como se a sua própria existência, dura e sem compreensão, já não fosse tortura o suficiente.

Certamente que não podem cumprir as mesmas funções que você.” – parou – “ou eu… Jamais poderão ter uma ideia, um vislumbre da maravilha, uma centelha sequer, do significado mais profundo da Máquina. Acaso não são eles homens também?” Silenciei. Pois tudo que dizia não passava de heresia e ofensa. Não fazia mais que atrapalhar minha lição. “E mais. Conheço esta Máquina como a palma de minha mão” – fez questão de mostrá-la – “Já estou meio cego e poderia consertar qualquer parte dela, de olhos bem fechados, na noite mais escura” – disse o relojoeiro cego – “Sei que agora, Ela rangerá e tremerá toda, pois é a hora da troca de marcha” – e naquele exato instante, a Máquina o fez, como que para obedecê-lo. “Você poderia muito bem, com uma marreta, feroz e furioso, desmontá-la toda. Fazer ruir toda essa magnífica construção, até não sobrar mais pedra sobre pedra.” – e seus olhos voltaram à vida e faiscaram – “Mas eu lhe juro, meu filho. Que não passaria nem uma semana, e poderia, de olhos fechados, construí-la toda uma vez mais. E outra. E mais outra. Onde está então a Máquina, meu filho? Pois mesmo que Ela não estivesse, ainda assim, seria Ela mesma.”

Ponderei o significado profundo de suas palavras. E ainda mais profundo de minha própria ignorância. O que é um buraco no chão?

Pensei. É, decerto, a ausência de chão. Mas como posso obter respostas, se minhas perguntas não fazem sentido? As respostas já estarão todas aí? Flutuando no vácuo. Aguardando ansiosamente as perguntas corretas? Mesmo que ninguém jamais descubra uma resposta. Isso fará que a resposta não exista? Ou estará ela lá, qual virgem em lua-de-mel, querendo sem nada querer. Esperançosa e desesperada. Aguardando o destemido, que com sua espada, rompa os obstáculos para a felicidade, ou o louco que seja capaz de perguntar aquilo que jamais fora perguntado? O que é o vazio? O que é a sombra? É a ausência de alguma coisa? Mas não poderia ser ao mesmo tempo, a ausência de toda e qualquer coisa? O que é a minha ignorância? É ela apenas a sombra, o vazio, o buraco, a fossa ignota e fétida, de alguma verdade suprema? Como a Máquina poderá me responder? Que estranha e esquecida língua preciso decifrar para ler seu livro. Sempre aberto, mas em branco? “Hora da ceia!” – despertou-me o Maestro, de mais esse pesadelo. Volta e meia. O velho Maestro desparecia nas brumas do vilarejo. Jamais perguntara para onde ele ia. Não sei se por vergonha ou apatia. Ou porque, na verdade, jamais o vira realmente sair do laboratório. Contentava-me saber que laboratório é a junção de duas palavras, explicou-me o velho certa vez. Laborar e oratório. Pois que o trabalho na Máquina era como que uma devota oração. E assim devia ser, repetitiva, constante, concentrada e, principalmente, sincera. Pois um erro muito pequeno podia por tudo a perder. Uma pequena chave de mão perdida nas engrenagens seria uma hecatombe.

E em meio as minhas orações para os deuses que moviam as partes da Máquina. Puxando alavancas. Girando rodinhas. Apertando botões, jamais vi o velho sair. Mas o certo é que ele voltaria, sempre. E trazia, de quando em vez, na calada da noite, ou naquele instante mágico entre a noite e o alvorecer, alguns sacos sujos de lona e estopa, com algo pesado mas mole dentro, que trazia com dificuldade nas corcundas, que também jamais tive a curiosidade de saber o que eram.

E raras vezes me pegava observando o velho terminando de alimentar a Máquina com seu conteúdo e ele olhando desconfiado para os lados, sem me ver, recolhia-se aos seus aposentos. E jamais consegui descobrir o que era. E envergonhava-me deveras perguntar. Pois assim, nada mais faria que mostrar minha ignorância frente a alguma obviedade qualquer. E os dias seguiam, como ponteiros de relógio.

Até que em meio aos meus pensamentos, a Máquina rugiu e trovejou e esbravejou e corcoveou e parecia que explodiria em mil pedaços. E pensei em alta voz, que maldição poderia alterar e aborrecer a Máquina de semelhante maneira? Se não… Mulher. Sentada nalguma reentrância no alto da Máquina, por sabe-se lá quanto tempo a me observar. Eu absorto em minhas ocupações. Minutos, horas, dias, anos? Ao perceber meu olhar congelado e idiota, ela riu-se, e espevitada, serpentou por algum cano que descia dos céus a terra, até o meu lado. Olhinhos vivos, verdes e inquisidores. De algum lugar de minhas memórias saiu E…, e quão cínica e trapaceira não é a Lembrança. E quão piedoso não é o Olvido. Pois que E…, que antes era apenas um dos garotos, que comigo corriam pela relva da infância, correndo de velhos vermelhos, gigantes e assustadores como o Maestro, quebrando vidraças e amarrando fitas e latas aos cachorros, com o vento a sorrir em nossos rostos. E fazendo todas aquelas felizes maldades que habitam os corações das crianças, e como que monstros puros e inocentes clamam por seu direito de libertar-se de suas prisões, feitas de grades de falsa moral, cadeados de culpa e arrependimentos, grilhões de castigos incompreendidos e lições esquecidas. Pois que a maldade sem remorso das crianças é simples, bela, inocente e pura. Livre de qualquer pecha de compreensão. Culpados somos nós que entendemos a maldade.

Culpada é a vítima que sente a dor e contamina-se com ela, tornando-se imunda, enquanto que a espada que a inflige continua brilhante, edênica, bela e ignorante. A ignorância talvez seja realmente a maior das bençãos. Pois somente aquele que entende a maldade pode senti-la em toda sua vergonha. Entender a maldade é como se ver nu, de repente, em meio à multidão. E… Agora de uma beleza ofensiva, sinuosa e impenitente, agredia-me os olhos com o pó do desejo e da cobiça. Jamais soubera, até aquele derradeiro instante, que na verdade era uma mulher. E ela dizia, entre outras coisas que não me interessavam: “Soube que voltou para a Vila e sequer vai visitar seus velhos amigos?” Mal sabia ela que sequer visitara minha própria família, tampouco algum deles veio me procurar. Se viessem, provavelmente não os reconheceria.

“Por que você voltou? Diga-me como é a cidade? Sabe o que eu daria para simplesmente ir embora como você?” – mordiscava uma maçã, menos vermelha e tentadora que os lábios que cuspiam essas palavras que nada significavam para mim. Comecei a fabricar alguma mentira, mas rápida ela me cortou com palavras que soaram como um tapa na cara. Ouvíamos o rumor operoso do Maestro, perdido nalgum lugar da Máquina: “Por que você está perdendo tempo aqui com aquele velho louco?”

***

Tentei impressioná-la, com o funcionamento da Máquina, de como ela podia muito bem jogar uma partida de xadrez, ou resolver um complicado problema matemático, bastava inserir aqui e ali, um rolo perfurado, que tocaria a mais bela sinfonia.

O velho Maestro assegurara-me que a Máquina podia muito bem falar e mostrar imagens, como se fora o olho de minha própria mente. Ela tudo via e ignorava com um olhar indiferente, mas penetrante, brincava, vez ou outra, desatenta, com as alavancas e botões. Suas saias deixavam entrever verdades obscuras, metamorfoseadas em pernas lépidas, faceiras e bem torneadas. Botava-me a língua fora.

E xingava-me com meus apelidos infantis. E tolerava-me, apenas por que queria algo de mim, que não conseguia compreender, mesmo que eu quisesse dela exatamente a mesma coisa. “Não vai me convidar para passear? Lembra-se de nossa árvore?” interrompeu impaciente minha fraca tentativa de convencê-la sabe-se lá do que com palavras. Não era eu o mesmo poeta que o velho Maestro. “Nossos nomes ainda estão lá”. Meu velho amigo Olvido! A memória é como um baixo-relevo tatuado na pele, esqueletos inertes e dançarinos gravados fundo na madeira, cadáver de Galatéa esculpido eternamente em mármore, prensa reproduzindo torturas eternizadas em forma alfabética. As lembranças felizes e aveludadas não deixam marcas profundas, pois são suaves como seu toque, etéreas como sua visagem, cálidas como teu hálito, enquanto que as tristes deixam profundas valas, como terremotos que rasgam a terra e espadas que cortam teus inimigos, fazendo correr rios… de sangue.

Decerto chegará o momento em que o acúmulo de lamentações, arrependimentos, ranger de dentes, angústias, oportunidades perdidas, desaforos engolidos silenciosamente tornar-se-á um fardo tão pesado, que não deixará outra válvula de escape senão a própria morte.

Somente para transformá-lo em mais uma dessas tristes e amargas lembranças. Se é verdade que no instante em que o homem está para transpor a porta última, vê toda a sua vida passar diante de seus olhos, verás a tua em preto e branco.

Decerto chegará o dia em que o próprio Universo há de curvar-se sob o peso acumulado dessas lembranças e esmagará a si mesmo, com a massa de mil titãs, até nada mais sobrar que um infinito buraco negro. Não fosse tu, Olvido! E é graças a ti, que não carrego em mim, a vergonha do que pode ter acontecido naqueles instantes mágicos e mentirosos.

E já que não posso lembrar, agrada-me deveras sonhar. Quantos dias passei em sua companhia E.? Um outono? Sorriso maroto. Uma semana? Hálito quente. Uma tarde? Pernas para o ar, gangorras pendendo dos galhos de nossa árvore. Pois eu não sei! Jamais saberei! Talvez jamais tenha aceitado o convite e deixei-te, toques carinhosos e insolentes, escoar por meus dedos, como areia ao vento, sorrindo, como um demente. Confissões sussurradas ao ouvido. Agradeço-te do fundo de meu coração, Pai Olvido, por mais esta benção, tão desinteressadamente concedida a este filho traidor.

Olhares furtivos. Alivia-me saber, ou não saber, pois isto é certamente um sinal de que nada de muito ruim ou humilhante deve ter acontecido. De outro modo, em vivas tintas havia de ser pintado o quadro estarrecedor. Prefiro o sonho a suas lágrimas. Salgadas e quentes. O cinza ao verde injetado de sangue, de teus olhos insatisfeitos. O cinza dos olhos do Maestro, que agora se tornava mais concreto e chumbo, enquanto minhas não lembranças de tempos agradabilíssimos desvaneciam nas baforadas de seu cachimbo. E a imperatividade da Máquina fazia-se presente, com seus sons sistemáticos, assimétricos e urgentes.

O Maestro apenas olhava, postado à soleira da porta. E tentei entrever alguma desaprovação. Mas ele não dizia nada. Apenas fitava-me a mim, ou quiçá a fumaça do seu cachimbo. E eu quase que lhe pedia, implorava, silenciosamente por um castigo paternal. Que jamais vinha. E seguia-se anoitecer e entardecer, sol e lua, transe e lucidez, até que, descendo de minhas ilusórias alturas, senti um frio nauseabundo na boca do estômago.

Quando dei conta de mim, não sei se atravessando a porta em direção ao laboratório, ou em direção a rua para envolver-me no ar fresco e sereno da noite sem estrelas, ou voltando de minhas eternas despedidas de E… Materializou-se e invadiu lenta e gradativamente minha consciência inebriada, o velho Maestro em vã agitação. Corria, ensandecido, aqui e acolá, alicates e chaves de variados tipos nas mãos, enquanto que a Máquina estertorava porcas e tossia parafusos. O rosto do velho desgrenhava-se em cabelos ralos e estúpidos, que ceifava aos tufos, e contorcia-se em perplexidades pálidas, enquanto com as mãos ébrias, balbuciava, a voz rouca: “Ajude-me! Meu filho! Onde estava? Acuda!”

Algo morreu em mim ao testemunhar o velho perder suas esperanças. O mundo podia desabar sob minha cabeça e estaria satisfeito. Mas era imperativo que o que dava sentido ao mundo não poderia ruir. Castelos de cartas, desmoronando ao vento. Fileiras de dominós deitando-se por terra e trazendo consigo seus vizinhos em desabalada carreira. Lêmingues saltando para o abismo. Corri, para lá e para cá, sem saber o que fazer. Segurava as alavancas que se moviam de um lado para outro, como náufrago tentando em vão chamar atenção da nave que se perde lentamente no horizonte, azul profundo, ondas gigantescas, estrelas girando. Quando se viravam para um lado, puxava-as para o outro, não sei se por despeito, hipocrisia ou solidariedade com o desespero do Maestro. Uma fumaça preta envolvia-nos e queimava os olhos. A Máquina rugia, um rugido lento e doloroso. Ecoando como o último suspiro do derradeiro mamute na imensidão branca e gelada. Súbito tremor no chão, que fez uma fina poeira desprender-se do teto. “Não! Não! Não! Não!” repetia o velho, na mesma velocidade em que se seguiam os desastres. Um após o outro. De uma intensidade tal que ameaçavam engolir o próprio mundo a nossa volta. A impotência de ver um ente querido cruzando os portais para o Limbo. Os olhos suplicantes pelo conforto que você não pode dar. A resoluta batalha perdida. O ataque suicida. Até que, enfim, cai de joelhos, exausto, para apreciar melhor a cena tétrica. O Velho Maestro desabotoou as camisas surradas, arregaçou as mangas, e abriu um pequeno compartimento, qual cofre, que se revelou em meio a fios faiscantes, arames retorcidos, engrenagens quebrando dente após dente. Puxou de lá de dentro como que um tubo, que terminava em um agulhão, e introduziu-o, de um só golpe, em seu braço. O precioso e vermelho líquido passou a subir pelo tubo em direção a qualquer parte ignota do Engenho, que contraditoriamente, pareceu acalmar-se, aos poucos. Como criança faminta que suga, ávida, os seios fartos de sua ama de leite. Não compreendi, então esforcei-me para chegar mais próximo do velho Maestro, como que para contemplar melhor o problema. Seus olhos fitavam os meus, sem nada dizer. Como se fosse clara como o dia a razão daquele enigma. A moral daquela fábula. E seus olhos apenas me fitavam, enquanto via-o empalidecer e esvair em lágrimas e poeira. E arrefecer-se, e curvar-se sob um peso invisível. E senti lágrimas ameaçando correr de meus olhos, e atar-se um fatal e cego nó de marinheiro em minha garganta.

Bastava. Era demais.

Movi minha mão para arrancar aquela nefasta engenhoca, que parasitava deliciosamente o velho. Mas a dele agarrou-me primeiro, firme, reprovando o gesto. “Há de estar preparado para o supremo sacrifício…” inspirou lentamente “Somente o amor pode prepará-lo.” sussurrou. E assim permanecemos por instantes breves e eternos até que se afrouxou a pressão em meus pulsos.

E arranquei-o de lá.

A Máquina resumira seu costumeiro e indiferente tique-taque, como se nada, simplesmente nada, houvera acontecido. Carreguei-o em meus braços e era leve, embora eu fosse fraco. Era tão leve que senti pena. Podia amassá-lo como folha de papel e atirá-lo ao vento. Mas pousei-o lentamente, sobre o amontoado de palha que chamava de cama. Em meio a um sono atormentado, febril e desperto, ainda desgarrou-se esta frase fugitiva de sua boca torta e de lábios finos: “Você sabe o que fazer, meu filho…”

Noite sem sonhos. Despertei, alvoroçado, de um grito profundo e silencioso. Ecoava por todo meu ser, que parecia oco e imenso. Vindo sabe-se lá de onde, recusava-se terminantemente a ir embora. O dia permanecia indiferente. Procurei pelo velho Maestro, em seus aposentos, e nada encontrei, senão o medo que rastejava como sombra, que se alonga ao entardecer, e olhava-me com o canto dos olhos um olhar cínico. Corri pelo vilarejo, qual espectro, e nada encontrei. Afastavam-se de mim os transeuntes. Como se fora eu um louco. O dia alongou-se em sombras e foi para aquele lugar para onde vão todos os dias que jamais retornam, mas o grito, inaudito, não se calou. Velho Maestro? Por que me abandonaste? O que faria agora? Como desvendaria os segredos da Máquina? Seria capaz de satisfazer sozinho os desejos intrínsecos, extrínsecos, transcendentais e imanentes da Máquina? Ponderei, só, em frente à Maravilha. Acaso tu, Maestro, ainda uma vez, ponderaste a mesma pergunta? E se eu o esquecesse? Seria como tornar a perdê-lo ainda outra vez. Ou pior, pois não saberia sequer o que perdi. E vi-me jazendo nos negros tempos em que o haveria de esquecê-lo. Será que havia mesmo conhecido o velho Maestro? Duvidaria de mim mesmo… Acaso ele era realmente como me lembrava dele? Os pequenos trejeitos, o jeito como seus olhos tão silentes se avivavam como que em chamas quando ministrava suas lições, ou quando, pensativo, fumava o cachimbo. Ou será que enxertei nele qualidades que não tinha e ignorei vícios que maculavam seu caráter? De onde viriam então tais qualidades, tais trejeitos dos quais ousava rir-me e fingia entender? Alguém pode realmente conhecer o outro? Acaso alguém pode ouvir os pensamentos do outro? E mesmo que pudesse, senti-los-ia da mesma forma? E se foram apenas imaginados, decerto viriam de ninguém mais além de mim mesmo. O velho seria apenas uma moldura, em que eu próprio, artista impenetrável, egoísta e arrogante, pintava um autorretrato. Era ele nada mais que o espelho que refletia meus próprios anseios e esperanças? Será que nutriu realmente algum sentimento por mim? Ou era apenas para ele mais uma de suas ferramentas e petrechos? Decerto todo o conhecimento só pode ser compreendido se já estiver no entendedor? Como a beleza e a pimenta nos olhos do observador. Pode-se realmente comunicar alguma coisa? Alguém já entendeu realmente o que você lhes disse? As imagens que meus olhos veem são somente minhas e de mais ninguém. Provavelmente você jamais enxergará as minhas cores como eu as vejo. Você pode imaginar aquilo que não sabe existir, ou que nunca ninguém lhe contou antes? Se essas virtudes que via e me quedava a contemplar nele, como devoto monge, provinham de meus próprios medos e desejos, quem era o Maestro?

E quem sou eu? Se posso imaginar o Maestro, decerto ele está dentro de mim? E não nalgum desconhecido e frio outro. Você me dizia tanto que eu já tinha as respostas. Mas resposta eu não tinha nenhuma. Possuía apenas justificativas e desculpas. E foi a mais negra e longa noite. Só. Inconsolável, a não ser por… Somente Tu, minha Máquina. Abracei-te. E senti o pulsar carinhoso que embalava o meu corpo, como mãe que carrega no colo o primeiro rebento. Desci minhas mãos por uma fenda, que acariciei docemente, porém, inseguro. Percorreu todo o meu corpo a energia poderosa, mas contida, que dançava em suas partes móveis e inquietas. E só então comecei a compreender. Abriam-se meus olhos. Assim como Tu te abrias, inteira, para mim e somente para mim. Duas comportas, escancararam-se convidativamente, vapores esgueiraram-se, quentes, por entre minhas pernas. Ajoelhei-me perante a profunda reentrância. Óleos reluziam nas paredes mais internas. Introduzi lentamente minha fronte em Teus segredos vaporosos, a qual se encaixava perfeitamente em Teus mistérios mecânicos, como se fora parte e peça de um esquema preexistente, primal e sábio.

Desvendavam-se um a um os sete véus. A Máquina não era apenas o instrumento do Homem, pois assim como o homem se servia da Máquina, esta também precisava e desejava o homem. Assim como o senhor necessita de seu escravo. Os povos de seus tiranos. As esposas esquecidas dos amantes. A pena da tinta. A doença e o parasita do enfermo. O caçador da presa. A existência da fome. E os jovens impudentes e impertinentes necessitam de velhos e empoeirados Maestros para subjugar os mundos. Qual! Que seria da Máquina sem as mãos capazes e hábeis dos maestros? Se agora, move-se em moto contínuo, independente e autossuficiente, foi o toque do Maestro que lhe deu o primeiro impulso. E certamente o Maestro não viria ao mundo, não houvesse a Máquina para construir suas cidades, moradas, refúgios e laboratórios. Em minha solícita invasão, encontrava uma certa resistência membranosa, composta de fios, canos e tubos maleáveis, que nada mais fazia que atiçar a minha… curiosidade. Pus-me a seguir o ritmo de seus pistões, como pulsar de mil corações, sedentos de sangue. Que de uma marcha lenta e ofegante, passaram a imprimir um ritmo cada vez mais acelerado. Uma pequena válvula desceu, tímida, neste momento, pouco acima de minha cabeça. Apus-lhe o mais casto de todos os beijos, que se converteu rapidamente em insolentes lambidas e perverteu-se em chupões e incandesceu-se em um brilho avermelhado e acalentou-se a misteriosa engenhoca, e tremeu toda a Máquina, fumegando perfumes. E empurrei com força minha cabeça em direção ao seu interior. Uma e duas e outra vez mais. Mais forte. E mais forte. Segurando-me firme em suas abas. Até que rompi o emaranhado, e batizou-me as faces uma descarga viscosa e quente e a Máquina entregou-se inteiramente a mim e recebeu-me por inteiro em sua cavernosa e operosa intimidade. E encaixei-me perfeitamente em suas engrenagens, rolos, esteiras e foles. Tragou-me a escuridão, salpicada aqui e ali por misteriosas luzinhas. E já não sabia onde começava a Máquina e terminava o homem. E maravilhei-me com a imensidade da Máquina, que minha ingênua concepção antes fazia ir dos altos tetos do laboratório, e das antenas nos últimos andares, até os recônditos e úmidos porões, que agora via, eram menos que a ponta do iceberg. E perdia completamente o senso de direção, e já não sabia mais se estava sendo engolido ou alçado às alturas. Assim como perdia o ar, que nestes espaços apertados e escuros, faltava-me e se rarefazia e entorpecia minhas ideias torpes.

E a Máquina tomava a mim, como eu a havia tomado. E introduzia-me metálicas e dolorosas intervenções. Realizava cirúrgicas e ginecológicas apropriações, dominações e correções. E pensei que a Máquina poderia muito bem em um futuro mais ou menos próximo suprir todas as necessidades da mulher e tornar obsoleto e arcaico o homem. E que o homem não era suficientemente equipado para prover as necessidades de carinho, afeto e segurança das mulheres mais puras. E transmitia através de meu corpo alquebrado o movimento e o calor necessários para que este percorresse as demais unidades da Máquina que daqueles necessitavam para seu correto e fatídico
funcionamento.

E estava prestes a desfalecer em asfixiado e profundo gozo, quando a Máquina piedosamente proveu minhas necessidades e forneceu-me o ar que precisava para respirar, assim como ela precisava do espaço entre seus mecanismos para girar e alavancar maravilhas, ideias e ideais. Nada mais que o suficiente. E uma claridade começou, carinhosamente a invadir-me e penetrar-me os olhos, e pude ver que realmente, a Máquina era alimentada pelos fogos e caldeirões dos Infernos. E a labiríntica e colossal estrutura da Máquina estendia-se até onde a vista recusava-se, mendaz ou amedrontada, a alcançar. E nos seus espaços vazios, mas precisos, uniformes e politicamente corretos, via cadáveres e partes humanas, que como eu, cumpriam sua função de peça da Máquina, olhos costurados para não ver e animados por aquele misterioso fluído de Alexandre Volta. Por aquele magnetismo animal, que enrijece e contrai pernas arrancadas de sapos e dinamiza o roçar dos corpos de jovens afoitos em clímax elétrico. Escravos elétricos e tétricos do prazer.

Dependentes químicos do entorpecente magnético e hipnótico. Braços que puxavam alavancas. Rotores feitos de ossos. Pernas que corriam em esteiras. Crânios engolindo correntes e vomitando cadáveres de criança. E cadáveres de poeta que rabiscavam textos absurdos. Afinal, o vazio que permite o movimento da Máquina faz parte da própria Máquina? Sem o ajuste perfeito e erótico das distâncias matemáticas, não se desenvolveria a moção, intercruzamento e a remoção de suas partes. Seria tudo tão inerte e morto como a cinza e o pó.

O próprio ar que permite o deslocamento das peças deve ser levado em consideração para o funcionamento da Máquina. A Máquina então estende-se além de seus aparentes e ocultos limites. A Máquina é ilimitada e sem fronteiras, como a imaginação que a projeta e desenha e as leis naturais e as operações matemáticas que as governam. E o homem é prótese da Máquina. Assim como a Máquina é a metástase do homem. E um está dentro do outro. Homens são máquinas e robôs. E as máquinas extrapolam e elevam o que há de mais humano nos homens, para alcançar o que a eles é inatingível e proibido. E o Maestro que projetou a Máquina faz parte da Máquina? Como pode o todo estar dentro da parcela? Não foram suas mãos calejadas e velhas que lhe deram o empurrão primeiro? Não lhe deu corda? Acendeu-lhe a primeira centelha? Sem o Maestro a Máquina permaneceria pesada e triste. Não era ele então, mesmo que apenas por um instante a primeira peça do mecanismo? A chave mestra que destrancou seus segredos? A mãe que lhe pariu e ensinou a andar? Pois em verdade vos digo que a Máquina é a verdadeira filha do Homem. Assim como – quão apropriado – o cão é seu único amigo. Podia ver claramente agora. Todos os homens, todas as mulheres, velhos, crianças e dementes são partes do mecanismo da Máquina.

Assim como a Máquina está no âmago e imago dos homens. São as letras que se conjugam em frases, e tecem-se em textos e rasgam e queimam seus pergaminhos em contextos, e fazem-se significado e sentido e combustível e inquisições. Engrenam-se em peças, nos nexos e parafusos que prendem, consomem-se em combustível, em explosão que empurra, ligam-se em elos e nas estrelas que orbitam, e dançam na vasta imensidão do Nada à música das Esferas, que nada mais são que partes ínfimas da Máquina.

O conceito do motor é simples, ensinou-me o Maestro certa feita. Motor é aquilo que move. O que gera movimento. Assim como emoção. Formada do prefixo “e” e da raiz “moção”. Que é a comoção interna e o combustível que move os homens para suas vãs e estúpidas pretensões e seus finais frívolos e fúteis. E soube que os teus desejos mais profundos, tuas vergonhas mais secretas, teus medos mais bizarros, não são verdadeiramente teus, são roubados ou deitados goela abaixo, qual ouro derretido e fervente. Porque antes de ser sonho, missão e teu principal objetivo na vida, foi maldição e sentença na boca de teus pais, e foi sugestão estúpida e impensada de um teu amigo já esquecido, e foi verso e plágio e metáfora nas penas do hábil poeta, e foi ás na manga de teu oponente, e foi cobrança de teus amantes, e foi desdém no olhar de teus amores, platônicos, e será benção nas palavras dos teus inimigos. E propriedade deles também não eram, pois também beberam esse veneno nas fontes de teus antepassados e desafetos históricos e tradições orais e costumes de época e inimigos mortais e tabus, assim como você somente é por uma provocação lúbrica, desejo inconfesso e momento de fraqueza de tua avó e pedra no sapato de alguém, e volvem nos tempos imemoriais e mitológicos, até chegar à ideia primeira que ensandeceu o mais genial de todos os fraudadores. São correias que te puxam. E engrenagens que te giram. E grilhões que te acorrentam. E forcas que te enforcam. E iscas que te fisgam. São palavras que te comandam, como exorcismos que expulsam demônios, e tu és apenas um robô, e essas palavras antigas correm em teu próprio sangue, e determinam os teus passos cambaleantes e as feições de teu rosto e a cor de teus olhos, e os de teus filhos. Sê bem-vindo à Máquina. Tu és peça e programa. Tudo o que faz e procrastina já está escrito e bem planejado. Tu és escravo de tudo e de todos. Cegos conduzindo cegos, para abismos de dominação e dependência infinita, de causas e efeitos sem fim. O fim último da matéria é ser instrumento e objeto. No mais íntimo do teu ser, há a condição necessária de ser escravo e peça. Até a tua negação obstinada, preconceituosa e louca já estava muito bem prevista por este oráculo ancestral de matemáticas equações.

Tu és o resto e o produto desta eterna divisão de alegrias, soma de dores, multiplicação de comandos e conversações fúteis e espernear em vão. Tu somente existe para atingir alguns resultados e produtos pré-traçados e fabricar fezes inúteis, cujos germes contém mais sabedoria e comandos que a tua melhor criação, tu és assim como o pistão que produzia a pressão que me tragava cada vez mais para dentro das entranhas da Máquina. Braços bem abertos, orbitava o coração da Máquina, e estava prestes a ver o motor imóvel que gerou o movimento primeiro. O sopro inicial, que qual reação em cadeia, animou todo o interminável jogo sem vencedores. O verbo primeiro que havia no início desta História sem fim. E qual! Não havia nada ali para meus olhos, a não ser o vazio e o vácuo! E tentei tocá-lo, com minhas mãos insolentes, quando fortes e duras tenazes trituraram a seguinte palavra em minhas palmas: “NÃO” Minha impertinência rapidamente converteu-se em queda, pois há segredos cuja descoberta somente pode resultar em precoce frustração, ejaculação e pânico louco, como a do traído que descobre a traição e assim, num passe de mágica, de peça passei a parafuso a menos, e rodopiaram a minha volta, um turbilhão de sucata, dejetos, desejos e restos humanos, deslizando em um mar de agulhas e fetos malformados, até escancarar-se em trêmula e violenta cloaca. Abandonado pelo Maestro e devidamente processado, reprimido, ejetado, repelido, rejeitado, expelido e defecado pela Máquina.

Não!

Eu queria voltar. Precisava voltar! Quão insuportável era perder sua função na Máquina, e ver-se sem utilidade, sem propósito, samurai sem honra, sem uma causa para defender, sem um caminho para trilhar, sem finalidade e destino. Quão terrível, deserto e cruel era o arbítrio livre de causas e concausas, suficientes e necessárias, da Máquina. Arbítrio livre e sem propósito. Eu necessitava ser uma peça, mesmo acreditando ser um homem. O engano é uma das funções da Máquina, sem a qual suas partes escravas não podem operar devidamente. Dançarino no eterno baile de máscaras de Maia.

E quando se evaporaram as lágrimas e escorreu o sangue, vi-me no maior e mais ciclópico salão que poderia conceber a imaginação. Um daqueles lugares que transcendiam as mais alucinadas e euclidianas geometrias, e nos quais a curva era o trajeto mais curto entre dois pontos infinitamente distantes. E mal podia conter em mim todo aquele espaço, que me ultrapassava exponencialmente. Assim como os olhos, embora minúsculos, ao contemplar a noite infinita, podem abarcar galáxias e constelações de galáxias, num golpe de vista e perigam explodir.

E estava adornada tão somente por uma densa treva e ao fundo, por dois dos maiores vitrais, circulares, que poderiam haver. Os quais, pareciam aleatoriamente fechar-se de quando em quando, por misteriosas cortinas, mergulhando tudo, absolutamente tudo, inclusive o mais íntimo do meu ser e ameaçando afogá-los em profunda escuridão. Perdeu-se aqui o Maestro? Cambaleei e tropecei pelos longos e intermináveis tapetes vermelhos, fugindo em direção oposta aos enormes vitrais circulares. No entanto, sempre que olhava para trás estava mais e mais próximo deles. Ao meu derredor, qual vaga-lumes fantasmagóricos, luzes piscavam alegremente, giravam e apagavam-se em cores jamais vistas, somente para fazer cócegas e divertir a densa escuridão. Luzes como aquelas de pancada forte e insuspeita na cabeça.

E tive a impressão de que meu próprio corpo, saia e retomava o foco, com o reluzir dos misteriosos fogos-fátuos. Como pintura borrada e esfumada do artista que perde lentamente a visão. Um zunido fraco, surdo, mas insistente penetrava-me até os ossos. Até que contraditoriamente cheguei aonde jamais desejara estar e tornei-me irrelevante, reduzi-me e humilhei-me minúsculo como germe em frente aos vidros titânicos. Manchei de sangue o cristal transparente ao nele me apoiar para não cair na imensidão, enquanto ofegava como cão. E lá fora havia como que um fundo imenso e branco, no qual se grafavam algumas letras. Era um imenso livro, escrito de gigantes e Gargântuas.

E antes de cair na inconsciência, pude ver que dizia o seguinte: “Gravidade. De olhos bem fechados. Tente não se lembrar de como é estar à beira do precipício. Nos altos castelos, nas torres de Babel, no cume das montanhas que nem mesmo a fé pode remover. Nos altos arranha céus, a dez, vinte, trinta, mil andares de altura.

De suas sacadas rarefeitas e prostitutas, com os olhos da mente, tente não olhar para baixo e ver a multidão que se agita sem rumo. Esqueça a brisa a beijar-lhe as faces. Ignore o céu, inatingível e azul. Não se abandone ao giro infinito e vertiginoso. Refreie o mergulho no sonho sem fim. Finja que não sentiu o frio toque nas entranhas.

Sorria o sorriso cínico dos enforcados! Respire fundo e ouça o seu sussurrar sedutor:

O suave chamado do…”