Investigação

22-08-2018 Por Sarkhano Mallamuerte

25 de dezembro de 1959.

O Ford preto estacionou naquela noite ordinariamente fria de Engell Falls, na ruela em frente à ordinária casa da Srta. Etrànge. Alguns rostos curiosos espiavam de pequenas e embaçadas janelas, quiçá, felizes, mas escondendo essa sensação sob uma pálida máscara de respeito, por não serem eles. J. Rodríguez, investigador policial, não queria sair do carro. Na verdade, não queria pisar novamente neste chão, nunca mais. E ponderou, enquanto um cigarro apagado pendia num dos cantos de sua boca, acerca das propriedades magnéticas que este fim de mundo exercia sobre sua vida. Nascera aqui, e imaginava que daqui jamais sairia, quando aparentemente a sorte lhe sorriu e conseguiu uma vaga para estudar na Universidade Comunitária de Helmouth. Era apenas um sorriso cínico, eis que, a falta de um departamento policial em Engell Falls, exigia que os únicos funcionários disponíveis num raio de 200 km, atendessem todas as ocorrências que o “xerife” local – duvidava dessa designação – não possuísse recursos e pessoal para atender. Em outras palavras, tudo que fosse mais complexo do que tirar o gato da Sra. Juju do telhado. E esse único funcionário era ele, que pelo menos duas vezes por semana, tinha que trilhar aquele serpenteante, confuso e redundante trajeto da cidade vizinha até as Quedas… Muitos diziam que era possível ouvir um zumbido constante em Engell Falls, uma pressão no ar, capaz de enlouquecer os mais sensíveis. Ele não podia escutá-lo, mas certamente, bastava respirar o ar daqui para sentir dores de cabeça. Talvez Engell Falls estivesse posicionada como a tampa de uma enorme caldeira, prestes a explodir e levar tudo pelos ares… Nesse caso, choveria bosta e sangue pelo mundo por anos e décadas. Ajeitou o chapéu fedora na cabeça, abriu a porta, tentou acender o cigarro, mas o isqueiro produziu apenas lúgubres faíscas, no que foi seguido por… não se lembrava o nome dele, o fotógrafo. Gostava dele, pois não era saliente, homem baixo, de poucas palavras, mas que cumpria sua função, e pelo motorista, de cabelos loiros, sujos e encaracolados, Martin, aspirante, cheio de vontade, sempre pronto a ajudar, quando ninguém queria sua ajuda. Podia ver a ansiedade em seus olhos. Dirigiu-se à porta aberta. Supostamente uma amiga da velha Srta. Étrange encontrara o corpo e desmaiara, sendo que então outra velha amiga encontrara as outras duas… Puxou o bloquinho de notas, que com certeza manteria em branco, como sempre. Resolver crimes era fácil. Com ênfase no verbo resolver. Não se deve cogitar em procurar causas ou motivos e sim, solucionar a questão. O crime não prejudica tanto assim o morto, mas causa muita comoção, desmaios, dor e sofrimento. E simplesmente apontar um criminoso, às vezes, não resolve essas pequenas ondas que se propagam por uma pedra atirada num lago calmo e escuro. O corredor era apertado e claustrofóbico. Srta. Étrange era aparentemente uma acumuladora, lixo, livros, comida, roupas se amontoavam nos cantos. Parecia um labirinto, penumbral, até que adentrou o quarto. Não havia sinais de luta, a não ser alguns objetos espalhados no chão, talvez pelo desfalecimento da amiga. O corpo suspenso pela forca, os olhos vidrados, a cabeça deformada pelo acúmulo de sangue, baloiçando por um vento que não se sabia por onde entrava. Os olhos de Martin encheram-se da cena, que o fotógrafo, clinicamente, registrou com seus flashes cheios de fumaça. Não passaram-se 30 segundos, suspirou aliviado e exclamou: suicídio. Caso resolvido. Voltemos para casa. Sentiu uma certa inquietude em Martin, que a reprimiu como um bom cachorro. O fotógrafo sem dar palavra, deu meia volta e retirou-se. Gostava desse homem, qual era mesmo o nome dele? Começava com K… Martin ainda deixou seu olhar alongar-se com as sombras e quando se viu sozinho, correu para fora. No umbral, o “xerife” esperava por J. Rodrigues. Ao vê-lo, arregalou os pequenos olhos, cansados, de septuagenário, e pigarreou: “Olá Jeronimo”. Quem lhe dera intimidade para trata-lo pelo primeiro nome? Sua mãe dizia que eram parentes… “Olá, Martinez”, respondeu. “Suicídio?” o velho perguntou. “Suicídio”, respondeu. “Podem enterrar o corpo” completou. Fez um pequeno aceno com a cabeça e dirigiu-se ao carro. Ainda antes de entrar o velho rouquejou “Feliz natal, Jeronimo. Gosto de como você resolve as coisas. Você é um bom garoto”. “Feliz…” não conseguiu completar a frase. Procurou fundo em sua mente se o sentimento era recíproco. Antes de Martin dar a partida, ainda disse: “Permissão para falar concedida, Martin”. Este sussurrou “Mas chefe, as coisas não batem… Por que…” Ele não precisava completar. É claro que nada “batia” em Engell Falls. Nada. Se fossem procurar mais fundo, veriam que tudo estava profundamente errado, em um nível elementar. Nada fazia sentido aqui. E talvez fosse melhor assim. “Morte por suspensão reversa” respondeu à pergunta que não fora terminada. Sim. Foi um suicídio, não mentira, não era do seu feitio. Aquilo realmente era um suicídio. “Srta. Etrange era obesa, provavelmente estava suspensa de cabeça para baixo há dias. Ela se jogou do alçapão do sótão. Não tinha forças para desatar a forca de sua perna. Morreu asfixiada lentamente, seus pulmões não suportaram o próprio peso. Vamos embora”. A verdade te destruirá, aquele velho livro devia ser atualizado para estes novos tempos, embora o tempo parecesse ter estagnado e se corrompido em Engell Falls.

Em verdade vos digo: a simpática Srta. Etrange havia se suicidado. Caso fechado. O luto se encarregaria do resto. O que ninguém precisava saber, bem o sabia J. Rodriguez, era QUEM havia levado a Srta. Etrange a fazê-lo e porquê. Porque daquele modo. E foi-se embora mais uma vez sem acender seu cigarro.

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