CONVERSAÇÕES FÚTEIS

“Decifra-me ou te devoro”

I

 

Ao longe, em meio à névoa, um vulto aproxima-se. Gritos:

S.: -Quem vem lá?

Vulto: -Ninguém mais que um amigo.

S.: -Amigo? Então diga-me, por favor: onde estamos?

Vulto: -E não sabes? Olha em volta de si. Estamos em um daqueles lugares de pesadelo. Escondido em meio a um labirinto de cubículos e becos sem saída, esmagados por alguma pressão misteriosa e sufocante. Veja: as fendas nas paredes transpiram perversidade, angústia e corrupção. É um daqueles lugares que todos sabem existir, contudo não querem saber aonde estão. – ênfase na voz rouca: – E os poucos condenados que por aqui jazem, já não possuem nome, nem honra, nem família; e apenas o Esquecimento lhes faz companhia.

S.: -Muito poético. Mas acho que estou perdido… E que faz o amigo aqui?

Vulto: -Estou a tua procura.

S.: -Procurando-me? Acaso me conhece? Não me lembro de tê-lo visto antes.

Vulto: -Isso não importa, filho. É muita sorte que o tenha encontrado.

S.: -Ao menos posso saber o porquê?

Vulto: -Justamente por isso! Venho dizer-lhe tudo o que precisa saber. Sou velho nestes caminhos, tenho muita experiência. Bem, podemos dizer que sou a luz que iluminará o teu caminho. Mas espere, vejo que traz consigo um amigo.

S.: -Realmente… Pode-se dizer que é o meu melhor amigo. Meu alter ego.

Vulto: -E por que o carrega? Está desmaiado?

S.: -Está. Quero dizer… Está assim a muito tempo.

Vulto: -Que pena. A quanto tempo?

S.: -Não me lembro.

Vulto: -Posso fazer uma pergunta, digamos, mais pessoal?

S.: -Como quiser.

Vulto: -Acaso te lembras quem és?

Estendendo a mão:

S.: -Ah! Deixe-me apresentar. Eu sou S…

Interrompendo, toca-lhe o ombro:

Vulto: -Não. Não é necessário, filho. Não te conhecerei melhor apenas por saber o teu nome. E já o conheço o suficiente. Talvez, a primeira coisa que deves aprender é que nomes não mais serão úteis como eram antigamente.

S.: -Então, como deverei tratá-lo?

Vulto: -Chame-me simplesmente de Guia, se assim desejar. Isto explica muito mais do que um mero nome.

S.: -Mesmo assim, parece-me estranho. Pode até mesmo ser inútil para o senhor, mas não pode dizê-lo?

Guia: -Talvez dissesse, porém não digo, pois já não mais me lembro dele. Com o tempo, as memórias pesam demais, por isso, devemos deixá-las para trás para sermos livres. Ademais, nomes servem apenas para confundir, raramente correspondem às coisas que os carregam.

S.: -Não se lembra dele? Como pode? Acaso não tem, ou teve, família?

Guia: -O que acha que está fazendo aqui?

S.: -Já disse, estou perdido. Ou melhor, diga-me você, afinal, não é o meu guia?

Guia: -E guia eu sou, e não uma enciclopédia. Estou aqui para te guiar, não para te carregar. Além de que, no íntimo, sabes bem a resposta para esta pergunta. Vamos filho, faze um esforço.

Após reflexão:

S.: -Não posso. Não lembro. Outro dia estava em casa, depois, um espelho. Depois, um velório, o vazio, a dor… E agora, estou aqui, perdido.

Guia: -Tente mais uma vez.

S.: -É inútil, não consigo.

Guia: -Ou talvez, não queira conseguir.

S.: -Como assim? O que eu mais quero é voltar. Sair deste inferno. Pode me ajudar nisto?

Guia: -Vamos mudar de assunto. Quem sabe ainda não estejas preparado para esta lição. Estás pálido, sentes-te bem?

S.: -Estou cansado. Tenho fome, muita fome. Parece que não como há dias.

Guia: -Fome? Tens certeza?

S.: -Pare! Por que faz esse tipo de pergunta? Acaso não tenho certeza de que rói-me as entranhas o vazio da fome? Diz ser meu guia, entretanto, parece que diverte-se com minha confusão. E faz de tudo para confundir-me ainda mais.

Guia: -Calma, estou apenas testando até onde chegam teus conhecimentos acerca da tua atual condição. É mesmo muita sorte que tenhas me encontrado. A muitos não é permitida tal graça. Eu por exemplo, a tudo tive que descobrir sozinho.

S.: -E o que descobriu, por exemplo?

Guia: -Fome? Para que complicar as coisas? Tu te apegas demais as complexidades e redundâncias de sua vida anterior. Estás apegado demais às coisas materiais. Fome? Eu digo que o que sentes é dor e apenas dor.

S.: -Dor?

Guia: -Nada mais óbvio. Que é a fome senão a dor em mais uma de suas infinitas variações? Assim como as cores do arco-íris nada mais são do que luz? Nada mais é do que a ausência de algo. O vazio. A falta do prazer.

S.: -Talvez… Mas não resolve o meu problema.

Guia: -Tome, bebe isto.

Bebe alguns goles.

S.: -Tem sabor de… um vago sabor de paz. Que é isto? Ambrósia? O néctar dos deuses? Quase esqueci-me da fome, quero dizer, da dor… Tem gosto de esquecimento.

Guia: -É apenas a bebida barata dos mortais.

S.: -Preciso de mais. A dor está voltando.

Guia: -Não adianta. Logo verás que é efêmero. Daqui a algum tempo precisarás de mais e mais. E nem um tonel te bastará.

S.: -E por que isso? Por que sinto dor? Não é justo.

Guia: -Nada mais justo. A dor é apenas o sopro da Morte. Não consegues sentir a proximidade dela?

S.: -Dela?

Guia: -E de quem mais? Diante de quem mais todas as coisas se curvam? Até mesmo os deuses respeitam a majestade dela.

S.: -Realmente, tudo está tão cinzento, tão opaco. As cores somem por aqui.

Estendendo uma flor:

Guia: Sente o aroma.

S.: – É muito fraco. Apenas uma memória apagada, e não um odor.

Guia: -De que se trata?

S.: -É uma rosa. Uma rosa cinzenta e murcha.

Guia: -Acabou de ser colhida.

S.: -Aonde quer chegar com teus enigmas?

Guia: -E não percebe? Não é o mundo quem mudou, e sim você.

S.: -Não entendo.

Guia: -Vês o mundo em novas cores porque o vês através dos olhos de um morto. Apaga-se o espectro de cores vibrantes e quentes da vida, e abre-se aquarela pastel e fria da morte.

S.: -Está dizendo que…

Guia: -Estou dizendo que estás tão morto quanto este cadáver que carregas.

S.: -Está dizendo que…

Guia: – Estou dizendo que estás tão morto quanto este cadáver que carregas.

S.: -Impossível! Mentiras, loucura! Veja: falo, respiro, penso. Vivo!

Guia: -E quem disse que não faz? Estás muito apegado às idéias mortais. Apenas para eles morte e imobilidade se confundem. Se o vissem agora, nem suspeitariam que não mais vive.

S.: -Palavras. Por que devo confiar em você?

Guia: -E quem mais tens para confiar? No cadáver? Não confias nem em ti mesmo. Olhe para o rosto do teu “amigo”. Olhe bem.

S.: -…

Guia: -Percebes? É o teu próprio rosto. Como podes negar isto?

S.: -Sou eu!

Guia: -Apenas a tua casca mortal. Nem sei como está com ela.

S.: -Não pode ser… Quer dizer que é isto o que acontece com todos?

Guia: -Na realidade não. Depende muito de diversos fatores. Como dizem os sábios, a morte é algo muito íntimo e pessoal. Cada um recebe a sua merecida punição, e alguns, sua recompensa, ou ambas.

S.: -E você? Você é igual a mim, não?

Guia: -Não há porque negar, filho. Sou.

S.: -E onde está teu corpo?

Guia: -És muito ligado ao mundo material. Esquece tua vida. Não é mais daquele mundo. Liberta-te.

S.: -Responda-me. Que aconteceu a seu corpo?

Guia: -Tornou ao pó. Do mesmo modo que o teu tornará. E a coisas ainda mais terríveis antes.

Confusão. Desespero. Irritação. Choro:

Guia: -Calma. Calma. Nem tudo é miséria na morte.

S.: -E a dor?

Guia: -Tentes não me lembrar dela. O Tempo dará um jeito. Como sempre.

S.: -Quer dizer que vai passar?

Guia: -Não filho. Isso não. De fato, piorará cada dia mais um pouco. Assim, como agora enxergas apenas em tons de cinza, passarás a ver apenas em preto e branco, e tão logo distinguirás apenas vultos.

Pausa. Continua:

Guia: -O cheiro das coisas passará de mofo a umidade. Os fracos sons em sussurros.

S.: -Mas por quê?

Guia: -A dor é a lei universal e absoluta. Nesse sacramento comungam todos os seres. Nada há no mundo o que não sinta dor. É através dela que nos tornamos todos irmãos. Vivos ou mortos.

S.: -Não pode ser.

Guia: -Desde o início é assim. Não nos cabe contestar. No princípio, era o Verbo, e o Verbo era “Dor”.

S.: -Tem de haver uma explicação. Não é meu guia? Então, explique-me.

Guia: -Sou guia e apenas guia. Não criei nada disto. Mostro apenas, e mostro o mais importante. Não percas seu tempo procurando teorias fúteis, isto é uma tarefa para os mortais. A única explicação necessária é a que sente na pele, nas entranhas. A única lei é a Dor.

Tempo.

Guia: -Bem. Vou-me embora.

S.: -Mas como?

Guia: -Minha missão está terminada. Sabe tudo o que precisa saber.

S.: -Mas não ensinou-me nada!

Guia: -E nada é muito mais do que o suficiente. Sabes muito mais do que eu soube quando me tornei como tu.

S.: -E que faço agora?

Reflexão. Em tom paternal:

Guia: -Gostei de você. Vou dizer-lhe então minhas palavras de amigo, e não mais de mero guia. Acompanhas-me?

S.: -Até onde quiser.

Guia: -Não será preciso ir muito longe.

 

***

 

Guia: -Que vê, filho?

S.: -Ruas.

Guia: -Não. Não é apenas isso. Vou dizer-lhe o que eu vejo: daqui até onde se perde a vista se estende o sombrio tapete da humanidade. Nestes caminhos tortos, Deus escreve suas comédias. Até o horizonte onde Gaia – nossa mãe Terra – beija Urano – o Firmamento.

Pausa:

Guia: -Mas como disse aquele Italiano, todos sabemos que Gaia é tão redonda quanto a pálida Lua. E não importa o quanto se ande e o quanto se perca por estes caminhos, jamais veremos o beijo que o horizonte nos promete.

S.: -É certo. Mas ainda não sei o que fazer.

Guia: -Oras. Tudo o que tens a fazer é vagar. Perder-se nestes caminhos. Afinal, que fazem os mortos senão vagar por aquela estranha estrada, entre um passado vago e um futuro incerto?

S.: -Fala de um modo estranho.

Guia: -É a língua dos mortos. Desde Babel, os vivos não mais te compreendem. Carpe necro. Aproveite a morte. Adeus.

Desaparece.

Pensamentos:

IMAGINAÇÃO? LOUCURA? VERDADES?

Perde-se nos caminhos…

 

II

 

Insaciável. S. procura algo em meio ao lixo.

As suas costas, um jovem:

Jovem: -Senhor.

S.: -…

Jovem: -Senhor!

S.: -…

Grito:

Jovem: -Senhor!

Voltando-se:

S.: -Sim?

Jovem: -Não é mais preciso procurar. Sei o que tanto procura.

S.: -O quê? Fale mais alto, filho. Sou um pouco surdo.

Gritos:

Jovem: -Disse que já não precisa mais procurar. Tenho aqui o que precisa.

S.: -Comida?

Jovem: -Não é apenas comida o que procura.

S.: -Ah! Não é? Então diga-me, que procuro?

Jovem: -Digo. O que tanto procura em meio aos sacos de lixo, é aquilo que todos procuram. E o que todos procuram é a Felicidade.

Reflexão. Pensamentos:

FAZ SENTIDO.

S.: -Continue, meu jovem.

Jovem: -Procura. E procurou sempre. Entretanto, nunca desejou algo tão ardentemente, tão apaixonadamente, que todas as outras coisas pareciam perder seu valor? Dirigiu seus pensamentos para uma coisa dias e noites. E no fim, quando finalmente, após muitos esforços conseguiu tal coisa, veio aquele sentimento de que não era exatamente o que queria. Passou-se algum pequeno espaço de tempo e logo o objeto perdeu todas suas graças, tornou-se aborrecido, e logo esqueceu-se dele?

S.: -A isto chamamos Saciedade, filho.

Jovem: -E o que conclui disso?

S.: -Que esta nossa amiga a Felicidade é muito arisca. Vive a se esconder de nós. E basta conseguirmos segurá-las por alguns poucos instantes em nossas mãos, e ela já foge novamente. Escorre como água. Deixando-nos apenas a Saciedade, e esta por fim, a velha companheira, a Dor.

Jovem: -Pois não tema. Trago as respostas. E com certeza não será nestes sacos de lixo que iria encontrá-la.

S.: -Pois, bem. Estou ouvindo. Mal, mas ainda ouvindo. Aonde devemos procurar para encontrar a Felicidade? Que me sugere?

Jovem: -Simplesmente, pare de procurar.

S.: -Quer dizer que assim, ela virá até mim?

Jovem: -Não coloque palavras em minha boca. Disse para simplesmente ignorá-la, evitá-la. Mesmo que ela venha até você, rejeite-a.

S.: -Qual! Está louco. Diz que está aqui para me ajudar, que sabe como encontrar a Felicidade, porém propõe justamente o contrário?

Jovem: -Presta mais atenção no que digo. Realmente, estou aqui para te ajudar, mas não disse que sabia como encontrar a Felicidade. E mesmo que soubesse, não diria. O que eu realmente disse foi que sabia o que procurava, e também que possuo as respostas. E a resposta é simples, esqueça a Felicidade.

S.: -E posso perguntar por quê?

Jovem: -Além de surdo, também é cego? Acaso não percebe que na verdade, o que chamamos de Felicidade, Alegria, Prazer, é a própria Morte? Não vê nela a fonte de todas as misérias deste e dos outros mundos? Não vê que só sente esta dor, ou seja lá o que for, porque pensa que lhe falta alguma coisa? Não haveriam guerras, fome, destruição, se não houvessem os apetites. Nunca percebeu que as plantas carnívoras usam seu cheiro atraente para devorar suas presas? Guarda o que te digo: A Felicidade é a própria Morte.

Tempo:

Jovem: -Ainda não se convenceu? Olha para os mortais. Conseguiram vender a ideia de que é possível comprar a Felicidade, e o que aconteceu? Vê, já que tem olhos: é a nova e verdadeira e única religião.

S.: -Roupas estranhas as suas. Afinal, quem é você?

Aperto de mãos.

Jovem: -Prazer em conhecê-lo. Eu sou Lúcifer.

Perplexidade. Depois, risos:

S.: -Oras! Lúcifer. Onde estão suas asas, anjo?

Lúcifer: -Caíram. Estava um dia a voar em direção à luz, despreocupado. Como aqueles insetos que aparecem nos dias quentes. Depois, veio aquela pancada forte nas costas. Quando recobrei os sentidos, minhas asas haviam sumido.

Reflexão. Dúvida:

S.: -Sério?

Risos:

Lúcifer: -Vê? Não sabe diferenciar nem a verdade da mentira! Veja, ainda carrega o peso de teu cadáver nos ombros, como se isto pudesse tornar mais leve a sua existência. Não é mais mortal, mas ainda é muito tolo. Como poderá compreender sem a minha ajuda?

S.: -Chega de brincadeiras. De qualquer modo, se for verdade o que diz, então explique-me: por que Deus permite tal traição?

Lúcifer: -Deus? Qual deus?

S.: -Acaso existem muitos?

Lúcifer: -Nem poucos. Já vivi muito, vi muitas coisas e desvendei muitos mistérios. E com toda a minha sabedoria, posso dizer que jamais vi nenhum deus.

S.: -O quê?

Lúcifer: -Isto o que ouviu. Vivi muitos milênios, sou um anjo e o Adversário, mas jamais conheci nenhum deus.

S.: -E as Escrituras?

Lúcifer: -Histórias para crianças dormirem.

S.: -Impossível! Mente, afinal, como disse, é o Adversário.

Lúcifer: -Adversário sim, porém, adversário da ilusão da morte. Então, como explica todo este sofrimento? Como um deus infinitamente bom, ou mesmo, infinitamente sábio permitiria tais flagelos?

S.: -Para punir suas criaturas de suas transgressões, e assim redimi-las. O minério bruto só se transforma em diamante após sua dolorosa dilapidação. E há ainda o Pecado original, transgressão na qual você teve sua parcela de culpa.

Lúcifer: -Culpa? Como posso ter culpa de algo que jamais aconteceu? Os mortais precisam inventar desculpas para o que não entendem. Só assim conseguem preencher temporária e fragilmente a lacuna que existe em suas almas. Ademais, se for como disse, por que um deus que tudo conhece, criou criatura tão vil, que de antemão, sabia que um dia o trairia? Ou melhor, se tudo podia, por que não os concebeu já perfeitos?

S.: -Só existe perfeição quando tudo se pode. E para isto há o Livre-arbítrio. Todos têm a oportunidade de serem perfeitos, ou não. Precisa ser mantido o Livre-arbítrio.

Risos:

Lúcifer: -Livre-arbítrio? Que é tal coisa?

S.: -Oras! Pergunta tola. É a capacidade que todos os mortais têm de se determinarem conforme suas vontades. São livres, completamente livres.

Lúcifer: -É livre? Completamente livre? Então voe.

S.: -Como?

Lúcifer: -É livre, não é? Então, pode muito bem voar como os pássaros.

S.: -Impossível.

Lúcifer: -Vê? Já nasceram escravos, e nem percebem isto. Estão obrigados por leis que desconhecem, e que também não podem nem sequer tentar transgredirem. Pensa: Não há tal coisa como o Livre-arbítrio. Só há Livre-arbítrio onde há Livre-escolha. E como bem sabe, não são os mortais que inventam as opções. Já nascem num mundo de regras que não podem mudar. São como os pássaros engaiolados, que pensam estarem livres por poderem mover-se num espaço exíguo.

Reflexão.

Lúcifer: -Inútil tentar inventar mais teorias para a sua miséria. Não compreende que é a busca desta Felicidade, mesmo onde não há Felicidade que o consome? A Felicidade é o fogo que consome sem queimar. É a morte disfarçada sob a bela máscara da vida.

S.: -E o que sugere?

Lúcifer: -Simples. Faça como eu: decaia. Liberte-se dos grilhões de seus desejos. Deixe de buscar o inatingível, o inexistente. Pare de se culpar pelo que não provocou. Vem comigo. Eu te mostrarei o caminho.

Longa pausa. Hesitação. Enfim, calmo:

S.: -É um tolo. Ilumina o seu próprio caminho com uma luz negra. Enforca-se na própria língua, nas próprias ilusões. Não vê que está tão perdido quanto os mortais?

Lúcifer: -Quê?

S.: -É tão cego quanto eles. Porque nunca atingiu a Felicidade verdadeira, passou a renegá-la. Porém, não percebe que está num círculo vicioso. Confunde a verdadeira Felicidade com a sua melancolia interior. E assim, ao afastá-la, continua procurando a salvação, apenas dá um outro nome a ela. Não percebe? Aos masoquistas, a dor é prazer. Ao Diabo, a Felicidade é Morte. E a renúncia da Felicidade é a Salvação.

Pontua:

S.: -No fundo, você quer o mesmo que todos nós. Não importa como chame: felicidade, paraíso, tristeza ou inferno. No fundo, continua procurando. A palavra te cegou, mas o significado é o mesmo. Vou-me embora, nada há que possa conseguir por aqui, a não ser novos nomes para coisas antigas. Alguém me disse a muito tempo que os nomes só servem para confundir, talvez seja certo. Mas agora, tenho um objetivo: encontrarei a verdade. Se uma houver, eu a encontrarei.

Perde-se no caminho.

 

III

 

Tempos.

  1. está cansado. Aproxima-se de um jovem, cabelos dourados, encaracolados, olhar fixo no reflexo de uma poça lodacenta.

S.: -Posso sentar-me, filho?

Nenhuma resposta.

Gritos:

S.: -Posso sentar-me, filho?

Desviando o olhar, por um momento, logo voltando à posição original.

Jovem: -Não me aborreça, vagabundo.

S.: -Fale mais alto, filho, sou um pouco surdo…

Jovem: -Vai-te embora. Irá assustar a maior maravilha do mundo.

S.: -E posso ao menos saber onde está tal maravilha?

Jovem: -Além de surdo é cego? Como pode não ver? Talvez seja a ofuscação que te fere os olhos brutos. Aqui, preso neste espelho mágico, podemos ver um anjo. E veja: é impossível tocá-lo. Sempre que estendo minha mão, foge, esconde-se em meio a vibração das águas.

S.: -É muito ingênuo, filho. Não vê que é o teu próprio reflexo? Ninguém mais além de você mesmo. Este é um dos efeitos da luz dos mortais: pode captar as aparências nas mais inusitadas superfícies.

Jovem: -E quem disse o contrário? Disso eu já sei. É você quem não percebe. Apenas não canso de ver minha imagem, ouvir minha voz, repetindo meu nome: Narciso, Narciso, Narciso. Em meus pensamentos tudo é belo! E o meu simples reflexo neste mundo toma tudo tão atraente. Não consegue entender? Sou a maior maravilha deste mundo. Sou a criação mais feliz do universo. Sou o objeto e o sujeito de meu próprio amor. Os deuses concederam-me a graça de ser completo.

S.: -Narciso? Isto explica muito… Bem, prazer, meu nome é S…

Interrupção.

Narciso: -Não me importa quem é, vagabundo. Eu sou Narciso, não preciso de nada mais.

Pensamentos:

SERÁ ESTA A SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA?

 

***

 

Tempos:

S.: -Por que parou de olhar?

Narciso: -Acaso te devo explicações?

S.: -Acaso a beleza cansa?

Narciso: -Como disse antes, é apenas uma ilusão da luz dos mortais. Mas nada, simplesmente nada pode apagar a luz que de mim emana e que me alimenta. A felicidade de ser quem sou.

S.: -E no dia que cansar de ser ti mesmo? Sua dor será horrível. Não poderá dar para si mesmo, para sempre, o que na verdade não possui. Como pode nutrir-se de si mesmo? Logo a fonte secará, e você terá sede, sede que não poderá ser saciada em nenhuma outra fonte.

Narciso: -Tal dia nunca chegará. Eu mesmo posso encher a fonte, sou inesgotável. Somente vivo os dias, porque acordarei sempre no outro. Cale-se. Aonde quer chegar com esta conversa estranha? Por que não vai embora? Segue teu caminho.

S.: -O caminho me trouxe até aqui.

Narciso: -É um louco.

***

 

Dias.

Exaltado:

Narciso: -Maldito! Mil vezes maldito! É uma ave de mau agouro. Aqui está a provocar maus presságios. Pousou, negro, em minha alma. Já posso antever as sombras do futuro.

S.: -Já terminou? Foi rápido demais. Pensei que o espetáculo duraria mais.

Narciso: -Durou milhares de anos! Mas não acabou. Não pode acabar assim. Logo deixarei de sentir este vazio. Deve ser apenas um feitiço que lançou contra mim. Mas não pode vencer o meu verdadeiro amor.

S.: -Não mais suporta olhar a tua imagem, não é? Sua voz não mais te causa interesse, não é? Deixou de ser especial, agora toma-se apenas mais uma não? Cedo ou tarde aconteceria. Milhares de anos? Não importa, sempre acontece, é o que os mortais chamam de Saciedade.

Narciso: -Vá embora, e tudo voltará ao normal. Sua presença corrompeu-me a alma. Vade retro! Não sinto mais nada. Nada! E o nada me provoca repulsa. Por quê?

S.: -Isto ainda não descobri. O que sei é que acontece sempre. A sua fonte secou. Agora restam apenas as areias da Saciedade. Tudo se esvai neste mundo. Tudo tem um começo, um meio e um fim. Até mesmo a felicidade, ou o seu amor, como queira. É um bem que se consome. Assim se saciam todos os apetites: por que tudo se consome, tudo acaba, tudo chega ao fim. Sua fonte secou. Talvez fosse uma represa, mas no íntimo, sabia que secaria. Cada segundo é uma gota que evapora, um degrau que se desce.

Pausa. Continua:

S.: -Porém, é muito cruel. Como tudo que chega ao fim, sempre provoca uma reação violenta para sua conservação. Assim, todos os homens sabem que vão morrer. Mas agarram- se tenazmente à vida, e não raro, iludem-se, imaginando-se imortais. Mas a dor sempre chega.

Narciso: -E que farei agora?

S.: -Conforme-se.

Narciso: -Não!

Atira-se na poça de lama. O corpo afunda, e some.

S.: -Espere! É inútil.

Tenta buscá-lo, mas para sua surpresa, a poça é rasa.

 

IV

 

Imaginando coisas estranhas, uma música não menos estranha, captura sua atenção. Ao longe,                                   uma forma pequena, tocando flauta, aproxima-se aos saltos. Impossível não conhecer, é Baco.

Baco: -Venha! Venha! E traga o seu amigo com você.

S.: -Para onde?

Baco: -O lugar não importa. Mas não se arrependerá de vê-lo. É um banquete. Venha e não se arrependerá. Há muita música, comida, bebida, e claro, há Afrodite, as musas, as ninfas. Há muitos amigos, e muitas brigas. Sei que não quer perder o espetáculo, venha.

Pensamentos:

O QUE TENHO A PERDER?

 

***

 

S.: -Chegamos?

Baco: -…

S.: -Aonde estão todos?

Baco: -Eles sumiram…

Cínico:

S.: -Banquete mais insólito que este ainda não vi. Os cálices estão vazios, os assados apenas ossos. Espera, posso ainda ver algo. Ah! Sim, são os fantasmas, que dançam alegremente ao som do silêncio.

Baco: -Por que escarnece? Não vê que há aqui problema da maior gravidade? Aonde todos foram? Por que me abandonaram?

Gritos:

Baco: -Aonde estão vocês? Acaso é alguma brincadeira? Não vejo graça nenhuma nisto. Afrodite? Apareçam.

Nada.

S.: -Vou-me embora.

Baco: -Até você? E como eu ficarei? Por que todos foram embora? Até a pouco estavam todos tão felizes. Até mesmo Felipe, o Hedonista, fugiu.

S.: -Tudo cansa.

Baco: -Mas como a música pode cansar? Como os amigos podem cansar? Como Afrodite pode cansar? Enfim, como o prazer pode cansar?

S.: -Olha com teus olhos. Cansa por que se consome. Não se vive com o prazer, e sim nutre-se dele. Sobram apenas os restos cansativos e aborrecidos do nada. A chama da vela só permanece viva, enquanto a parafina ainda lhe alimenta. No fim, são apenas alguns restos retorcidos e negros.

Baco: -E que farei?

S.: -Conforme-se, filho.

Pensamentos:

O CICLO SE REPETE.

Baco: -Que disse?

S.: -Oh! Nada. Apenas pensei alto. Talvez alto demais.

Segue no caminho.

 

V

 

Tantos caminhos para trilhar, e logo neste se encontrar.

Estranho: -Espera, tenho alguns trocados para te dar!

S.: -Obrigado, estranho, mas não peço esmolas.

Estranho: -Então aceita esta contribuição para tua busca.

S.: -E como sabe que busco alguma coisa.

Estranho: -Sei tudo sobre ti. Embora, tu não me conheças.

S.: -Então, faça-me o favor de apresentar-se.

Hesitação.

Estranho: -Perdão. Mas algumas pessoas passam a vida evitando-me.

S.: -A vida já não mais possuo. Não preciso mais evitá-lo então.

Apertam as mãos.

Estranho: -Pois bem. Eu sou Satan.

Risos.

S.: -Qual! Se não o conheço. Esquece que já nos encontramos, já há muitas noites, por estes caminhos?

Satan: -Raramente esqueço-me de algo. Ainda mais de algo importante. Creio que esteja enganado.

S.: -Oras! Apresentou-se como Lúcifer, o Adversário, ou coisa que o valha.

Satan: -Lúcifer? Não era eu.

S.: -E não é Lúcifer o mesmo que Satã, o Diabo, o Demônio?

Satan: -Quem te disse isso?

S.: -Não importa. Mas então, se não era você, então quais são seus motivos? Acaso estava me procurando?

Satan: -Não. Encontramo-nos apenas por que costumo voltar para casa por estas ruas. Venho caminhando, pois gosto de caminhar. Respirar o ar da noite.

S.: -Na verdade, sempre pensei em Satã como uma metáfora. Uma filosofia, sem conexão real com este mundo.

Satan: -E como poderia ter surgido tal conceito do nada? Toda mentira é uma distorção da verdade. Mas a verdade existe. Se não existisse, não seria possível a mentira. Assim se dá comigo. Exageram, distorcem minha personalidade, por isso, os mais sábios negam minha existência.

S.: -E Deus existe?

Satan: -Mas está claro que existe. Do que chamas o ponto original de onde toda esta criação provém?

S.: -Dirá, então, que não o conhece?

Satan: -Na verdade, digo que poucos o conhecem tão bem quanto eu. Poucos suportariam a visão Dele sem desintegra-se em pó. Perto Dele a luz do sol é menos que uma faísca, quase uma sombra. Estive em Sua presença muito antes do dia em foram criados os mortais. Mas por que todas estas perguntas. Que tipo de interrogatório é este?

S.: -Perdão. Só estou um pouco curioso.

Satan: -Então, podes acompanhar-me. Será agradável conversar contigo.

S.: -Suponho então que pode esclarecer algumas dúvidas que a muito me atormentam.

Satan: -Será um prazer. Vejamos no que posso ajudá-lo.

S.: -Por exemplo. Qual o sentido da vida?

Satan:  -Ah! Esta é fácil. Pensei que perguntarias algo mais difícil. Simples: o sentido da vida é o parasitismo.

S.: -Parasitismo?

Satan: -Nada mais claro. Perceba: Sugam-se uns aos outros. De várias formas, desde a cadeia alimentar, até as modernas correntes econômicas. Sugam sem parar. Se pararem, serão inevitavelmente sugados.

S.: -Mas não foi isto que perguntei. Perguntei qual é o sentido da vida. Não os seus efeitos exteriores. Para que tudo isso?

Satan: -Oras. Já o disse: o sentido da vida é o parasitismo. Ou seja; a subjugação, a escravização, enfim, o poder. Eis o verdadeiro pão que alimenta a alma: o poder.

S.: -Não posso entender que tipo de fim é este.

Satan: -O fim é adquirir cada vez mais, sugar cada vez mais, obter, vencer, parasitar sempre e sempre mais. E depois, evitar ser parasitado. Este é o fim único das coisas. Basta pensar: o que fazem todas as coisas? Não é necessário responder com palavras. Todos os teus sentidos te dizem isto: adquirem cada vez mais poder, ou são absorvidas, Até mesmo os sábios parasitam os livros, procurando mais e mais conhecimento. Absorvendo-lhes as ideias.

S.: -…

Satan: -Em toda a natureza funciona dessa maneira. Vede os mortais, por exemplo. Conhecem de cor esta lei desde que nascem, e antes disto; apenas não a sabem traduzir em palavras. Que é a semente que se desenvolve nos úteros de suas mães, além de um enorme parasita? Crescem, devorando pouco a pouco as essências vitais de suas genitoras. E mesmo depois de expelidos, continuam criando laços emocionais, sempre a exigindo mais. Só na morte, alguns, param de parasitar, e assim mesmo, só para serem parasitados por outros seres. O ciclo jamais acaba. A verdadeira lei é aquela que se justifica por si mesma. Qual lei maior, que não precisa de justificação – pois em tudo se reflete, e tudo lhe segue incontinenti – além do parasitismo? Não vive a dizer que tudo acaba? Que tudo se consome? Se tudo se consome é porque existe uma força que atua sempre, consumindo tudo. Esta força é o parasitismo.

S.: -E por que Deus permite tal? Acaso esta maldição é obra sua?

Satan: -Minha obra? Estou aqui apenas para ajudar. Quem senão Deus, poderia ter uma ideia tão abominável? Deus é o maior parasita que já existiu, que existe, e que existirá. E vós fostes feitos a imagem dele. Será que só agora compreende o verdadeiro sentido da frase? Não é uma semelhança física, e sim, a semelhança espiritual.

S.: -Então é isto? Somos a criação e alimento de um Deus parasítico?

Satan: -E não apenas vós. Tudo o mais. Não sois o rebanho dele? Não compreendes este significado também? Para que os homens criam rebanhos? E veja: por que os antigos faziam sacrifícios para seus deuses? O que eles não entendiam é que Deus não se alimenta fisicamente de vós. É algo mais espiritual, mais sutil. Existem para saciá-lo. Eu poderia discorrer horas e horas sobre a natureza teológico-culinária das coisas e seus místicos temperos, porém, infelizmente, não há tempo.

S.: -Então é apenas isso?

Satan: -Na verdade, é bem mais simples do que parece à primeira vista. Porém, aos mortais, a simplicidade é infinitamente complexa.

S.: -Não sou mais mortal.

Satan: -Contudo, age e pensa como um mortal. Veja: por que carrega teu corpo até hoje, veja como está putrefato. Alguém já te disse que se apega demais às coisas materiais?

S.: -Já, a muito tempo. Não importa mais. Não me distraia. Recuso-me a acreditar em coisa tão vil. Não pode ser este o fim de tão grande obra. De uma mão perfeita só pode vir uma obra perfeita. Meu Deus com certeza não é o teu.

Satan: -Viu só! Acabas de provar tudo o que eu disse!

S.: -Como? Acabo de contradizer tudo o que me disse. Tudo, não acredito em nada. Acaso é mais surdo do que eu?

Satan: -Viu só! Desejas sempre mais e mais, e não satisfeito, mais ainda. Não suportas a verdade de que sua vida, e todo o resto, resumem-se ao simples parasitismo. Para você até mesmo as verdades têm de ser grandes, perfeitas, nobres. Não se contenta em saber de sua insignificância, então, revolta-se, querendo outra “verdade”, maior que a primeira. Mas lembre-se: as verdades são simples. Goste delas ou não. Vede? Até aí teu comportamento é parasítico. Não basta saber a verdade, ainda assim, quer mais. Ê uma febre, uma necessidade, uma fome insaciável. A maior prova de que a obra não é perfeita é você mesmo: faz parte da obra, mas não é perfeito. Só haveria perfeição se Ele quisesse que houvesse.

S.: -Vou-me embora. Você é sagaz como uma serpente. Em tua boca, até as palavras mais belas são torpes. Adeus.

Satan: – Talvez nos encontremos ainda um dia. Adeus.

 

VI

 

E uma noite:

S.: -É você a resposta que tanto procuro? Finalmente consegui?

Morte: -Temo dizer que não.

S.: -E como sabe o que procuro?

Morte: -Simples. Já aconteceu várias vezes. Quem seria tolo o suficiente para procurar a Morte, não fosse para obter respostas?

S.: -Respostas que não conseguem, e que também eu não conseguirei.

Morte: -E por que desiste tão cedo? Já que está aqui, por que não arrisca alguma pergunta?

S.: -Não sei se compreendo bem. Ainda há pouco, disse-me que não é a resposta que procuro.

Morte: -Realmente, não sou, vê alguma resposta escrita na minha testa?

Afasta os longos cabelos de ébano.

S.: -Aí está escrito “Mistério”.

Morte: -Vê? Não sou a resposta.

S.: -Então?

Morte: -Realmente, não sou um compêndio de verdades. Mas nada te impede de fazer perguntas. Afinal, foi a isto que veio. Temos todo o tempo do mundo, não? São raras as vezes em que posso conversar.

S.: -Sentemos.

Morte: -Claro!

S.: -Para começar. É você a Dor?

Morte: -O quê?

S.: -A Dor. Meu guia disse-me, a muito tempo atrás, que a dor é o sopro da morte. É verdade?

Morte: -Tanto não é verdade que na maioria das vezes, alivio a dor. Sou o remédio mais eficaz que existe para os males deste mundo. Olhe para mim. A morte é bela.

S.: -Morrer não é belo.

Morte: -Os mortos não são belos. Mas este é um problema dos mortos, não meu. Olhe para este cadáver que carrega, e depois olhe para mim. A morte em sim é uma experiência comovente. Purifico, lavo, exalto. Gravo na história o nome de simples mortais com minha letra gloriosa.

S.: -Então, você é a Felicidade? Lúcifer disse-me uma vez que você é a própria Felicidade. Mas que se trata de uma máscara, atrai com seu perfume os mortais, do mesmo modo que uma planta carnívora atrai sua presa. E no final, tudo destrói.

Morte: -Veja por sua própria experiência. Está morto. Porém, não foi totalmente destruído. Preconceitos, meu caro. Bem sabemos que a morte não é o fim. É apenas o princípio do fim…

S.: -Tive mesmo esta impressão.

Morte: -Todos têm. Alguns negam, mas todos sentem.

S.: -E como consegue fazer tudo isto, ao mesmo tempo. Quero dizer, agora por exemplo está conversando comigo. Mas ao mesmo tempo, mortais estão…

Morte: -Compreendo. Posso confiar-lhe um segredo?

S.: -Óbvio. Minha boca é um túmulo. Literalmente.

Morte: -Pois bem, lá vai: tenho ajudantes. Muitos deles.

S.: -Ajudantes?

Morte: -Sim! E o melhor: cobram pouco. Parece-me até que gostam da coisa! Melhores não há.

S.: -Então é assim que se dá o processo?

Morte: -De qualquer forma, isso nem é preciso.

S.: -Não?

Morte: -Escute. Os mortais são muito criativos, nem precisam de ajuda. Sabem muito bem morrerem sozinhos, morrem como moscas, quando não se matam uns aos outros. Você nem desvia o olhar, e logo já estão sepultados, a sete palmos embaixo da terra. Que a terra lhes seja leve. Agora mesmo, estão inventando jeitos completamente novos e horríveis de se morrer. Deixe-me dar um exemplo, logo ontem…

S.: -Não é preciso. Estou satisfeito.

Morte: -Por que ainda me teme tanto? Por que se sente deslocado? Afinal, não convive comigo já há… deixe-me lembrar… uns trezentos anos?

S.: -Trezentos anos? Meu Deus. Achava que parei no tempo. Como o tempo voa.

Longa reflexão.

S.: -Mas como me disse alguém. O tempo já não mais importa, não é mesmo? Afinal, estou morto.

Morte: -Engana-se. Agora o tempo é mais importante. Não percebe como as horas passam rápido nestas últimas noites? Não percebeu ainda a importância de cada segundo que caminha em direção a mim, e que de mim se afasta?

S.: -Bem…

Morte: -Talvez para você não importe. Para o resto do universo, é vital.

S.: -Vamos mudar de assunto.

Morte: -Está bem. Pois então, conte-me, como morreu?

S.: -É sempre assim tão mórbida?

Morte: -Ossos do ofício.

S.: -E não se lembra como foi?

Morte: -Não. São tantos casos, tantos rostos. Na minha posição não se pode ter muita intimidade com os mortais. O profissionalismo é importante para o bom desempenho de minhas funções. Ademais, talvez tenha sido algum dos meus subordinados que cuidaram de você.

S.: -Vou tentar. Já tentei antes, entretanto, sem sucesso. Mas é muito confuso. Muito embaralhado. Opaco. Já não posso mais ter certeza de que realmente foi desse modo. Talvez sejam apenas fragmentos de algum sonho ruim. E mesmo desse sonho, muita coisa se perdeu. E não duvido que tenha juntado muitas partes que jamais aconteceram. Mas como disse, não posso ter certeza de nada. E o que me lembro, se é que realmente me lembro, é o seguinte: estava só, depois, aquela sombra, que não era uma sombra, era… era…

Morte: -Era o seu reflexo, sua imagem refletida num espelho…

S.: -Exatamente, mas…

Morte: -Mas?

S.: -Mas não havia espelho. Não havia mesmo. Não repetia meus movimentos. Era algo… diferente.

Morte: -E?

S.: -Depois veio a Dor, a dor no peito. O medo. O frio. E a dor tudo apagou. Apagou a visão, sumiram os sons, congelou-se o tempo. E depois, estava no meio de uma multidão. E eles estavam felizes. Riam. E o momento não era de riso. Eu podia sentir que não era o momento. No vento frio. Nas cores cinzas… era um…

Morte: -Era um velório.

S.: -Sim. Era um velório. E depois, o enterro. O meu enterro. Entende? Era o meu enterro. Era eu quem estava no caixão. O meu rosto. O meu corpo…

Morte: -Perfeito.

S.: -E eu tinha que fazer alguma coisa. Não era digno. Não era justo. E eles riam. Riam alto. Rostos conhecidos, outros desconhecidos.

Morte: -O que fez?

S.: -Não sei Só sei que depois, estava com meu corpo. Consegui pegá-lo, de alguma maneira. E hoje está ele, aqui, seguro, comigo.

Morte: -Carregou e carrega o seu corpo como se fora uma cruz.

S.: -E não é isso? Não é o corpo a cruz que o espirito carrega? Não é com ele que deve atravessar o vale da vida, com todo o seu peso? E principalmente, através dele, sentir a dor?

Morte: -Não.

S.: -Como não? Não é óbvio?

Morte: -Oras. Veja. Está morto há tanto tempo, e continua sentindo dor. E algumas vezes, até mesmo prazer.

S.: -É verdade…

Morte: -E tanto é verdade. Que a sente de modos infinitamente diversos de quando era vivo. Sente-a como nunca sentiu antes.

S.: -Sim.

Morte: -E como já devia ter percebido, esse negócio de almas, espíritos, simplesmente não existe. Não mais vive, entretanto, jamais presenciou nenhum destes seres. Aliás, ainda não possui um corpo?

S.: -Dois corpos. A morte trouxe-me dois corpos. Um antigo e outro menos antigo. Parece que me presentearam.

Morte: -E por que ainda o carrega? Mesmo tendo outro? Acaso alguém já disse que é muito apegado ao mundo material?

S.: -É simples. Nada mais justo do que ficar com o que me pertence por direito.

Morte: -Apega-se como uma criança a seus brinquedos.

S.: -Ao contrário. Possuo sim, mas não é posse egoísta. Na verdade, zelo, guardo, protejo. Além de que, mereço um enterro mais digno do que os mortais poderiam me oferecer.

Morte: -E mesmo depois de anos, ainda não o enterrou. Profanou sua própria sepultura.

S.: -Veja bem: preciso de solo sagrado. Como poderei descansar em meio a corrupção dos mortais?

Cinismo:

Morte: -E isto há séculos. Nada o fará mudar de ideia.

S.: -É tarde. E vejo que não tem as respostas que procuro. Vou andando. Passar bem.

Morte: -Como sabe que não tenho as respostas. Ainda nem perguntou o que realmente quer saber.

S.: -Pelo seu próprio belo rosto. Sabe o que ele me diz?

Morte: -Quê?

Cinismo:

S.: -Convive com ele a milênios, e ainda não sabe? Pois bem, ele me diz: “Mistério”. Justamente o que me disse no momento em que o vi pela primeira vez, e que aliás, você mesma me indicou.

Morte: -Mas não é aí mesmo que repousam a maioria das respostas? Não são necessários os caminhos misteriosos para chegar nas paragens mais paradisíacas? Além de que, como disse e repito, não sou a resposta. Mas posso saber como encontrá-la.

S.: -Então, responda-me: qual o sentido da vida? Ou melhor, que é a vida? Para que a morte? Por que a dor?

Morte: -Vamos com calma.

S.: -Mas vamos.

Morte: -Por exemplo, a vida. Não é o assunto com que tenho mais intimidade, mas a conheço o suficiente para dizer que… não acho melhores palavras… a vida não passa da masturbação do Ego.

S.: -Quê!?

Morte: -Não me julgue rude. Porém, é exatamente o que ouviu. A verdade não admite eufemismos. Talvez preferisse onanismo egocêntrico.

S.: -Que brincadeiras são essas?

Morte: -Brincadeiras? Por que eu não diria a verdade, toda a verdade que sei? Extremamente simples. Talvez não agrade aos seus ouvidos, contudo é a pura, simples e talvez única verdade.

S.: -Não compreendo.

Morte: -Não entende por que sua mente está carregada de preconceitos mortais. Deixe de pensar como eles. Ainda acredita que a morte é o lado oposto da vida, e vice-versa. O que não é real, como explicarei mais tarde. Acredita, ainda, que se divide em corpo e espirito, embora veja que não é desse modo que as coisas são.

S.: -Não é?

Morte: -Não. O mundo, e tudo além dele. Constitui-se de pontos fundamentais. Indivisíveis. E este ponto fundamental é o ego. Através dele, tudo é construído. Pequenos tijolos de uma magnífica construção. Pequenos egos, egos invisíveis e indivisíveis, que quando juntos, formam grandes egos…

S.: -Explique-se melhor.

Morte: -As coisas não passam de manifestações em maior ou menor grau dos egos primordiais. Veja, quando o ego se excita muito, e quer provar os prazeres e dores do mundo carnal, eles simplesmente brotam como seres humanos.

S.: -Brotam?

Morte: -Nascem, vem a luz, criam-se, etc… Não importa, e assim com tudo o mais, desde o minúsculo germe, as flores, as pedras, as casas…                                                                  ‘

S.: -Pedras? Casas? Mas como? Não são seres inanimados? Afinal, não tem consciência.

Morte: -Viu? Está muito influenciado por ideias preconcebidas. Consciência, inteligência, e ego são coisas diferentes. Os primeiros são decorrentes do segundo, e não o contrário. O correto não é penso logo existo, nem existo logo penso, e sim, simplesmente, existo. As pedras são egos, sim. Egos inconscientes, como as flores, mas egos. Assim como o conjunto de tijolos, egos menores, formam as casas, egos maiores. Assim como os órgãos, formam os seres vivos. Do mesmo modo que o conjunto de egos de mortais a um determinado tempo e espaço, formam o ego de uma nação; e até mesmo o ego planetário e o universal.

S.: -Que é a consciência então?

Morte: -Consciência é apenas a capacidade do ego de ter consciência de que é um ego.

S.: -Então é isto que diferencia o ego dos homens de outros egos?

Morte: -A simplicidade é inerente à verdade. Não a precariedade. Não podemos esquecer o resto. Uma infinidade de atributos diferencia um ego do outro. Há mais egos entre o céu e a terra do que sua vã filosofia pode divisar, disse um certo ego mortal solitário. Até mesmo os mortais não são exatamente conscientes. Eu diria que antes são subconscientes. Sabem que são alguma coisa, mas não sabem que são apenas egos. Por isso inventam todo sistema inútil. Falam em vida após a morte, espíritos, fantasmas, almas, ciência, razão, filosofias e outras futilidades que mais embaraçam do que explicam.

S.: -Começo a entender.

Morte: -Não se apresse. As verdades vêm naturalmente, em graus. E sempre deixam aquela sensação típica de preenchimento, de sabedoria, de finalmente encontrar… Sente?

S.: -Sim.

Morte: -Quer saber de algo interessante? Sabe o que acontece quando um ego se excita demasiadamente?

S.: -Um Deus?

Morte: -Não, um advogado.

S.: -Bom. Então, qual o sentido da morte?

Morte: -Podemos definir a minha missão como aquela dos anjos.

S.: -Anjos?

Morte: -Sim. Mantenho o equilíbrio do mundo. Evito que os egos se tomem demasiadamente perigosos uns aos outros. E trago a paz aos egos desesperados. Afinal, se existe uma porta de entrada, com certeza tem de haver uma saída. Senão, seria uma prisão.

S.: -E o que acontece com os egos após a passagem?

Morte: -Bem. Isso já não posso explicar perfeitamente. Não é minha área de atuação. Porém, sei que é algo muito íntimo e pessoal. Varia de acordo com os egos. Às vezes, eles simplesmente dissolvem-se no nada, outros, bem… veja, você é um exemplo.

S.: -Vou embora. Consegui o que queria. Pena que não acredite. Adeus.

Dá alguns passos.

Para. Volta o rosto, incerto.

S.: -Uma última pergunta. O que disse sobre a vida. Pode justificar?

Morte: -Justificar? Justificar como? Ou melhor, por quê? É claro como o dia. É preciso justificar uma flor quando se vê, toca ou cheira uma delas? Justificar o óbvio?

S.: -Perdão. Ainda não me parece tão óbvio.

Morte: -Não quer compreender.

S.: -Quero. Por isso pergunto.

Morte: -Está bem. Vamos pelo início. Qual acha ser o sentido de sua vida? Em função de que viveu seus dias?

S.: -Eu não sei.

Morte: -Sabe. Viveu para alimentar seu ego. Viveu pelo prazer. Viveu numa luta incessante para afastar aquilo que chama de dor. Família, emprego, amigos… Tudo isto são apenas variações de um mesmo tema. Sempre o mesmo. Seu ego tem fome. Viveu para alimentá-lo. Uma gula insaciável. Injustificável. Necessidade vital, carnal. Tudo é alimento para o ego. E o alimento é o prazer.

S.: -Não. Não pode ser apenas isso. Muitas pessoas há que não vivem pelo simples prazer.

Morte: -Então, diga-me o nome de uma.

Pensa muito.

S.: -Nomes não mais importam. Os mártires. Os santos. Verdadeiros altruístas. Viveram pelo próximo. Esquecendo-se de si mesmos. Vivendo pelo mundo.

Morte: -E então? Que isso prova? Nada. Absolutamente nada. Por si mesmos, ou pelo próximo, pelo Diabo. Não importa para quem. O fato é que vivem para o prazer.

S.: -Quer dizer que mesmo alimentando a outros egos…

Morte: -Não. Eles acariciavam sim os próprios egos. Se ajudavam os outros, era porque simplesmente isto lhes dava prazer. Mesmo sentindo dor física, era o prazer moral a que visavam. E digo mais, esperavam tuna recompensa. Uma vida eterna de prazeres. Dando e recebendo prazer. Uma orgia celestial.

S.: -Não pode ser somente isto. Recuso-me a acreditar.

Morte: -Recusa-se, mas seu íntimo o revela. Até mesmo a respiração. Respira, sorve o ar, porque isto lhe acaricia os pulmões. A vida é a diversão dos egos. Até mesmo os desesperados vivem na esperança de um prazer futuro.

S.: -Mas não concorda ao menos que existem tipos superiores então de prazer? Como disse, o prazer moral dos santos não é melhor que o prazer carnal dos libertinos?

Morte: -Não vejo nenhuma diferença. São como as cores do arco-íris. São várias, mas no fundo não passam de luz.

S.: -E o amor? Como explica sentimento tão nobre? A perfeita dedicação de todo o seu ser? A doação sem esperança de recompensa?

Morte. -Dê-me um exemplo então. Isso não existe. Jamais teve um exemplo real. Para tudo. Por trás de absolutamente tudo, sempre há um motivo egoísta mais ou menos oculto. Veja, o que chamam de amor, na prática é apenas uma relação de troca, da mesma forma que o ódio, apenas um pouco adocicada. É uma fachada. Relação de prazer e dor entre dois egos. Um submete-se, outro domina.

S.: -Sabe que não me refiro a este tipo de amor. Refiro-me ao amor fraternal, maternal, e por que não dizer espiritual?

Morte: -Simples. Porque tal não existe. A mãe ama seu filho, porque isto lhe agrada, seus instintos a forçam a assim agir. Contrariá-los seria sentir dor, e segui-los é um prazer.

Pausa.

Morte: -Amor espiritual? Nada mais antinatural. Delírios de poetas. Somente nas poesias encontrará tal aberração. Nunca na natureza. Não encontra lugar na realidade.

S.: -Chega. Adeus.

Passos hesitantes, ’volta-se uma vez mais.

S.: -Mas e se…

Desapareceu.

 

VII

 

Ares familiares.                                                                                               ,

Satan: -Há quanto tempo, amigo?

S.: -Maldita hora.

Satan: -E onde está o teu corpo, acaso finalmente o entregaste ao descanso eterno?

Mostra uma garrafa de bebida cheia de cinzas.

S.: -Que lugar melhor para descanso eterno do corpo, do que enterrado com sua própria alma? Que sepulcro mais santo?

Satan: -Sim… E a tua busca. Acaso encontraste?

S.: -Já estou cansado destas conversações fúteis. E a verdade estava o tempo todo em minhas mãos. Já é chegada a hora de eu tornar-me um guia e passar meus conhecimentos, melhores do que os que a mim foram passados.

Satan: -E o que concluíste?

S.: -Concluí que prazer e dor são os lados inseparáveis e necessários da mesma moeda. Sem eles, nada poderia existir. É tão simples, e tão incompreendido. Uma coisa não pode existir sem a outra, aliás, uma é a continuação da outra. Veja, se só existisse prazer, haveria a imobilidade total, pois nada mais seria necessário. E tudo seria pedra. Se só existisse dor. Nada existiria, pois tudo estaria completamente consumido. Nem mesmo cinzas, tudo seria vácuo. Logo, para que exista algo é necessário o ciclo da dor e do prazer. Veja: nada foge a esta regra básica. Tudo tem um começo, um meio e um fim. A vida, começamos, duramos e nos extinguimos. A frase começa, desenvolve-se e vem o ponto final. Isso é decorrência da dor e do prazer. No prazer, criam-se as coisas, mas o prazer consome-se, e esta é a saciedade, e logo, caímos na dor. E tudo terminaria assim, mas a dor não foge à regra, e ela também termina, e luta, para voltar ao prazer. E é através desse ciclo interminável, desta imensa roda da fortuna, é que gira o universo. É preciso dissolver para voltar ao início – esta é a dor – e é preciso consumir para chegar ao fim – este é o prazer. Como dizem os alquimistas: solve et coagula.

Desapontado:

Satan: -Não. Não é possível que tenha se passado tanto tempo, e não tenhas aprendido nada. Absolutamente nada.

S.: -Mas como? Não vê? Esta é a verdade.

Satan: -Não é. Pense. Dor e prazer, luz e sombra, vida e morte, começo e fim. Tudo se resume a dois pontos básicos, dos quais são apenas emanações. Tudo se resume em dois pontos bem mais simples: Ser e não-ser, ou seja, o bem e o mal.

S.: -Bem e mal são invenções dos mortais. São muito subjetivos. O que é mal para uns, é o bem dos outros. Veja, você está errado. Dor e prazer, tudo sente.

Satan: -Não estou errado. Quem está são os mortais. Eles confundem bem e mal. Mas isto é defeito dos humanos, que são confusos. Mas como já te disse, por trás de toda mentira, sempre há uma verdade. Não estou falando do bem e do mal egoístas dos humanos, que variam conforme a pessoa, e sim, do Bem e do Mal originais.

S.: -Por que devo acreditar em você? “Mas a serpente era o mais astuto dos animais da terra que o Senhor tinha feito” – disse Deus. E por que os mortais se confundem. Algo a ver com a torre de Babel?

Satan: -Muito antes disso. Estive presente. Citas o antigo testamento contra mim? Qual se não fui eu mesmo, quem, a longas noites, deitei no papel, para os mortais, a história da humanidade?

S.: -Escreveu o Livro Sagrado?

Satan: -Praticamente todos eles. Escrevi o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, Números, Deuteronômio, entre outros. Ainda ajudei a escrever todos os outros. Estive presente nas alucinações de São João. Até mesmo naqueles que os sábios consideram apócrifos e pseudopigráficos, tive meu quinhão. Os livros persas, hindus, orientais. Em todos eles ajudei na composição, se não os compus inteiros.

S.: -Por quê?

Satan: -Quem melhor do que uma testemunha ocular? Estive presente na criação do primeiro homem, e das primeira e segunda mulheres. E muito antes.

S.: -E ela o ajudou a abrir a porta dos infernos, e a tomar maldita sobre a Terra toda a raça de seus filhos.

Satan: -Qual! O tempo te tomou amargo e machista: Devias agradecer todos os dias de tua vida e de tua morte pela graça que te concedeu tua mãe original. Pois o primeiro homem era um covarde, um bicho, que pastava e bebia lado a lado com os animais. E corria nu com os macacos. A mulher, esta sim, entendeu meus sábios conselhos, e abriu, sozinha, as portas do conhecimento e do verdadeiro céu. Agora, desde o mais humilde campônio, ao mais poderoso rei sobre a Terra podem se tomar deuses. Veja: preferia viver para todo o sempre no parasitismo inferior? Como as bestas da terra? Não fosse por ela, assim seria.

S.: -E Deus disse: No dia em que comerdes morrereis.

Satan: -Não, não. Isso não foi o que escrevi, e sim o que os homens, modificaram. Como puderam modificar a Bíblia Sagrada? De qualquer maneira, o verdadeiro significado é este: morrerias, comendo ou não. Apenas comendo, porém, tiveram o conhecimento antecipado de que morreriam um dia. Veja, a frase de Deus não invalidou isto, antes, o confirmou. Eles não morreram por comer, apenas souberam. E graças a mulher. Hoje continua assim: elas sábias, controlam o caminho dos mortais e dos reinados, mas sutilmente, delicadamente, controladas, lentas, mas certas. Não há e não houve rei que não tivesse por trás a mão carinhosa de uma mulher para guiá-lo. E tudo isso, sempre com um sorriso fácil, uma pele macia e um perfume inebriante. Tenho um carinho todo especial por elas.

Continua:

Satan: -Quem sabe exista ainda uma chance para você. É um atalho. Toma, que vede?

S.: -É um fruto. Um fruto negro!

Satan: -Sua visão realmente deteriorou-se. Mas come que abrir-se-ão novamente, para cores jamais vistas. Tem em mãos o fruto do conhecimento do Bem e do Mal.

S.: -Mas não foi feito antes?

Satan: -Não completamente. Não tiveram tempo de comer totalmente, e a bondade de Eva fez com que dividisse sua pequena parte com Adão. Não tiveram tempo de saboreá-la até o fim, foram expulsos no meio do banquete. Pois Deus disse: “Agora pois, expulsemo-lo do paraíso, para que não suceda ele estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente”. Por isso os mortais ainda confundem o bem e o mal. O véu ainda não foi totalmente levantado. Coma tudo, porém lembre-se: jamais devore as sementes.

S.: -Interessante.

Satan: -E não comerás?

S.: -Ainda não. Nem sei se vou. Mas é bom guardar isto também. Apenas por segurança.

Satan: -A escolha é sua. Adeus.

S.: -Adeus.

 

FIM

 

Louca fome.

Em suas mãos. Um fruto…

 

VERDADEIRO FINAL:

(Escrito após revelações estranhas… Volte até a penúltima fala de Satan]

 

Satan: -E não comerás?

Reflexão. Olhos fixos no fruto, e logo depois, para Satan:

S.: -Então é isto? Será que você estava certo desde o início? É por isso que falava em parasitismo a todo o tempo? Quer dizer que posso saber tudo. Mas se souber, será o fim, não é? Quero dizer. Passamos a vida em busca. Nos alimentando de mentiras e meias verdades. Mas é isto que nos nutre. É isto que nos impulsiona para frente. Este é o motivo da existência, da vida. Se soubermos de tudo, não haverá mais necessidade de continuar. Este é o fim do parasitismo. Na verdade, ele é necessário. Por isto as respostas são tão complicadas e ocultas. A saciedade e a dor dominarão se assim não for. “No dia em que comerdes morrereis”…

Satan: -A escolha é sua. Adeus.


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